Seculo

 

Carta de aniversário ao papai


13/12/2017 às 15:08
Venho por meio desta carta, lhe desejar um feliz aniversário de 102 anos – o mais feliz possível, diante de todas mazelas que atormentam o Museu que o senhor criou e o meio ambiente que tanto defendeu.
 
Todos os dias eu penso muito no senhor, muitas vezes por motivos felizes, mas outras por motivos tristes que vão além da saudade. 
 
Ocasionalmente encontro alguns amigos seus e eles sempre relembram dos alertas que fez. Todos expressam gratidão pelo que deixou, reconhecem seus ensinamentos e fazem um tipo de autocrítica social por não termos tratado com mais seriedade a necessidade de conservar o meio ambiente. 
 
Aqui em Santa Teresa estamos vivendo o regime de extremos pluviométricos que previu – passamos a maior parte do ano com seca e a chuva cai toda de uma vez nos últimos meses do ano, causando alagamentos. Um dia desses ouvi testemunhos de como o eucalipto e o Projeto Pró-Várzea exauriram os recursos hídricos de localidades em Santa Teresa... é, os agricultores lembram muito do senhor quando veem seus riachos secarem ao lado dos eucaliptais. Alguns já estão retirando essa monocultura – antes tarde do que nunca. De fato, alguns projetos de reflorestamento aqui no ES têm dado resultados positivos.
 
Lamento informá-lo que o Museu que o senhor deixou foi juridicamente extinto e todo o patrimônio foi alienado para uma nova instituição, o Instituto Nacional da Mata Atlântica. Imagino como o senhor deve estar surpreso, pois como advogado, sabe muito bem que é crime alienar o patrimônio de utilidade pública. A todo efeito, o caso foi denunciado no Ministério Público Federal - não que algo tenha sido feito sobre isso... mas não se espante pai, não se trata de um caso isolado ou nada relacionado à perseguição política que enfrentou. O país inteiro está passando por um grande processo de revelações de escândalos de corrupção e tenta hoje buscar meios de realizar uma limpeza, recuperando seu patriotismo. 
 
Eu levei o caso para Brasília, mas o ministro responsável não deu a atenção merecida ao caso. Parece que o seu Museu também ficou preso na “rede de arrasto” da irresponsável política nacional e foi desmanchado com um único golpe de caneta no Senado. Novamente, não se espante, pai. A aprovação de leis absurdas tem sido comum por lá, e existem até esquemas de compra de parlamentares. Até presidentes estão envolvidos... longa história... patriotas como o senhor são raridades no país inteiro.
 
As irresponsabilidades desse instituto começaram removendo o nome que o senhor escolheu para homenagear o Prof. Cândido Firmino de Mello Leitão. Mas o busto dele continua no pátio, ainda. 
 
Tudo aconteceu durante a comemoração do seu centésimo aniversário e as pessoas que mais lutaram contra a sua memória não estavam lá na comemoração. Foi impressionante ver diretores e pesquisadores brigando para que todos estagiários e funcionários parassem de usar o nome que o senhor escolheu, “Museu Mello Leitão”. 
 
A mamãe não arredou o pé e fez a sua festa de 100 anos mesmo contra a vontade da Sambio. Mas essa fase de não dizer seu nome parece ter passado, ao menos por enquanto. Hoje as mesmas pessoas que apoiaram o desmanche do seu legado são as que mais tentam falar em seu nome. Pois é, o Instituto agora é também um reduto de hipócritas!
 
Para o senhor ter ideia, depois de desmanchar o Museu, voltaram a chamar o instituto de museu - acho que para confundir a sociedade, que também foi enganada a acreditar que o Museu se transformou em Instituto. Também parece terem desistido de retirar o beija-flor do símbolo do instituto. Mas tudo isso pode ser temporário, pois o atual diretor do Instituto muda o discurso a cada pronunciamento. 
 
Ah sim, o diretor é o Sergio Lucena Mendes. Ele chegou até a martelar o ouvido do público com as “suas palavras”, mas não se preocupe com isso. Eu vou sempre esclarecer a verdade no que diz respeito ao senhor e ao seu legado, assim as pessoas que o conhecem de verdade não se perderão nas mentiras. É claro que essa distinção não é para qualquer um, pois existem muitos interesseiros de plantão... então, não se surpreenda se o Instituto se tornar um palanque político. 
 
Mas pai, peço que não se decepcione com todas as pessoas que estão no Instituto. Muitas delas obedecem ao regime anti-Ruschi do Instituto porque não podem se dar ao “luxo” de agir da forma rigorosamente correta que o senhor aprovaria. O Hélio deixou claro, ao não renovar meu vínculo institucional de pesquisador voluntário, que defender o senhor seriamente é motivo para exclusão. Não se preocupe também com o fato de eu não poder pesquisar nas suas coleções! Durante meu doutorado conheci excelentes professores no Museu Nacional, em Berkeley e Harvard, com quem mantenho contato. As nossas pesquisas com beija-flores estão apenas começando...
 
Pai, o Sérgio também disse que vai acabar com o boletim científico que o senhor criou e levar as coleções para a zona rural na Aparecidinha, tudo custeado pela Aracruz Celulose! Quando eu ouvi isso, entendi imediatamente porque o senhor proibiu que ele frequentasse o Museu. 
 
Não é à toa que seus amigos também me falam que o senhor deve estar se batendo dentro do caixão diante disso tudo! Mas peço que não se incomode daí, nem por um segundo. Uma atrocidade dessas não é responsabilidade do senhor. 
 
O senhor lutou herculeamente para proteger o meio ambiente, e nos deixou grandes presentes, como as florestas e o único Museu de história natural capixaba. A proteção do seu legado é um dever nosso, da sociedade, assim como a proteção do meio ambiente. Sei que essa última frase não é nem um pouco animadora, tendo em vista o modo como ainda destratamos o meio ambiente. Mas quem sabe conseguiremos mudar isso um dia...algumas forças políticas tentaram, mas não foram suficiente para superar a grande mazela que assombra a república. 
 
Pai, o senhor continua de parabéns, sempre! A Sambio, a direção do extinto Museu, a direção do novo Instituto e os políticos que permitiram esses absurdos que não estão de parabéns. Mas pai, peço que também não fique triste com a sociedade teresense e com alguns políticos, pois também foram enganados pela Sambio. Eles pularam etapas essenciais de um rito de transição e sequer realizaram uma audiência publica para decidir o destino do patrimônio que o senhor deixou para a sociedade. Tanto na Assembleia Legislativa como na Câmara Municipal Teresense, a maioria dos parlamentares ficou chocada ao saber da verdade sobre o camuflado desmanche do seu museu.
 
Tenho certeza que o senhor está descansando em paz. Seus méritos pessoais lhe dão direito a um pós-vida muito tranquilo. O senhor foi um anjo que a natureza e nós tivemos no país!
 
Tem mais uma coisa, pai. A minha postura está me custando o acesso ao Museu que o senhor construiu, mas me orgulho muito dela, pois me identifico muito com o senhor. Caráter, ética e intransigência moral são as principais virtudes que herdei do senhor. Não irei ao Instituto celebrar seu aniversário com hipócritas. Tenho certeza que também não toleraria - temos isso no sangue! Mamãe, Tia Luzia e eu acabamos de celebrar seu aniversário na casa onde o senhor nasceu. Foi uma comemoração singela, mas muito verdadeira. 
 
Um apertado abraço,
Com muito amor, 
Piero.
 
Santa Teresa, 12/12/2017  

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