Seculo

 

Cassiano Ricardo: biografia e primeiras obras


05/12/2017 às 17:52
Cassiano Ricardo nasceu em 1895, cursou Direito, tendo ainda aos doze anos fundado uma revista de nome “Íris”, e depois, a “Panóplia”, e depois lançando a “Novíssima” e se iniciando no jornalismo profissional no Correio Paulistano, fundando e dirigindo vários jornais durante a sua vida, incluindo-se aí o Anhanguera e o A Manhã. Cassiano Ricardo, por fim, além de poeta, foi também grande ensaísta, editor, historiador, estudou também temas sociológicos, e foi membro da Academia Paulista e Brasileira de Letras.
 
Na sua estreia, com o livro "Dentro da Noite", em 1915, aos vinte anos, o poeta já nos apresenta uma poesia de versos heterométricos, com versos sombrios e de clima pesado, que deixam para trás o parnasianismo vigente. E mesmo que o poeta tenha sido treinado em seu estro pela herança parnasiana, usando e ficando muito tempo preso nesta forma, ele logo avançou para a poesia moderna que então surgiria no cenário da poesia nacional, destacando-se agora seu livro de poesia “Vamos Caçar Papagaios”, que já apontava para um de seus grandes trabalhos, que será o Martim Cererê, um clássico do modernismo brasileiro que terá uma visão geral da história nacional, misturando em seu bojo a mitologia nativa, a cultura cafeeira e a nascente indústria. A prática poética de Cassiano Ricardo, portanto, passa, falando do estro já moderno, pela influência que carrega toda a tradição poética brasileira, que vai do extremo de D . Dinis e chega ao outro extremo que será a poesia de Fernando Pessoa.
 
Cassiano Ricardo foi um poeta que, assim como grande parte de sua geração, a primeira do Modernismo, recebeu influência inicial do simbolismo e do parnasianismo, com livros como Dentro da noite (1915) e A frauta de Pã (1917). Mas, mais para a frente, o poeta fez novas experiências que lhe fizeram alcançar uma dicção das vanguardas poéticas mais recentes, o colocando dentro da poesia moderna por inteiro, agora com livros de poesia como Vamos caçar papagaios (1926) e Martim-Cererê (1928), com o poeta já nos dando  a face de uma poesia nacionalista, com temas gerais da brasilidade. Martim-Cererê, por sua vez, sendo o livro mais importante dessa fase, recriando o périplo da descoberta e da colonização do Brasil, com temas também da flora e a da fauna brasileira, da vida indígena, do bandeirante, do imigrante, e o tema urbano da expansão de São Paulo também. 
 
POEMAS
 
DO LIVRO “DENTRO DA NOITE” (1915)
 
IARA, A MULHER VERDE : O poema ganha esta cor natural do verde, em canto de Iara, que nos convida, e o poeta aqui canta o excesso da terra brasileira, no que vem : “Neste país de coisas em excesso/o sol me agride, o azul passa da conta./No entanto, os poucos beijos que te peço/o teu amor futuro me desconta.”. E o país em sua cor extrema, tem a natureza que se excede, e o assombro de um amor natural se espalha neste poema bem leve e suave : “No país do excessivo, és muito pouca./Vê a borboleta jovem, como esvoaça./Vê como nos convida a manhã louca!/Por que seres assim, se tudo é assombro,/se a própria nuvem branca – e com que graça –/só falta vir pousar em nosso ombro?”.
 
