Seculo

 

Narrativa dramática


23/12/2017 às 13:17
Muito pode ser dito sobre o crescimento da taxa de  suicídios registrada na Polícia Militar do Espírito Santo (PMES), após a greve realizada no começo do ano por parte da tropa e a dura repressão comandada, em seguida, pelo governador Paulo Hartung. Sobretudo, deve se ressaltar que o suicídio em si - posto em geral sob uma luz desfavorável pelas sociedades ao longo da história, exceto quando ocorre como forma de protesto contra variados tipos de opressão -  é problema de saúde pública (no país, ocorrem ao ritmo de 32/dia e 11.580/ano). Como tal, é passível de ser solucionado, no todo ou em parte, com adequadas políticas de prevenção baseadas, por exemplo, em campanhas de informação ou debates. 
 
O tabu que persiste sobre o assunto, em grande medida por razões religiosas, leva, porém, o poder público a ignorá-lo. Há também outro motivo completamente equivocado por trás dessa atitude de avestruz:  por em evidência o problema induziria pessoas fragilizadas emocionalmente a optar pela auto-aniquilação. O que se sabe, obviamente, é que a omissão do poder público só tende a agravar o problema, como já notaram, de longa data, estudiosos do assunto.
 
O suicídio não pode ser reduzido apenas a causas psicológicas. O contexto de crise econômica e social de um país também contribui decididamente para comportamentos niilistas que acabam por produzir atitudes de extremo desespero em todas as classes sociais. Enfim, o suicídio também se insere nas sociedades como sintoma de um mal maior: a  exploração dos trabalhadores pelas elites, que  gera, paralelamente, uma existência inautêntica, alienante, imersa em consumismo ou no desamor por si e pelo semelhante. "É a escolha que elimina todas as escolhas", disse o filósofo existencialista Jean Paul Sartre.
 
E quando a escolha fatal tem a colaboração de um impiedoso governo? Um governo cuja vaidade foi desafiada por uma soldadesca vítima de uma política salarial empobrecedora. Um falso fiscalista em busca de notoriedade na mídia nacional que economiza para os cofres públicos mediante achatamento de salários e investimentos públicos indispensáveis ao bem-estar da população, ao mesmo tempo em que promove generosa gastança através de amplos incentivos fiscais a grandes empresários.
 
Da narrativa dramática publicada por Século Diário, emerge a triste e comovente história da cabo que, alvo da retaliação hartunguista, foi removida de Vitória, onde cursava química pela Universidade Federal do Espírito (Ufes), para uma unidade no interior do Estado e acabou vítima de depressão. Mesmo retornando à capital, após muita negociação com o governo, ela não resistiu à doença e se matou cinco dias antes da conclusão do curso. 
 
Como Hartung insiste ainda hoje em sua revanche, soldados que rotineiramente vivem em situação de risco por causa da profissão, ainda têm que se defrontar com o descaso do governo: o Hospital da Polícia Militar (HPM) não tem psiquiatra para atender os que fracassaram em suas tentativas de autodestruição ou que sucumbiram à instabilidade psicológica e, consequentemente,  às drogas. Como denunciou a Associação dos Cabos e Soldados da PMES, em vez de ajudar, o governo pune o militar que  se recusa a fazer exames toxicológicos. Se faz os exames e é identificado como usuário, acaba sendo enquadrado em procedimentos administrativos que podem levá-lo à reserva ou à expulsão.
 
Cinco suicídios já ocorreram este ano na PMES. A previsão da Associação - considerando o quadro de desequilíbrio emocional profundo que persiste na tropa desde a instauração do processo punitivo pela moderna versão palaciana do excruciante inquisidor espanhol Tomás de Torquemada -  é de que novos casos se repitam. Talvez seja o caso de se considerar esses militares que se imolaram não os pusilânimes que a sociedade costuma varrer para debaixo do tapete pela sua incapacidade de lidar com tema tão radical, mas heróis que em sua nobreza solitária se retiraram voluntariamente da vida protestando contra a opressão de Hartung.

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