Seculo

 

Rio Angelim: mais claro e mais ácido


29/11/2017 às 18:02

As águas transparentes do Rio Angelim escondem uma acidez letal, que “queima a íngua” de quem se atreve a experimentá-la, como bem registrou uma moradora da comunidade do Angelim 1, no Território Quilombola do Sapê do Norte, entre São Mateus e Conceição da Barra, norte do Estado.

A triste situação do rio não é novidade para as comunidades quilombolas que vivem no seu entorno. Desde a chegada das empresas monocultoras de cana-de-açúcar e eucalipto - Aracruz Celulose (Fibria) e Suzano -, o Angelim e corpos d´água do Território – nascentes, córregos e rios – começaram a secar e serem contaminados.

Maria Domingas Alves do Nascimento, autora dos registros que ilustram essa matéria, conta que se surpreendeu com a cor da água, em contraste com sua elevada acidez. “Está muito clara, mas muito ácida. Parece cloro. Fica grudenta na língua, o gosto é muito ruim”, descreve.

Já desacostumada a se aproximar do castigado rio de sua infância, devido à impossibilidade de qualquer tipo de uso do mesmo – hidratação, banho e mesmo lavagem de roupas -, cedeu ao apelo do neto para ir até à margem do Angelim. “A gente não costuma mais ir pro rio, mas meu neto me chamou”, diz, lamentando que as crianças da comunidade costumam desobedecer os avisos e se banhar, inconscientes dos riscos que correm.

Os avisos não são apenas dos pais zelosos, mas do próprio Estado, que reconheceu há cerca de dez anos a situação condenável do velho Angelim. Constatada a impossibilidade de qualquer uso humano de suas águas, a Aracruz Celulose (Fibria) foi obrigada a construir um poço profundo comunitário e encanamento para abastecer as casas.

A comunidade, no entanto, conviveu com as águas mortas do Angelim durante muitos anos antes da decisão judicial que resultou na obra. “Se usa a água pra lavar roupa ou louça, o sabão não dá espuma, parece água de limão”, conta a quilombola.

Nas redes sociais, a quilombola postou fotos com a legenda “Rio Angelim ácido”. As memórias de infância emergidas do passeio com o neto e o registro fotográfico, queimam o coração quase tanto a própria água.

“Desde criança convivi na beira do Angelim. Pescava, dava muito peixe. Quando começou a secar eu tinha uns 13 a 14 anos”, conta Domingas, hoje com 43. “Ele corria pra baixo, mas agora é só uma poça. E não tem mais peixe, nenhuma piaba. A gente fazia tudo no rio, só beber que era de cacimba”, relembra.

E agora, protesta Domingas, “ainda por cima vem aquele monstro amarelo pra lançar veneno pra lagarta de eucalipto. Passaram muito por cima do rio”, diz, referindo-se aos sobrevoos contratados pelas empresas de eucalipto e cana da região – Disa, Aracruz Celulose (Fibria) e Suzano – para lançamento de “defensivos agrícolas”.

Em Sapê do Norte, contam-se as nascentes que ainda resistem, das centenas que existiam antes da chegada do deserto verde das papeleiras e sucroalcooleiras. Muitas famílias migraram para as periferias das cidades, principalmente Conceição da Barra e São Mateus, e parte dela tem voltado ao território, lutando para reaver suas terras usurpadas pelas indústrias, por meio das retomas, como é o caso do Angelim. 

 

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