DO LIVRO “A FRAUTA DE PÔ (1917)
 
VIAGEM PERDIDA : O poema tem um tom utópico de uma terra longínqua, evocando lugares míticos de uma era de ouro ou de uma ilha qualquer e perfeita, no que segue : “Há um longínquo país que às vezes visitamos;/extasia-se o olhar que os recantos lhe sonde,/entre o suave frescor dos seus verdes recamos/e a luxúria pagã que envolve cada fronte .../Essa é a pátria encantada e longe, que sonhamos/conquistar, algum dia, ao mistério que a esconde.”. O poema, no entanto, inverte as expectativas, e o lugar utópico agora é este lume infeliz em que a esperança lutará em vão diante de frutos verdes, é um fim de mundo da viagem perdida que dá titulo ao poema, no que segue : “Vós, que andais a sonhar, pela existência em fora,/esquecei, no passado, as ilusões sepultas,/ide a esse fim de mundo onde a Esperança mora./Ide, mas não proveis dos frutos que colherdes,/nesse reino infeliz, de esmeraldas ocultas,/nesse estranho pomar que só dá frutos verdes ...”.
 
DO LIVRO “VAMOS CAÇAR PAPAGAIOS” (1926)
 
MANHÃ DE CAÇA : O caçador aqui aparece como o poeta que narra seu périplo pela mata, descreve com bastante arte o protesto da floresta, um cipoal de penas e gritos, um comício, uma assembleia florestal, em que o caçador se espanta mas atira, no que segue : “Mal entrava eu no mato/era um delírio. Os papagaios/se reuniam em bando, protestando./Como em verde comício.” (...) “Araras, canindés, maitacas/mais ensurdecedoras que matracas,/reunidas em bando,/também gritavam, me acusando./Mas por que tanto horror? Por que, de súbito,/tanto medo insensato?/Como se eu não soubesse,/com absoluta certeza, que era o mato/contra a minha maueza.”. Os donos da floresta continuam esta algazarra, protestam contra o intruso, no que segue : “eram os donos do país selvagem/e confuso,/lavravam seu protesto contra o intruso,/gritando, gritando.” (...) “Conferenciavam, graves, os tucanos./Saltavam rãs e gafanhotos,/junto a meus pés, a meus sapatos rotos./O caapora acendia o fogo do cachimbo./A mãe-d`água – se é que a mãe-d`água existe –/saltava como louca,  a face oculta/em seu cabelo verde – se é verdade/que o seu cabelo é verde./Como se eu não soubesse que no mato/tudo é cabelo verde, é susto, é graça,/é surpresa, é protesto/(quando não é a solidão selvagem).” : A cor verde predomina e a floresta com seus bichos e suas lendas aparecem aos borbotões neste poema ecológico em que o caçador é confrontado e interpelado por uma natureza viva e atuante, no que segue : “E eu apontava o cano da espingarda/e bumba! um papagaio verde-gaio/caía ao solo e os outros, com assombro,/se reuniam em bando, gritando.” (...) “E – último eco – uma voz, enroscada/Num cipoal em flor, numa barba-de-bode,/ficava protestando:/não pode!/não pode!”. O poema encerra com esta natureza viva e falante, que protesta contra o caçador, aqui como a voz presente do poeta que dá estes versos.
 
