Seculo

 

Black Block


20/12/2017 às 13:57
Ele, aos 15 anos, virou punk, começou a ler Bakunin e Kropotkin, ficou sabendo das histórias de Ravachol e Louise Michel, ficou fascinado, leu Proudhon, ficou extasiado com Malatesta. Ia a shows dos melhores estilos camisa negra com tachinhas, brigava na roda de pogo com vontade, começou a entrar em gangues contra carecas, era anarquista e contra alguns skins que se diziam neonazis, aprendeu a tática black block aos 16 anos, sonhava com um dia ver a revolução acontecer, estourou a boiada em junho de 2013, ele foi lá na Presidente Vargas, enfrentou os policiais. Com sua máscara, decidiu quebrar uns bancos, quase foi encurralado na Candelária, mas fugiu para a Lapa chorando de ardência de gás lacrimogêneo.
 
Os protestos arrefeceram, ele foi para São Paulo novamente, depois de um semestre no Rio de Janeiro. Voltou à sua gangue anarquista, releu Kropotkin, dizia que iria escrever um livro de estratégia urbana em protestos. A coisa estourou novamente, agora ele, já em São Paulo, no meio da confusão, jogou um coquetel molotov numa Brasília azul, ele não tinha visto, mas tinha um senhor de idade com a filha dentro da Brasília, os dois morreram queimados. No dia seguinte, a televisão russa revelou as imagens, ele estava mascarado. Resolveu fugir no mesmo dia que tacou fogo na Brasília, foi para Cubatão.
 
Logo, os jornais do Brasil já diziam que ele estava sendo procurado. Ele encontrou outro amigo anarquista, em Cubatão, e se escondeu em sua casa. Pipocavam manifestações de opinião sobre o cara que tinha matado pai e filha numa Brasília azul incendiada. Ele estava com medo, não sabia o que iria fazer depois. Pensou que a poeira iria baixar, que ele estava mascarado e ninguém iria identificá-lo. Ele ficou cinco dias na casa deste amigo em Cubatão. Resolveu ir ao Rio de Janeiro. Os comentários nos jornais e nas páginas de opinião variavam entre: "tem que punir este assassino" pela mídia dita nativa, e de outro lado, intelectuais progressistas, tentando justificar a tática black block, dizendo que aquilo não refletia todos que se vestiam de preto ou usavam máscaras em protestos. Como tudo era maniqueísta, entre latidos de ambos os lados, e com, agora, a polícia federal no encalço dele, e toda a mídia falando no mascarado assassino, ele foi para a rodoviária de Cubatão, e no dia seguinte, pela manhã, já estava no Rio de Janeiro.
 
Ele acabou sendo caguetado neste mesmo dia por uma testemunha que fez seu retrato falado. Neste mesmo dia, já de noite, no bairro do Flamengo, ele andava pelo aterro e foi espancado por uma gangue de direita de justiceiros. O confundiram com um marginal da área. Ele foi amarrado num poste, todo ensanguentado.
 
Logo, os direitistas disseram: "pegaram mais um, bandido bom é bandido morto!" Intelectuais progressistas disseram: "esses jovens justiceiros têm que pagar!" O black block foi identificado, no dia seguinte, como o mascarado que tinha matado pai e filha na Brasília.
 
Opiniões variaram. Uns que tinham dito que o black block que tinha que ser preso, não deveria ter sido espancado por justiceiros, e amarrado num poste. Os de direita, que eram contra a violência dos black blocks, eram a favor da violência dos justiceiros do bairro do Flamengo. Outros, ao contrário, saudaram a violência simbólica dos black blocks, mas acharam um horror os justiceiros do Flamengo. Outros ainda, comentando em sites de notícias, gritaram, meio perdidos: "Petralhada! Privataria!" Ele foi preso, os justiceiros também, e todos tentaram ser coerentes, mas já era tarde.
 
(OBS : Caros leitores, a coluna de crônicas retorna no dia 24 de janeiro. Obrigado, feliz natal e feliz ano novo a todos).
 
Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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