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A Via Crucis dos pacientes oncológicos do SUS capixaba


06/01/2018 às 20:10

Fome, sol e chuva, por um dia inteiro, antes e depois de serem submetidos a exames e procedimentos médicos invasivos e fragilizantes. Essa é a rotina de quem precisa do Sistema Único de Saúde (SUS) capixaba para o tratamento contra o câncer, e mora fora da Grande Vitória.

Os transportes cedidos pelo Estado, muitos em estado precário, que até quebram durante o trajeto, costumam sair por volta da meia-noite dos municípios do interior do Espírito Santo, Bahia ou Minas Gerais.

Após passaram a noite dentro das vans e ônibus, costumam chegar na região metropolitana ao amanhecer, sendo então deixados em seus respectivos hospitais, de onde só sairão, na maioria das vezes, no final da tarde, retornando ao município em horário avançado da noite, totalizando quase 24 horas de via crucis.

Durante essas quase doze horas no hospital, muitos não possuem dinheiro para comer, muitas vezes se alimentando apenas de um bem simples café da manhã, nos hospitais que o oferecem. Um pão com manteiga, café e leite. E a água do bebedouro.

A dona de casa Mônica Cristina do Espírito Santo Teixeira Covas, moradora de Pinheiros, extremo norte do Estado, conta que desde novembro passa por esse martírio, em seu tratamento de câncer no útero. Acompanhada apenas da cunhada, também de Pinheiros, não tem parentes nem amigos onde possa ficar na capital capixaba.

Nessa sexta-feira (4), mais um dia nessa difícil rotina, ela já havia feito seus exames pela manhã, mas ainda não sabia que horas chegaria em casa. “Depois ficamos aqui abandonados que nem cachorros. Devia haver salas pro povo pelo menos descansar. Terça-feira eu tenho exame às 15h30, mas vou ter de sair de novo pela manhã. Ficamos com o telefone do motorista e aguardando. ‘Tô chegando, tô chegando, mas às vezes só chega pra buscar a gente lá pelas cinco da tarde”, relata. 

Mesmo aos que contam com parentes na cidade, o sistema de transporte impõe muito sofrimento. Matilde Jacob, aposentada de Águia Branca, passa dias por mês na capital, devido aos tratamentos diversos que faz no Hospital das Clinicas, anexo ao Santa Rita, endereço hospitalar costumeiro de Mônica.

Matilde dorme na casa de familiares, mas as horas em que aguarda o transporte para voltar pra Águia Branca, no pátio do hospital, são longas e sofridas. As dores no corpo, nos joelhos principalmente, dificultam a subida das escadas, onde há um local com abrigo para chuva e sol. “Tinha que ter um lugar mais apropriado. É muita lama, molha as pernas, carro passa e joga água na gente”, reclama.

Voluntários ajudam

Um sofrimento extra se impõe aos que possuem menor condição financeira e dependem da ajuda de voluntários para não passarem fome. É o caso da vendedora ambulante Maia Aparecida Nascimento Oliveira, que vende lanches no estacionamento do Hemocentro do Espírito Santo (Hemoes), onde os veículos vindos do interior estacionam para deixar ou apanhar os pacientes dos dois hospitais. “Quando chove é terrível. E nos dias de muito calor, também”, conta.


Aparecida está fazendo um pequeno projeto para instalar um toldo na área do pátio onde os ambulantes se reúnem, pois a tenda existente não resiste sequer a um vento mais forte. Ela já tem o orçamento da ferragem, que ficam em torno de R$ 2 mil, falta calcular a lona.

O projeto de instalação está sendo feito por uma médica do hospital. Com tudo em mãos, ela pretende levar até a direção da unidade para conseguir autorização e assim aliviar um pouco as intempéries que castigam os pacientes.

A ideia é pedir ajuda de empresários para a compra do material. A intenção é promissora, devido ao apelo emotivo que a causa tem, e lembra de uma iniciativa semelhante, voltada ao drama das crianças com câncer. Para dar alívio às horas e dias de espera das famílias do interior, um grupo de voluntários se mobilizou, em meados dos anos 1980, para conseguir um espaço que abrigasse as famílias das crianças. Passados trinta anos, a iniciativa se transformou numa das ongs mais bem-sucedidas do estado, a Associação Capixaba de Combate ao Câncer Infantil (Acacci).

Bom, mas voltemos ao pátio do Hospital Santa Rita em 2018. Na barraca de lanches da Aparecida, há sempre opções mais saudáveis, para os que têm restrições com embutidos, frituras e corantes. Para os que podem pagar, ela vende, para os que não podem, ela doa, ou consegue doação de marmitas dos colegas. “Quando passa mal, a gente às vezes é que liga pra ambulância”, conta.

Neste Natal de 2017, ela acompanhou um paciente de Minas Gerais, que não tinha parentes no Estado. “Levei lanche, levei comida. Ele tinha acompanhante, mas que não conhece nada aqui”, relata. “Eu faço porque eu gosto, porque já faço evangelização nas ruas à noite, pela Igreja”, diz, humildemente.

A conversa com as pacientes e a voluntária, no estacionamento do Hemoes, acontece dois dias depois de o governador Paulo Hartung anunciar investimentos de R$ 1 bilhão em diversas pastas de seu governo neste ano eleitoral de 2018, sendo que pelo 15 nomes são cotados como candidatos. Hora de reivindicar investimentos para suavizar a dor dos pacientes do SUS capixaba. Dor que certamente o governador não conhece, pois seu tratamento oncológico foi feito no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo.

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