A CIDADE DOS SAPOS: O poema aqui funciona como uma paródia ou um paralelo ao famoso poema de Manuel Bandeira, ou ainda busca inspiração neste outro poeta modernista, mas aqui tendo a pretensão de demonstrar um novo grupo de sapos, não mais os parnasianos de Bandeira, mas uma nova classe de sapos falantes, no que temos : “Os sapos que eu conheço/no bairro onde resido,/gritam, desde o começo/da noite, ao meu ouvido./Gritam a noite inteira;/porém, são mais humanos,/sob um certo sentido,/que os de Manuel Bandeira./Pois não são parnasianos/e nem tomam parte/em discussões sobre arte./São, todos, operários/e dão-se a ofícios vários.”. Temos os sapos operários, eis que aparece o sapo que é ferreiro, no que segue : “Um deles é ferreiro.” (...) “A julgar pelo ruído/que sai dos seus martelos/só o sapo ferreiro/já construiu no charco/uns duzentos castelos.”. E o poema tem também o sapo que é carpinteiro, no que segue : “Este outro, carpinteiro,/sapo de alma canora,/em plena noite escura,/conserta a fechadura/do palácio onde mora.”. E temos também um sapo que é pedreiro, no que segue : “Aquele outro é pedreiro./Mais que pedreiro herói./Tudo o que ele constrói/a água da enchente arrasa ...”. E temos, enfim, os moradores do brejo, intanha viúva, sapo-pipa, e um sapo que é filósofo, com sua chatice indagadora habitual, que Cassiano Ricardo retrata com um humor sutil, no que temos :  “Mas há outros, que invejo,/moradores do brejo :/Uma intanha viúva,/os olhos fora da órbita,/pensa que o luar é chuva” (...) “Um sapo-pipa, bruxo,/que não para em casa,/vive comendo brasa;/pensa que come estrela/e tem o céu no bucho./Outro sapo é filósofo :/quem será que me pôs/na lama, tão de rastros/sem ficar com a mão suja?/quem será que criou/o perfume das rosas?/quem no céu espalhou/o ouro aceso dos astros?/Fulgem rosas lunares/na água morta dos campos./É a cidade dos sapos/que acende os seus lampiões/verdes de pirilampos .../Hoje tem espetáculo!/gritam todos os sapos./Hoje tem coisa boa!”. O retrato geral que o poeta faz neste poema é o de uma cidade dos sapos, no que segue, agora como película : “Ou então é o cinema/do brejo que funciona,/exibindo um desenho/animado de Disney:/“Um sapo se suicida/por causa de uma estrela.”/E, no salão do espaço,/onde a neblina grossa/se desfaz em farrapos/ouve-se, a todo instante,/a algazarra dos sapos,”. E o paradoxo que vai e não vai, vem com o sapo-boi do famigerado foi-não foi herdado do poema de Bandeira, no que segue : “E ronca o sapo-boi/tocando o “foi-não-foi”./No outro dia, porém,/quando chega a alvorada,/loura, de olhar cerúleo :/- por que tanto barulho?/que aconteceu? que foi?/Vai-se ver; não foi nada.” (...) “Ó pobre sapo-boi,/foi Deus que assim te fez?/foi Deus que assim te quis?/ao menos, uma vez,/responde : foi? não foi?/Pobre mundo infeliz/que diz e se desdiz/tocando o “foi, não foi”,/ininterruptamente./E a gente pede bis .../Deus não tem dó da gente.”. E o paradoxo não se interrompe, pois Deus não tem pena de ninguém, ao que se fecha a coda dura e direta.
 
DO LIVRO “MARTIM-CERERÊ” (1928)
 
O GIGANTE N. 3 : O poema retrata aqui as bandeiras, a entrada vigorosa de Fernão Dias no mato denso do Brasil profundo, no que temos : “E aquela serra que resplandecia/Na Noite Verde do Sertão, lá longe,/e ia mudando, sempre de lugar?/Quem, onde, quando e como a encontraria?/Fernão Dias Pais Leme, outro Gigante,/- este o número três – a irá buscar./E as léguas todas vieram recebê-lo,/mal ele entrou no mato, com o seu povo.” (...) “esmagou a cabeça às léguas todas/que o cercavam, em bárbaro atropelo,/sob as botas de couro, e lá se foi,/atrás da “serra que resplandecia”/sem saber onde e quando a encontraria./Mas a distância lhe passou à frente/chamando por mais léguas,” (...) “Ele, porém, se desenleou das léguas”. O poema segue em léguas e o desafio da fronteira nova de exploração bandeirante com seus obstáculos, no que temos : “Mas a distância lhe correu à frente/pedindo novas léguas, outras léguas,” (...) “mas tudo em vão! que os maiores obstáculos/lhe seriam graciosos, e mesquinhos./Ele ia governar as esmeraldas,/poeta do mato, abridor de caminhos,”. O caminho se abre, o bandeirante das esmeraldas, na tempestade de gente, a febre de um novo mundo, e que Cassiano Ricardo retrata como tropa de poetas, no que temos : “Que era assim mesmo, cada bandeirante./Uma brutal tempestade de gente” (...) “Tropa de poetas, entre os quais seguia/algum Orfeu caboclo, lira em punho.” (...) “Cada légua possuía uma cabeça/de montanha e, como cauda, um rio./Parecia uma cobra mitológica/fulgindo sob a escama d`água espessa/e com a cauda enrolada na cabeça.”. Eis que o poema encerra com estro perfeito a rotina e ação permanente dos bandeirantes e o desafio natural desta empreitada.
 
