Seculo

 

Estratégia da intimidação


04/12/2017 às 19:45
Quem bateu o olho na edição dominical de A Gazeta (3/12/17) obrigatoriamente se deparou com a reportagem em destaque que trazia o selo de “exclusivo” para anunciar: “Investigação revela que associações da PM tramaram greve”. Em três páginas o jornal se propõe a explicar o esquema “Por trás da tenda”. 
 
A chamada de capa, pelo seu caráter “bombástico”, deve ter feito o leitor supor que se tratava de uma reportagem demolidora, definitiva, capaz de apontar os verdadeiros idealizadores da greve da PM, que deixou o Espírito Santo de cabeça para baixo entre os dias 4 e 25 de fevereiro deste ano. 
 
Mas não é isso que se confirma na leitura do texto. O inquérito da 26ª Promotoria Civil de Vitória, que A Gazeta teve acesso com exclusividade para construir a reportagem, apontou que a Associação de Cabos e Soldados (ACS) teria solicitado tendas a uma empresa, a título de empréstimo, para um evento que aconteceria no 7º Batalhão de Polícia Militar, em Cariacica. 
 
Com todo respeito à reportagem de Vilmara Fernandes, por sinal, uma ótima repórter, a criminalização das associações por meio da cessão de tendas parece um argumento demasiadamente frágil para fechar esse quebra-cabeça. 
 
A paralisação da PM foi acompanhada por quase toda a imprensa capixaba. A maioria dos repórteres deve ter se queixado da dificuldade em identificar fontes confiáveis durante a cobertura. Quando se conseguia uma fonte disposta a falar sobre os desígnios do movimento, em dois minutos de conversa se caía invariavelmente no vazio. Quando o repórter tentava cruzar a informação com outra fonte percebia que não tinha uma notícia consistente na mão. Tinha sim uma bricolagem de fatos e versões que não se encaixavam. Eram indícios de um movimento verdadeiramente acéfalo. Tudo parecia muito improvisado e intuitivo.
 
Quando o próprio governo convocou as associações ligadas aos policiais para integrarem as tratativas foi sem dúvida um alívio para a imprensa. A expectativa era de que, a partir daquele momento, a imprensa passaria a contar com instituições que poderiam funcionar como porta-vozes do movimento dos familiares dos PMs. Na prática, não foi o que aconteceu. Quase sempre, os representantes das associações reproduziam as pautas discutidas nas intermináveis reuniões com membros do movimento e interlocutores do governo. E só. Diziam não ter autonomia para falar em nome do movimento. Em determinado momento das negociações sentiram que não eram capazes de desempenhar o papel de mediadores entre movimento e governo
 
Era comum repercutir os encaminhamentos da reunião com as mulheres dos PMs e elas assinalarem que as associações não as representava, que estavam nas tratativas para fazer “o jogo do governo”. A prática da cobertura jornalística, ao menos, não fornece elementos para afirmar que os representantes das associações eram os mentores do movimento. 
 
Saindo da polêmica das tendas, outro fato levantado na reportagem que causa estranheza é a informação de que o Comando da PM vai investigar 10 mil militares — “uma apuração de dimensão histórica”, diz o texto. Não é para menos. Isso significa investigar praticamente todo o efetivo. A informação suscita uma dúvida inquietante: que grupo tão estruturado dentro da PM teria capacidade para investigar 10 mil militares? Ninguém vai fazer mais nada. Só investigar.
 
Ora, se a Corregedoria da PM tem capacidade para encarar uma investigação dessa proporção, o governo está perdendo tempo. Deveria deslocar essa força-tarefa para ajudar a Polícia Civil a investigar os milhares de homicídios inconclusos, muitos prestes a caducar por falta de pessoal para investigar.
 
As revelações "impressionantes" da reportagem também chamaram a atenção do deputado Sergio Majeski. Na sessão dessa segunda-feira (4), o tucano tocou num ponto que merece uma reflexão mais detida. Ele disse que o governador Paulo Hartung (PMDB) estaria criando fatos para se isentar da responsabilidade sobre a greve. 
 
Primeiramente, Majeski fez questão de registrar que os policiais não são santos, mas afirmou que a responsabilidade sobre a paralisação, que se estendeu por 22 dias, em grande parte, é do governador e do secretário de Segurança André Garcia. 
 
O deputado criticou o governo pela falta de diálogo para buscar uma solução negociada para o impasse. Aliás, ele lembrou que a falta de diálogo e transparência são marcas deste governo. Majeski ainda ressaltou que o Espírito Santo precisa virar a página da greve da PM. Disse que enquanto o governo procura um álibi para se safar da responsabilidade sobre a greve, o Estado continua carente de uma política de segurança efetiva, que seja capaz de reduzir a criminalidade no Espírito Santo.
 
Majeski foi cirúrgico na crítica e perspicaz na análise dos fatos. As ponderações do deputado aumentam a suspeição sobre a tese de que o empréstimo das tendas basta para enredar as associações na premeditação da greve, assim como soa como blefe a investigação de 10 mil militares. Isso parece mais uma estratégia para intimidar e criminalizar as instituições e os militares.

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