Seculo

 

INMA e Ruschi em rota (s) de colisão


29/11/2017 às 14:37
Existe uma expressão americana que se refere aos riscos envolvidos com cargos de responsabilidade: “Deixar um irresponsável no comando é como deixar um macaco pilotar o avião!”.
 
Esse parece ser o caso do novo Instituto Nacional da Mata Atlântica e seu novo diretor, não pela ligação de Sérgio Lucena com os macacos, os quais estuda, mas em função das irresponsabilidades com o legado deixado pelo Patrono Nacional da Ecologia que tanto promove. Sérgio não parece insatisfeito com a extinção jurídica do Museu de Biologia Professor Mello Leitão, criado por Augusto Ruschi, e promete acabar com seu boletim científico, remover coleções e etc! Tudo custeado por um dos maiores inimigos que o Patrono da Ecologia teve no ES, a Aracruz Celulose (Fibria). 
 
Sua nomeação como novo diretor do INMA dá sequência ao contínuo processo de imoralidades e falta de transparência que acometem o patrimônio científico cultural deixado por Augusto Ruschi à sociedade.
 
Ao longo do processo de desmanche do Museu, pude ouvir de perto o discurso do então diretor do INMA, e mesmo testar pessoalmente seu comprometimento com a causa. Em suma, como pesquisador, Sérgio Lucena Mendes tem se mostrado um político eficaz (não que isso seja bom, pelo contrário!). Dotado de uma retórica volátil, os discursos dele têm sido tão variáveis quanto o público para que fala. Já suas ações têm obedecido uma coerência independente que, infelizmente, investe contra a filosofia e o legado deixado por quem mais defendeu a natureza.
 
Sérgio antes do desmanche do Museu
Seus pronunciamentos durante a fase de planejamento do desmanche (até então apenas conhecidos como “alternância de vínculo institucional”) ressaltavam a importância da memória de Augusto Ruschi, de seu Museu, das coleções científicas, do boletim e do retorno financeiro. Essas questões eram incorporadas em palavras preocupadas com o futuro da instituição e Lucena convidava pessoas a opinar e discutir. 
 
Sérgio durante o desmanche do Museu 
Assim que os primeiros projetos de lei começaram a ser submetidos para apreciação do Congresso Nacional, Lucena assumiu um papel de liderança na destruição institucional do Museu Mello Leitão, a ponto de sobrepor até mesmo a opinião de seu diretor (Hélio Queiroz) em reuniões com o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). 
 
A partir de então, pessoas anteriormente convidadas a opinar sobre a questão foram removidas da mesa de discussão (eu mesmo passei por isso) e aquilo que se chamava “alternância de vínculo institucional”, se transformou em um processo jurídico desrespeitoso com o patrimônio público capixaba, atropelando as etapas ordinárias do rito de transferência a cada passo em direção à obscuridade do desmanche. 
 
Mesmo situações desfavoráveis ao novo instituto foram ignoradas para não influenciar no processo de desmanche em curso, como no caso da indisponibilidade dos 15 cargos de alta remuneração a pesquisadores que Lucena prometia ao defender o trâmite danoso.
 
Durante essa fase, o discurso do novo diretor incorporou planejamentos que contrariavam os objetivos iniciais. Todavia, pasmem, a preocupação com a memória de Ruschi e o Museu que ele criou jamais deixou de ser usada para amaciar os ouvidos da sociedade. Nem mesmo ao declarar-se em redes sociais como o responsável pela criação do Instituto Nacional da Mata Atlântica.
 
A escolha do diretor do INMA
Às vezes me parece que a escolha do diretor é um capítulo à parte... só que não! Antes mesmo do desmanche jurídico do Museu, Lucenao parecia já estar à frente da instituição. Sob sua coordenação, o MoveINMA conduzia o repasse de bolsas a pesquisadores e estagiários do Museu e instruía a Sociedade de Amigos do Museu (Sambio) sobre a postura a ser tomada em sua negociação com o MCTI. 
 
A escolha do diretor foi ainda mais simples: o movimento coordenado por Sérgio Lucena escolheu os pesquisadores que compuseram a banca avaliadora, tendo convidado, inclusive, professores que apresentam ódio declarado a Augusto Ruschi. E Lucena foi escolhido pela mesma mesa, sob aprovação do ministro Gilberto Kassab, para dirigir a instituição.  Eu mesmo me pergunto quais foram os critérios, pois assisti às apresentações e o candidato Claudio Nicoletti de Fraga foi disparadamente superior ao diretor eleito.
 
O que esperar do novo diretor?
Não precisamos sequer analisar o histórico do discurso de Lucena para responder essa questão. Na própria proposta apresentada à banca avaliadora dos candidatos ao cargo de diretor, Lucena reafirmou algumas das intenções demonstradas durante a fase de desmanche e que contrariam seu discurso inicial da fase de planejamento. Exemplos incluem o rebaixamento do boletim científico à revista informativa, remoção de laboratórios de pesquisa para zona rural, dependência financeira do setor privado de celulose, etc.
 
Em outra ocasião, durante a reunião da Sociedade de Amigos do Museu Mello Leitão, Sergio também deixou claro que, como diretor, continuará usando sua retórica para agradar aos ouvidos da população teresense. Prometeu que o INMA plantará jardins para beija-flores no município. A minha pergunta é, de onde vai sugerir que o prefeito tire água para irrigar os jardins nesse tempo de seca causado pela destruição das florestas e nascentes?
 
Lucena também não poupou saliva para se referir ao INMA como Museu – termo que ele próprio tentou banir de uso, incentivando pesquisadores e estagiários a substitui-lo por INMA. Todavia, em seu pronunciamento mais recente à Rede Gazeta, omitiu os detalhes de sua proposta de diretor ao INMA ao responder às perguntas do repórter Mário Bonella. Quanta volatilidade...  
 
A incoerente oratória de Lucena promete dar pano para manga... azar da sociedade, que poderia se beneficiar de um Museu de História Natural junto a um Instituto Nacional nele abrigado, sem abrir mão de seu patrimônio de utilidade pública e sem que este abrisse mão de sua autonomia. 
 
Seguem os desrespeitos ao capixaba e à história da Mata Atlântica, seguem as colisões ao legado deixado pelo Patrono Nacional da Ecologia.

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