O PAI DO SOL : Borba Gato entra aqui como o que caça e decepa o Pai do Sol, e eis que tudo vira ouro, o mito aqui é magia, e Cassiano Ricardo descreve este ato mágico em que tudo vira ouro, no que temos : “Mas um dia Borba Gato/que possuía vários títulos/já – o de Caçador de Onça,/o de Vigia da Terra,/mais o de Chefe da tribo/dos bororos, e ainda outros,/dos quais a tuba da fama/nunca lhe passou recibo,/andando por um caminho/encontrou o Pai do Sol./Lá estava o tal, olhos de ouro,/sentado em meio ao Sertão.” (...) “vibra no ar enorme foice,/rápida, em trinta relâmpagos,/e decepa-lhe a cabeça./E o Pai do Sol, degolado,/ainda escorrendo fogo,/é posto, logo, aos pedaços,/em longos cargueiros de ouro.” (...) “Faísca do Pai do Sol/é o fogão onde o quitute/se faz em panelas de ouro./Nos córregos, ou nas catas,/nas grupiaras, ou nas minas,/os escravos suam ouro .../El-Rey, de novo, lá longe,/passa óleo pelo corpo,/deita-se ao chão e levanta-se/todo rabiscado de ouro./E nomeia Borba Gato/para general do Mato./Na igreja do Sabará/Um Cristo nu chora ouro ...”. Borba Gato fica poderoso, e o milagre do ouro é o poema inteiro em estro dourado.
 
MOÇA TOMANDO CAFÉ : O ciclo do café é retratado neste poema circular em que seu começo é seu fim, começa com a moça bonita e feliz tomando café, e o poeta Cassiano Ricardo descreve então o caminho de ida e vinda do café na sua produção e como chega à mesa, no que temos : “Num salão de Paris/a linda moça, de olhar gris,/toma café./Moça feliz./Mas a moça não sabe, por quem é,/que há um mar azul, antes da sua xícara de café;/e que há um navio longo antes do mar azul .../E que antes do navio longo há uma terra do sul;/e antes da terra um porto, em contínuo vaivém,” (...) “E antes da serra está o relógio da estação .../Tudo ofegante como um coração/que está sempre chegando, e palpitando assim./E antes dessa estação se estende o cafezal./E antes do cafezal está o homem, por fim,/que derrubou sozinho a floresta brutal./O homem sujo de terra, o lavrador/que dorme rico, a plantação branca de flor,/e acorda pobre no outro dia ...” (...) “Quedê o sertão daqui?/lavrador derrubou./Quedê o lavrador?/está plantando café./Quedê o café?/Moça bebeu./Mas a moça, onde está?/está em Paris./Moça feliz.”. O poema descreve este périplo do café com perfeição e a última estrofe é como um arremate ou resumo do poema todo, com um humor leve e regional que o poeta nos dá como coda na imagem suave da moça feliz.
 
POEMAS 
 
DO LIVRO “DENTRO DA NOITE” (1915)
 
IARA, A MULHER VERDE
 
Neste país de coisas em excesso
 
o sol me agride, o azul passa da conta.
 
No entanto, os poucos beijos que te peço
 
o teu amor futuro me desconta.
 
 
 
De tanto céu tenho a cabeça tonta.
 
O meu jornal é todo em verde impresso.
 
Só tu, a quem já um pássaro amedronta,
 
te fechas no mais íntimo recesso ...
 
