Seculo

 

Quem paga a conta


28/12/2017 às 09:04
Há uma greve de ônibus na Grande Vitória, estrategicamente programada para tornar mais difíceis os dias e as noites dos usuários neste final de ano, com o rescaldo das festas natalinas e a efervescência o Ano Novo. Motoristas e cobradores pressionam por aumento de salários. Mas também há um jogo de cartas marcadas entre os sindicatos dos trabalhadores e o dos patrões sentados à mesa de um imaginário cassino.
 
Realmente, poucas coisas parecem tão óbvias quanto essa postiça escaramuça cuja solução, quer se dê na Justiça do Trabalho, quer por acordo voluntário, passa inevitavelmente pelo bolso dos 17 milhões de usuários/mês que padecem em ônibus desconfortáveis. Atendidas as pretensões dos grevistas, alguém tem dúvida de que, ao fim e ao cabo, um aumento de passagens, defendido exaustivamente em nome da redução do déficit do sistema, será a próxima cartada do sindicato patronal, o GVbus?
 
Quando foi implantado há 28 anos - cinco anos depois da criação da empresa encarregada de gerenciá-lo, a Companhia de Transportes Urbanos da Grande Vitória-Ceturb - , o Transcol revelou-se algo bastante avançado para a época, utilizando ônibus de maior capacidade e tarifa única integrada. Melhorias foram introduzidas ao sistema, mas não o suficiente para atender o crescimento da população da Região Metropolitana de Vitória. Os aproximadamente 900 mil habitantes que haviam na época na região saltaram para quase 2 milhões atuais. 
 
A mobilidade urbana na Grande Vitória acabou se tornando um desafio que os governantes não conseguiram enfrentar, cristalizaram-se  as condições de enfrentamento periódico entre trabalhadores e empresários e o Transcol, agora ineficiente, transformou-se em sorvedouro de recursos públicos. 
 
Aparentemente, a solução do problema se resume ao aumento de tarifas, mas na verdade, essa pendenga anual não passa de cortina de fumaça para esconder a complexidade das relações entre as três partes envolvidas no desenlace de um gravíssimo problema para a população da Grande Vitória.  
 
A terceira parte, como se sabe, é aquela a quem cabe, por dever e obrigações legais, a iniciativa de planejar e implantar novas e modernas alternativas na área do transporte coletivo: o poder público.
 
No entanto, além de realizar licitações eivadas de suspeitas, como a de 2014, (concedeu-se a exploração do transporte coletivo por 25 anos a dois consórcios formados pelas mesmas empresas que há anos vêm operando o Transcol), a única coisa que o poder público faz, e mal, é exercer a fiscalização.  Aliás, não só isso: ainda injeta, anualmente, algo em torno de R$ 100 milhões nessas empresas, na forma de subsídios, para compensá-las por supostos prejuízos financeiros.
 
Se a única coisa permanente nesta vida é a mudança, parece que o Transcol se converteu num irremovível monumento em homenagem à imobilidade. A sociedade civil, por meio dos seus usuários ou das associações de moradores, deveria ser o agente de transformação do sistema, mas limita-se a tímidos protestos. E a conta do conformismo, como sempre acontece, quem paga são aqueles que há anos vêm sendo mal atendidos pelo transporte público.

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