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Assentados em Pancas se mobilizam para impedir fechamento de escola


05/01/2018 às 20:16

“Nós não queremos que feche, não!”, afirma, com veemência, a agricultora e dona de casa Geovana dos Santos Tomás, em defesa da Escola do Assentamento Madre Cristina, em Alto Córrego São Pedro, município de Pancas, noroeste do Espírito Santo.

Geovana é mãe de duas crianças, uma delas estudando na escola do assentamento e a menor na pré-escola do distrito vizinho, a cerca de 10 quilômetros de distância. A reivindicação da comunidade, conta ela, é pela ampliação da unidade de ensino local, para abrigar também a educação infantil, e futuramente, criar uma Escola Família Agrícola na região.

Os planos dos gestores públicos estadual e municipal, no entanto, apontam para uma direção oposta, na execução de um plano anacrônico e totalmente descontextualizado com as diretrizes defendidas pelos educadores do campo, nos comitês locais e conselho estadual.

Por parte do governo Paulo Hartung, já é bem conhecida sua política de erradicação das escolas do campo e seu equivocado projeto-vitrine de Escola Viva. Política que, em Pancas, encontra ressonância na Secretaria Municipal de Educação, que já fechou várias pequenas escolas do campo e, ainda na surdina, contam os educadores da região, tramita com o fechamento de mais uma, exatamente a do Assentamento Madre Cristina, e a transferência dos alunos para a Escola Polo, localizada dentro de uma propriedade rural de um dos maiores fazendeiros do município, e com uma pedagogia totalmente diferente da educação do campo.

Na mesma fazenda, já foi construído um posto de saúde reivindicado pela comunidade Madre Cristina. “Querem a exclusão do assentamento”, lamenta a assistente social Eliandra Rosa Fernandes, dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Esse posicionamento contrário às escolas do campo não vem apenas dessa gestão municipal, é “tradição” em Pancas, explica Eliandra. Por isso, quando a comunidade se uniu, há dez anos, para criar a escola, a solicitação foi feita à Secretaria Estadual de Educação (Sedu). 

Na época, porém, nem o município nem o Estado queriam criá-la. “Funcionamos um ano ilegalmente. Tiramos as crianças do município e começamos, na militância, a dar aula voluntariamente, com materiais doados e a reforma do espaço feita pelos pais. Começamos assim”, relata.

A situação em que as crianças iam estudar era muito precária, conta Eliandra. O assentamento fica no alto de um morro e, quando chove, as crianças chegam a ficar três meses sem ir pra escola. Hoje, os alunos do sexto ano em diante, que precisam ir à sede do município, ficam até três semanas sem transporte, dependendo das condições da estrada.

Após um ano, continua, a superintendência formalizou a escola, em 2009. O MST entrou então com pedido de construção do espaço físico definitivo, o que só aconteceu em 2015. “É um dos prédios mais bonitos da região. Tem estrutura de freezer, de forno, de fogão, é uma estrutura ótima”, comemora.

A participação da comunidade do assentamento é intensa durante todo esse tempo, seguindo princípios da Pedagogia da Alternância, mesmo a escola não funcionando nesse sistema, em virtude das turmas serem multisseriadas. “A gente trabalha a partir da perspectiva da Educação do Campo, dos movimentos sociais, com auto-organização dos alunos, valorização da cultura e da identidade do campo, e participação da família”, exemplifica.

Até 2016, conta a dirigente do MST, “nós, os pais, que fazíamos a merenda, cada semana uma família. Depois a superintendência proibiu, mas também não contratou merendeira, e a professora que passou a fazer”, critica.

As duas filhas de Eliandra estudaram nessa escola e hoje estão na Escola Família Córrego do Bley, em São Gabriel da Palha, uma das melhores do Estado.

Diante da notícia, ainda extraoficial, de fechamento da escola, sua reação imediata foi de mobilização dos assentados e dos educadores. “Porque foi uma luta muito grande pra agora fazer isso sem nenhuma participação da comunidade”, protesta.

A dirigente do MST diz ainda que ninguém sabe ao certo se a escola foi de fato municipalizada. A professora recebeu um comunicado de suspensão do seu contrato, mas ainda não teve confirmação da transferência para a Prefeitura.

“A gente não sabe nem onde é o foco de luta, se na superintendência regional em Colatina ou se na secretaria municipal de educação, mas vamos lutar”, afirma Eliandra. 

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