 
 
No país do excessivo, és muito pouca.
 
Vê a borboleta jovem, como esvoaça.
 
Vê como nos convida a manhã louca!
 
 
 
Por que seres assim, se tudo é assombro,
 
se a própria nuvem branca – e com que graça –
 
só falta vir pousar em nosso ombro?
 
 
 
DO LIVRO “A FRAUTA DE PÔ (1917)
 
VIAGEM PERDIDA
 
Há um longínquo país que às vezes visitamos;
 
extasia-se o olhar que os recantos lhe sonde,
 
entre o suave frescor dos seus verdes recamos
 
e a luxúria pagã que envolve cada fronte ...
 
 
 
Essa é a pátria encantada e longe, que sonhamos
 
conquistar, algum dia, ao mistério que a esconde.
 
Oásis que nos estende a sombra dos seus ramos
 
e ao grito do viandante estremece e responde ...
 
 
 
Vós, que andais a sonhar, pela existência em fora,
 
esquecei, no passado, as ilusões sepultas,
 
ide a esse fim de mundo onde a Esperança mora.
 
 
 
Ide, mas não proveis dos frutos que colherdes,
 
nesse reino infeliz, de esmeraldas ocultas,
 
nesse estranho pomar que só dá frutos verdes ...
 
 
 
DO LIVRO “VAMOS CAÇAR PAPAGAIOS” (1926)
 
MANHÃ DE CAÇA
 
Mal entrava eu no mato
 
era um delírio. Os papagaios
 
se reuniam em bando, protestando.
 
Como em verde comício.
 
 
 
Por que tanto barulho? eu indagava
 
de mim mesmo, da minha malvadez.
 
Como se não soubesse
 
que era justo o protesto
 
dos papagaios ásperos, verde-gaios.
 
 
 
Araras, canindés, maitacas
 
mais ensurdecedoras que matracas,
 
reunidas em bando,
 
também gritavam, me acusando.
 
 
 
Mas por que tanto horror? Por que, de súbito,
 
tanto medo insensato?
 
 
 
Como se eu não soubesse,
 
com absoluta certeza, que era o mato
 
contra a minha maueza.
 
 
 
Maracanãs, tiribas, periquitos,
 
que eram asas aos gritos,
 
papagaios, enfim, de vários nomes
 
e de vária plumagem,
 
que eram os donos do país selvagem
 
e confuso,
 
lavravam seu protesto contra o intruso,
 
gritando, gritando.
 
 
 
Um morro de cabelo verde pixaim
 
começava a pensar.
 
Se encolhia a pensar numa coisa sem fim.
 
 
 
Por que pensar assim?
 
 
 
Como se eu não soubesse dos motivos
 
de tanta garra, de tanta algazarra.
 
 
 
Conferenciavam, graves, os tucanos.
 
Saltavam rãs e gafanhotos,
 
junto a meus pés, a meus sapatos rotos.
 
O caapora acendia o fogo do cachimbo.
 
A mãe-d`água – se é que a mãe-d`água existe –
 
saltava como louca,  a face oculta
 
em seu cabelo verde – se é verdade
 
que o seu cabelo é verde.
 
 
 
Como se eu não soubesse que no mato
 
tudo é cabelo verde, é susto, é graça,
 
é surpresa, é protesto
 
(quando não é a solidão selvagem).
 
 
 
Mas por que tanta atoarda?
 
 
 
E eu apontava o cano da espingarda
 
e bumba! um papagaio verde-gaio
 
caía ao solo e os outros, com assombro,
 
se reuniam em bando, gritando.
 
Uma chuva de garras e de bicos
 
despencava do céu sobre o meu ombro.
 
Os ecos proferiam, pelas grotas,
 
outros protestos, como se a distância
 
também caísse ao chão, de bruços,
 
com a boca cheia de soluços!
 
 
 
Mas pra quê tanto medo?
 
