Seculo

 

Vanguardista de ocasião


13/11/2017 às 23:38
Os estrategistas de Paulo Hartung se esmeraram para construir uma embalagem que revestisse o governador como um político de vanguarda neste terceiro mandato. O desafio, desde o início desta gestão, é exibir o “novo produto” como uma liderança que, como um bom vinho, amadureceu, chegou ao ponto. Está no seu melhor momento. Um homem público à frente do seu tempo, que consegue enxergar política em 3D. O primeiro a enfrentar e derrotar a crise no seu Estado e se colocar como farol para o resto do País.
 
Em suas entrevistas (a última foi publicada em A Tribuna nesse domingo, 12), Hartung deixa a modéstia de lado para enaltecer a gestão “exemplar” que vem desenvolvendo à frente do Estado. Com a gestão fiscal modelo “aprovada” pelos formadores de opinião do chamado mercado combinada ao trabalho eficiente de sua assessoria nacional, o governador já foi “lançado” como vice de três ou quatro nomes que se apresentaram como presidenciáveis este ano. Nos últimos dias, Hartung vem explorando outra qualidade de sua gestão: a capacidade de incubar talentos. Ele quer sinalizar ao País que a fábrica de formar talentos fica no Espírito Santo. 
 
Para provar que não joga palavras ao vento, Hartung lista os nomes de três integrantes de sua equipe que foram “levados” pelo governo federal. Ralph Luigi (deixou o Departamento de Estrada de Rodagem para o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes); Ana Paula Vescovi (saiu da Secretaria da Fazenda para o Tesouro Nacional); e o mais recente, oficializado nesta segunda-feira (13), Eugênio Ricas, que deixa a Secretaria de Controle e Transparência para assumir a Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado da PF: o novo delegadão da Lava Jato.
 
Quem olha de fora pode até se impressionar com o brilho da embalagem, que reluz esse perfil vanguardista. De perto, porém, o produto desembrulhado não é bonito. A severa política de ajuste fiscal cortou investimentos, paralisou obras, congelou reajustes ao funcionalismo e deixou sequelas nas áreas essenciais. Cada uma delas, porém, expostas na vitrine em suas respectivas embalagens: Rede Cuidar (saúde), Escola Viva (educação) e Ocupação Social (segurança). 
 
Entretanto, é a maneira de fazer política que expõe o lado mais retrógado deste governo embrulhado nessa embalagem de vanguarda. O processo eleitoral do PSDB, que alçou o vice-governador César Colnago ao comando estadual do partido, é o episódio mais recente desse retrocesso. 
 
O deputado Sergio Majeski, que apoiou a chapa do desafiante derrotado na eleição desse sábado (11), o prefeito de Vila Velha Max Filho, foi pedagógico ao explicar na sessão da Assembleia desta segunda-feira (13), como se desenrolou esse processo eleitoral nos bastidores. Em poucas palavras, o tucano chamou atenção para o comportamento nada republicano do governador, que imiscuiu na eleição do PSDB – partido considerado estratégico para as suas pretensões políticas em 2018. Existe coisa com mais ranço de velha política do que se apropriar de um partido e decidir uma disputa interna no tapetão?
 
Majeski deixou claro que a chapa governista comandada por Colnago aceitou fazer o jogo palaciano que maculou o processo de escolha do novo presidente tucano. 
 
Esse é o caso que está na ordem do dia, mas, nestes três anos de mandato, o governador mostra ter duas caras. O Hartung que exibe um perfil vanguardista para fora do Estado e o que, para dentro, segue sendo um amante incondicional da velha política. 

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