Seculo

 

Perseguição à honra de Ruschi


16/11/2017 às 15:50
Meu pai, Augusto Ruschi, sempre foi o meu assunto favorito! Na infância eu até passei por uma fase em que apreciava os super-heróis da Marvel, só que os quadrinhos foram dando vez ao exemplo real a cada artigo dele que lia, a cada medalha de honra ao mérito que via e a cada história que familiares e amigos me contavam.
 
Mas, apesar da predileção pelo assunto, conversar sobre meu pai trazia também uma grande aflição, uma tensão que permaneceu cerca de três décadas em minha vida. 
 
Lembro-me, claramente, de ter frustrado repórteres pedindo para encerrar entrevistas, quando essas chegavam a questões extremamente delicadas, como “o que eu achava do meu pai ter empunhado uma espingarda para defender a Estação Biológica de Santa Lúcia contra ações do então governador Élcio Alvares”.  Naquela época, me faltava vivência, o que limitava minha opinião à magnitude emblemática que o ato representou. Essa é uma questão extremamente séria ancorada em práticas morais aliadas à postura de um patriota declarado – uma atitude de nobreza para com o meio ambiente que pode ser facilmente confundida com violência irracional por interpretações descuidadas.
 
A aflição era presente também no dia a dia, pois a qualquer momento, pessoas faziam perguntas como “por que a estátua símbolo do Museu que ele criou está sem cabeça há décadas” ou “o que aconteceu com as exposições originais que ele havia deixado funcionando”.
 
São perguntas sinceras cujas respostas têm se tornado cada vez mais claras, desde o insistente e obscuro processo de extinção do Museu Mello Leitão, haja vista a conexão desse ultraje com episódios pretéritos de lapidação do legado deixado por Augusto Ruschi.
 
A conexão desses pontos lamentáveis da história do Museu mapeia uma trajetória de perseguição atemporal a Augusto Ruschi, no passado, no presente, e, pelo que indicam os planos do Instituto Nacional da Mata Atlântica, garantida para o futuro. 
 
Não é de hoje que conheço os detalhes dessa acossa a meu pai. Mas muito me surpreendeu a forma como a perseguição à sua obra se estendeu à minha pessoa – e às pessoas que o defendem sem curvar-se à vontade de pesquisadores que hoje usurpam o fruto de seu suor em defesa da natureza.
 
Para aqueles que desconhecem, o local onde hoje está o Instituto Nacional da Mata Atlântica era a chácara da família Ruschi. Lá ele criou o Museu Mello Leitão (que o instituto desmanchou) -, onde eu morei junto com minha mãe durante os preciosos anos que tive a companhia do meu pai (1984 a 1986). 
 
Apesar de termos nos mudado do Museu, após o falecimento de meu pai, minha mãe continuou trabalhando no setor administrativo do Museu até sua aposentadoria, neste ano. E eu, que passei minha infância “brincando” de ajudar os tratadores e pesquisadores dentro do Museu, fui progredindo minha contribuição com a instituição à medida que avançava em meus estudos.
 
No segundo período da graduação em Ciências Biológicas, iniciei minha contribuição como pesquisador voluntário do Museu Mello Leitão (2003), vínculo que mantive até 2016. Para mim, sempre foi uma honra cooperar com a primeira instituição científica do ES, o único Museu de História Natural do Estado, seja carregando o nome da instituição em meus artigos científicos, colaborando com a mídia interessada que vinha ao Museu, guiando expedições à Estação Biológica de Santa Lúcia, ou outras atividades técnicas solicitadas pela direção do Museu. 
 
Infelizmente, de nada valeram meus 14 anos de contribuição mediante a minha postura de defender o Museu criado por meu pai. Em 2016, ao entregar em mãos a solicitação da renovação de meu vínculo de pesquisador voluntário do Museu ao seu então diretor, Hélio de Queiroz Boudet Fernandes, recebi uma resposta estranhamente negativa. Segundo Hélio, a renovação não seria possível porque eu estaria prestes a concluir meu Doutorado, de modo que vagas de pesquisadores voluntários seriam exclusivas para pesquisadores aposentados. 
 
Minha surpresa foi grande, mas não maior que a de minha mãe na ocasião. Como responsável do setor de Recursos Humanos do Museu naquela época, minha mãe estava acostumada a discutir assuntos de trabalho com o diretor, e não havia recebido nenhuma orientação a respeito dos vínculos. Muitas pessoas conhecem a relação de minha família com o diretor Hélio, mas gostaria de ressaltar que minha decepção neste caso não se relaciona a uma dívida pessoal ou nada desse tipo. Não me importa o fato de meu pai tê-lo convidado para trabalhar no museu, ou termos ajudado sua família a se instalar em Santa Teresa, doando-lhe meus agasalhos para que seus filhos se esquentassem no rigoroso inverno Teresense. A questão se trata da minha própria historia com a instituição. Importa-me que o diretor do Museu tenha me impedido de continuar realizando pesquisas pela instituição com a qual contribuí por anos pelo fato de eu defender interesses que seriam de sua responsabilidade – a defesa do Museu Mello Leitão.
 
De fato, eu não me contento com isso. Eu entendo que o ser humano é capaz de atitudes surpreendentemente mofinas. Mas eu não me conformo que um servidor público tenha permitido que a instituição por ele dirigida durante os últimos 17 anos consecutivos tivesse seu futuro norteado por uma fajuta sociedade de amigos que sequer cumpre seu estatuto a contento. 
 
Tenho certeza de que precisaremos de heróis, além de justiça, para resgatar o Museu criado pelo Patrono da Ecologia do Brasil. Próximo ou distante, esse dia chegará junto à cura de uma “doença” sistêmica que aflige a valorização ao meio ambiente em nossa sociedade, bem como a valorização da nossa própria identidade capixaba. Mas, como bem disse o sábio, entender a doença é o primeiro passo para a cura. E nesse sentido, minha honra cresce a cada dia que esclareço a verdade por traz da destruição do Museu deixado por meu pai à sociedade teresense e capixaba.

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