 
 
E – último eco – uma voz, enroscada
 
Num cipoal em flor, numa barba-de-bode,
 
ficava protestando:
 
não pode!
 
 
 
não pode!
 
 
 
A CIDADE DOS SAPOS
 
Os sapos que eu conheço
 
no bairro onde resido,
 
gritam, desde o começo
 
da noite, ao meu ouvido.
 
Gritam a noite inteira;
 
porém, são mais humanos,
 
sob um certo sentido,
 
que os de Manuel Bandeira.
 
Pois não são parnasianos
 
e nem tomam parte
 
em discussões sobre arte.
 
 
 
São, todos, operários
 
e dão-se a ofícios vários.
 
 
 
Neste ponto, os meus sapos
 
que também batem papos,
 
já diferem dos seus ...
 
pois são filhos de Deus.
 
 
 
Um deles é ferreiro.
 
E faz tanto barulho
 
com os demais, da sua
 
corporação, que chego,
 
em meu desassossego
 
e já por minha conta,
 
a crer que estará pronta
 
até ao clarear do dia
 
alguma Nova Iorque
 
mais aérea e maior
 
que a da fotografia.
 
 
 
A julgar pelo ruído
 
que sai dos seus martelos
 
só o sapo ferreiro
 
já construiu no charco
 
uns duzentos castelos.
 
Estrondeja a bigorna
 
e, então, sobe e flutua,
 
na noite grande a morna,
 
o alvo disco da lua.
 
 
 
Este outro, carpinteiro,
 
sapo de alma canora,
 
em plena noite escura,
 
conserta a fechadura
 
do palácio onde mora.
 
Vive serrando tábuas ...
 
Ó sapo carpinteiro,
 
serra as minhas mágoas?
 
 
 
Aquele outro é pedreiro.
 
Mais que pedreiro herói.
 
Tudo o que ele constrói
 
a água da enchente arrasa ...
 
Vai fazer minha casa,
 
 
 
Lá longe, um bate-sola
 
fabrica o azul sapato
 
com que Nossa Senhora
 
virá do céu, num barco
 
de lua, só pra vê-lo,
 
sem se sujar no charco.
 
 
 
Mas há outros, que invejo,
 
moradores do brejo :
 
Uma intanha viúva,
 
os olhos fora da órbita,
 
pensa que o luar é chuva
 
e sem compreendê-lo
 
no espetáculo cósmico,
 
abre o seu guarda-chuva
 
branco de cogumelo.
 
 
 
Um sapo-pipa, bruxo,
 
que não para em casa,
 
vive comendo brasa ;
 
pensa que come estrela
 
e tem o céu no bucho.
 
Outro sapo é filósofo :
 
quem será que me pôs
 
na lama, tão de rastros
 
sem ficar com a mão suja?
 
quem será que criou
 
o perfume das rosas?
 
quem no céu espalhou
 
o ouro aceso dos astros?
 
 
 
Fulgem rosas lunares
 
na água morta dos campos.
 
É a cidade dos sapos
 
que acende os seus lampiões
 
verdes de pirilampos ...
 
 
 
Hoje tem espetáculo!
 
gritam todos os sapos.
 
Hoje tem coisa boa!
 
clamam os bate- papos
 
em ruidosa assembleia :
 
e a algazarra plebeia
 
por todo o brejo ecoa.
 
Quando dissermos três,
 
jacaré, você pule.
 
E dizem um ... dizem dois ...
 
é desta vez! dizem três,
 
tchecumbum na lagoa.
 
 
 
Ou então é o cinema
 
do brejo que funciona,
 
exibindo um desenho
 
animado de Disney:
 
“Um sapo se suicida
 
por causa de uma estrela.”
 
E, no salão do espaço,
 
onde a neblina grossa
 
se desfaz em farrapos
 
ouve-se, a todo instante,
 
a algazarra dos sapos,
 
o tremendo barulho
 
da infernal assistência;
 
as rãs batendo palmas,
 
quá-quá-quá de marrecos,
 
muito bem, bis-bis-bis,
 
ecos aos petelecos,
 
um diz, outro desdiz.
 
