Seculo

 

Tico-tico no radar da Águia


28/12/2017 às 10:56
Toda vez que surge uma notícia como essa – "Boeing quer acordo operacional com a Embraer" – me vem à lembrança a frase de um empresário do interior paulista a propósito da abertura da economia brasileira aos capitais internacionais.
 
Por volta de 1982, quando eram fortíssimas as pressões para "entregar" ativos nacionais ao capital estrangeiro, aquele empresário disse: "Sou a favor da preservação das empresas brasileiras, mas o Brasil pode seguir o caminho do Canadá, que adotou o dólar como moeda canadense e a bandeira dos Estados Unidos como símbolo nacional".
 
Ele acreditava que o Canadá havia feito uma opção inteligente, tornando-se uma espécie de protetorado ianque com alto nível de vida – uma colônia moderna, por assim dizer, com muito mais peso econômico do que outros países anexados pelos EUA, como o Havaí e Porto Rico, para citar apenas territórios americanos. Além disso, o Canadá desfruta de alguns luxos, como a relativa autonomia da província francesa de Quebec.   
 
A verdade é que não há muitos meios de escapar da voz de comando emitida por Washington. O mesmo empresário paulista dizia realisticamente que "tudo volta para Manhattan", alusão direta ao poder do dólar não apenas sobre a economia mundial, mas sobre o poder político das nações, os movimentos ecológicos e todos os serviços (justiça, diplomacia, segurança, educação, saúde) tutelados pelo Império ianque com a cumplicidade de seus sócios em Bonn, Londres, Tóquio etc.
 
Infelizmente, já nos acostumamos com a ingerência ianque nos negócios internos de outros países como Afeganistão, Coréia do Sul, Cuba, Guatemala, Honduras, Iraque, México, Nicarágua, Síria, Turquia, Vietname etc. E a pergunta da hora é: nessa batida, onde vamos parar?
 
Estamos vendo agora que a governança norte-americana impõe seus valores (e interesses) até sobre o mundo da bola (Fifa), que sempre desfrutou de total liberdade.
 
Logicamente, faz parte do jogo enquadrar o Brasil, um dos dez maiores PIB do mundo e dono de uma das principais reservas de petróleo do planeta.   
 
Assim, se a gigantesca Boeing deixou claro que está a fim de engolir a Embraer, a única coisa a estranhar é que o chefe de plantão no Palácio do Planalto tenha resolvido dar o contra.
 
Se o que caracteriza o governo-tampão presidido por Michel Temer é a submissão à vontade do(s) Mercado(s) – veja o que está acontecendo com a Embrapa, a Petrobras e a Eletrobras --, como se explica esse súbito NÃO?
 
Pode-se desconfiar que o NÃO dele seja um despiste ordinário -- a clássica colocação de dificuldades para vender facilidades. Mas há outra hipótese para a negativa presidencial: é que o meganegócio aeronáutico não agrada aos militares, já que a operação da Embraer tem a ver com a segurança nacional ou, seja, afeta de modo agudo a soberania nacional.
 
Em outras palavras, o negócio da Embraer foge à alçada do presidente em exercício.
 
Falta-lhe teto para esse voo.
 
Como na fábula célebre, o rei está nu.   
 
LEMBRETE DE OCASIÃO
 
"Deveis ter sempre em vista que é loucura o esperar uma nação favores desinteressados de outra; e que tudo quanto uma nação recebe como favor terá de pagar mais tarde como uma parte da sua independência".
 
George Washington, citado por Golbery de Couto e Silva na página 62 de seu livro "Geopolítica do Brasil" (Editora José Olympio, 3ª.edição, 1981)
 
 
 
   

Leia Também

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem

.

SOCIOECONÔMICAS
Ales
Mais do mesmo

Na carona de Amaro Neto, lideranças do bloco governista pretendem manter pelo menos dez deputados estaduais na Assembleia. Já pensou...

OPINIÃO
Editorial
Donos das terras
Decisão em favor da titularidade do território quilombola no Estado é um passo importante na reparação de uma injustiça histórica que protege os poderosos
Gustavo Bastos
Jeff Buckley e seu álbum Grace
''O álbum Grace foi lançado em agosto de 1994''
Wilson Márcio Depes
A onipresença da violência
Os elevados índices de violência vêm favorecendo, de forma decisiva, o discurso de candidatos. É fácil verificar
Roberto Junquilho
O foco é o segundo turno
A estratégia do grupo palaciano é atrair a senadora Rose de Freitas para o segundo turno
BLOGS
Mensagem na Garrafa

Wanda Sily

Último desejo
MAIS LIDAS

Lama da Samarco/Vale-BHP pode ser bomba relógio de metais pesados

Colnago se firma como candidato ao governo, mas não unifica o bloco hartunguista

Indicação do líder do governo para o TCE abre nova frente para oposição na Assembleia

Donos das terras

Jeff Buckley e seu álbum Grace