Seculo

 

Não se pode confiar no INMA


27/12/2017 às 11:33
Você já abriu o website da Vale, da Aracruz Celulose, ou da CST? À primeira vista, eles são muito informativos, mas o que chama atenção, é que eles passam uma forte impressão de que o meio ambiente é a maior prioridade institucional, até mesmo maior que os lucros. 
 
O mesmo acontece com o Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA). Até parece que Augusto Ruschi e o museu por ele criado (Museu Mello Leitão) são suas prioridades. E faz sentido, porque deveriam ser – sem Augusto Ruschi e seu Museu, o ES sequer teria mérito para sediar o Instituto Nacional da Mata Atlântica. Sem Augusto Ruschi, o ES sequer teria Mata Atlântica.
 
Acontece que o INMA, recém-criado indecorosamente às custas da extinção do Museu, busca limpar sua imagem. Mas ele o faz de forma hipócrita. Ele busca contar a história do próprio museu que extinguiu usando o patrimônio que alienou, e busca também contar a história de Augusto Ruschi, quem tanto desrespeita.
 
A estratégia de contar a história do Museu Mello Leitão omitindo fatos relacionados com a perseguição à obra de Augusto Ruschi abunda o website do INMA, e sequer pode ser percebida por quem desconhece as conspurcações que se passam por lá.
 
Por exemplo, ao registrar que o Museu sofreu com a grande enchente que acometeu o município em 2000, o INMA informa que “A água, com muito volume, força e altura, inundou a cidade e derrubou um dos muros do Museu, inundando todo o Parque. Foram inundadas as áreas em que funcionavam a zoologia, a botânica, o herbário de exsicatas e os locais ocupados pelos viveiros dos mamíferos, répteis e anfíbios, causando danos em todo o acervo. A água danificou todo o equipamento de informática, o arquivo corrente, slides, fotografias e livros técnicos daqueles setores. A ala mais prejudicada foi o Pavilhão de Botânica Florestal. Pesquisadores, estudantes, moradores e funcionários se mobilizaram para tentar salvar o patrimônio do Museu atingido pela chuva”.
 
Realmente, foi dramático. Diversos animais morreram nos viveiros, e as coleções zoológicas e botânicas ficaram debaixo da água com lama. Os curadores Marlene e Beto Hoffman limparam sozinhos toda a coleção zoológica que foi atingida. Eu participei do grupo de limpeza das exsicatas, junto a Claudio Nicoletti de Fraga e outras pessoas. Foram quase duas semanas limpando e aplicando fungicida em cada uma das mais de 40 mil plantas colecionadas. Por diversos momentos trabalhávamos chorando de tristeza diante daquela cena trágica. Mas a força do grupo não se abalou, e os esforços se estenderam até tarde da noite. Foi um enorme alívio ter as coleções recuperadas, cada pele animal e cada planta, até mesmo as delicadas pétalas das orquídeas, coletadas há mais de 80 anos, foram salvas. 
 
Mas a história contada pelo INMA esconde tragédias sobre o patrimônio do Museu Mello Leitão e a perseguição a Augusto Ruschi que vão muito além da dramaticidade. Nesse caso específico, o texto sequer menciona a existência da “Coleção de madeiras de lei da Mata Atlântica”. Tratam-se de centenas de representantes arbóreos do ES sob forma de plaquetas de madeira e toras com cerca de 80cm de altura identificadas por uma placa de cobre que ficavam distribuídas em um pavilhão. Essa coleção era um testemunho da covardia e crueldade contra as florestas capixabas, bem como do desrespeito com as gerações futuras capixabas. Constituía, literalmente, o que havia sobrado das maiores florestas do Estado, sendo a coleção mais lúdica deixada pelo cientista.
 
Pois bem, passadas as duas semanas de trabalho intenso na recuperação da coleção de botânica e todo alvoroço criado pela enchente, eu perguntei ao então diretor do Museu Mello Leitão, Helio Q. B. Fernandes, onde estavam as toras. Como sempre, sua resposta foi curta e grossa: “estragaram na enchente”. 
 
Mas me pergunto: Como puderam toras de madeira sólida se estragarem na lama, sendo que delicados beija-flores e orquídeas puderam ser recuperados? Não consigo nem imaginar como centenas de metros cúbicos de madeira de lei puderam simplesmente desaparecer do museu. O caminhão de lixo simplesmente recolheu? Eu tenho minhas dúvidas se essa suposta perda foi registrada oficialmente. Nunca vi menção à mesma em lugar algum. Trata-se de uma coleção que tanto o Museu como o INMA fazem questão de apagar. 
 
Desastres naturais como enchentes e vendavais não colocam a obra de Augusto Ruschi em risco. Esse apanágio é exclusivo de pessoas. Pessoas irresponsáveis dispostas a usar o patrimônio público como bem entendem; pessoas que omitem informações e interpretam a história para servi-los; pessoas que atropelam o respeito, talvez porque sequer tenham aprendido essa virtude.

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