E ronca o sapo-boi
 
tocando o “foi-não-foi”.
 
 
 
No outro dia, porém,
 
quando chega a alvorada,
 
loura, de olhar cerúleo :
 
- por que tanto barulho?
 
que aconteceu? que foi?
 
Vai-se ver; não foi nada.
 
E tudo continua
 
no mesmo pé, na mesma
 
luta desesperada.
 
Eu suo : você sua ...
 
tudo por quê? por nada.
 
 
 
Ó pobre sapo-boi,
 
foi Deus que assim te fez?
 
foi Deus que assim te quis?
 
ao menos, uma vez,
 
responde : foi? não foi?
 
Pobre mundo infeliz
 
que diz e se desdiz
 
tocando o “foi, não foi”,
 
ininterruptamente.
 
 
 
E a gente pede bis ...
 
Deus não tem dó da gente.
 
 
 
DO LIVRO “MARTIM-CERERÊ” (1928)
 
O GIGANTE N. 3
 
E aquela serra que resplandecia
 
Na Noite Verde do Sertão, lá longe,
 
e ia mudando, sempre de lugar?
 
Quem, onde, quando e como a encontraria?
 
 
 
Fernão Dias Pais Leme, outro Gigante,
 
- este o número três – a irá buscar.
 
 
 
E as léguas todas vieram recebê-lo,
 
mal ele entrou no mato, com o seu povo.
 
E enrolaram-se, todas, em novelo
 
ferocíssimo em redor de suas botas.
 
Mas ele, achando graça na distância,
 
esmagou a cabeça às léguas todas
 
que o cercavam, em bárbaro atropelo,
 
sob as botas de couro, e lá se foi,
 
atrás da “serra que resplandecia”
 
sem saber onde e quando a encontraria.
 
 
 
Mas a distância lhe passou à frente
 
chamando por mais léguas, que outras léguas
 
lhe viessem! e outras mais, e ainda outras,
 
 
 
pra se enrolar nas botas do Gigante
 
e acorrentá-lo ao chão, e enrodilhá-lo
 
na cauda louca de algum redemoinho
 
e afundá-lo no lodo dos pauis.
 
Ele, porém, se desenleou das léguas
 
como um deus mágico que se desenleasse
 
de um polvo azul, de cem braços azuis!
 
 
 
Mas a distância lhe correu à frente
 
pedindo novas léguas, outras léguas,
 
ainda em maior número, e mais rápidas,
 
pra se enrolar nos pés do bandeirante
 
e assim detê-lo através do sertão
 
mas tudo em vão! que os maiores obstáculos
 
lhe seriam graciosos, e mesquinhos.
 
Ele ia governar as esmeraldas,
 
poeta do mato, abridor de caminhos,
 
e amarraria os braços ao sertão
 
com o amarilho vermelho das estradas.
 
 
 
Que era assim mesmo, cada bandeirante.
 
Uma brutal tempestade de gente
 
que, por onde passava, ia deixando
 
seu longo rastro de cidades brancas,
 
azuis ou tristes, pretas ou douradas.
 
 
 
Tropa de poetas, entre os quais seguia
 
algum Orfeu caboclo, lira em punho.
 
 
 
Com os seus trabucos, que iam carregados
 
muito mais de poesia que de chumbo;
 
e seus baús de boi, abarrotados
 
mais de esperanças que de mantimentos.
 
 
 
E quanta vez, já em pleno labirinto
 
do sertão bruto, em ásperas refregas,
 
não lhe querem furtar as esmeraldas
 
que ele nem sabe se achará ou não
 
por um sertão de quatrocentas léguas!
 
 
 
Cada légua possuía uma cabeça
 
de montanha e, como cauda, um rio.
 
Parecia uma cobra mitológica
 
fulgindo sob a escama d`água espessa
 
e com a cauda enrolada na cabeça.
 
 
 
O PAI DO SOL
 
Mas um dia Borba Gato
 
que possuía vários títulos
 
já – o de Caçador de Onça,
 
o de Vigia da Terra,
 
mais o de Chefe da tribo
 
dos bororos, e ainda outros,
 
dos quais a tuba da fama
 
nunca lhe passou recibo,
 
andando por um caminho
 
encontrou o Pai do Sol.
 
 
 
Lá estava o tal, olhos de ouro,
 
sentado em meio ao Sertão.
 
Tendo cinco labaredas
 
de alegria em cada mão.
 
“Você está aqui, seu malandro ...”
 
E como um novo Jasão
 
na conquista ao Tosão de Ouro,
 
 
 
já perto, chega não chega,
 
pá ante pá, devagarzinho,
 
por um vão da árvore espessa,
 
vibra no ar enorme foice,
 
rápida, em trinta relâmpagos,
 
e decepa-lhe a cabeça.
 
E o Pai do Sol, degolado,
 
ainda escorrendo fogo,
 
é posto, logo, aos pedaços,
 
em longos cargueiros de ouro.
 
 
 
No rio da Noite Verde
 
levando-lhe pés e braços,
 
deslizam canoas de ouro.
 
 
 
Um caçador, mais a oeste,
 
caçou veado a chumbo de ouro.
 
 
 
O vestido azul da santa
 
amanheceu, por milagre,
 
já bordados a fios de ouro ...
 
 
 
A Rita da nação benguela
 
tem agora um colar de ouro.
 
 
 
Faísca do Pai do Sol
 
é o fogão onde o quitute
 
se faz em panelas de ouro.
 
 
 
Nos córregos, ou nas catas,
 
nas grupiaras, ou nas minas,
 
os escravos suam ouro ...
 
 
 
El-Rey, de novo, lá longe,
 
passa óleo pelo corpo,
 
deita-se ao chão e levanta-se
 
todo rabiscado de ouro.
 
E nomeia Borba Gato
 
para general do Mato.
 
 
 
Na igreja do Sabará
 
Um Cristo nu chora ouro ...
 
 
 
MOÇA TOMANDO CAFÉ
 
Num salão de Paris
 
a linda moça, de olhar gris,
 
toma café.
 
Moça feliz.
 
 
 
Mas a moça não sabe, por quem é,
 
que há um mar azul, antes da sua xícara de café;
 
e que há um navio longo antes do mar azul ...
 
E que antes do navio longo há uma terra do sul;
 
e antes da terra um porto, em contínuo vaivém,
 
com guindastes roncando na boca do trem
 
e botando letreiros nas costas do mar ...
 
E antes do porto um trem madrugador
 
sobe-desce da serra a gritar, sem parar,
 
nas carretilhas que zunem de dor ...
 
E antes da serra está o relógio da estação ...
 
Tudo ofegante como um coração
 
que está sempre chegando, e palpitando assim.
 
E antes dessa estação se estende o cafezal.
 
E antes do cafezal está o homem, por fim,
 
que derrubou sozinho a floresta brutal.
 
O homem sujo de terra, a lavrador
 
que dorme rico, a plantação branca de flor,
 
e acorda pobre no outro dia ... (não faz mal)
 
com a geada negra que queimou o cafezal.
 
 
 
A riqueza é uma noiva, que fazer?
 
que promete e que falta sem querer ...
 
Chega a vestir-se assim, enfeitada de flor,
 
na noite branca que é o seu véu nupcial,
 
e a conduz loucamente para o céu
 
arrancando-a das mãos do lavrador.
 
 
 
Quedê o sertão daqui?
 
lavrador derrubou.
 
Quedê o lavrador?
 
está plantando café.
 
Quedê o café?
 
Moça bebeu.
 
Mas a moça, onde está?
 
está em Paris.
 
Moça feliz.
 
 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor
Blog : http://poesiaeconhecimento.blogspot.com     

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