Seculo

 

Poder a qualquer preço


06/01/2018 às 11:09
Quando reiteradas denúncias mostram que bebês prematuros morrem numa Unidade de Terapia Intensiva (UTI) neonatal em face de uma lucratividade máxima perseguida pelo Instituto de Gestão e Humanização (IGH), organização social contratada pela Secretaria Estadual de Saúde (Sesa) para administrar o Hospital Estadual Infantil e Maternidade Alzir Bernardino Alves (Heimaba), em Vila Velha, é o caso de se perguntar: vivemos uma inversão de valores, no campo da ética e da moral, em que o Estado, compreendido como ente voltado para o bem comum, se organiza como ente para o bem de poucos? Vivemos num Estado em que o governo e seus burocratas, em nome do enxugamento dos gastos públicos, precariza setor de fundamental importância como a saúde, terceirizando o atendimento hospitalar, trocando profissionais qualificados por outros menos experientes para  reduzir custos e impunemente levando a óbito frágeis seres humanos recém-chegados à vida? 
 
Sim, vivemos.
 
Desde que a Sesa entregou a gestão do Heimaba ao IGH, em agosto do ano passado, multiplicam-se as denúncias sobre a queda da qualidade do atendimento, a falta de medicamentos e, principalmente, o aumento de óbitos de bebês prematuros. Dez crianças já sucumbiram a maus cuidados: seis em outubro e novembro do ano passado e quatro nos dois primeiros dias de 2018. No entanto, durante os oito primeiros meses do ano passado anteriores à terceirização, registraram-se apenas dois óbitos neonatais. 
 
O Sindicato dos Trabalhadores da Saúde no Espírito Santo (Sindsaúde-ES) atribuiu as mortes à contratação de profissionais inexperientes para substituir trabalhadores qualificados que vinham atuando de maneira competente no local. Uma medida de economia adotada pelo IGH, obviamente voltada para o aumento dos seus lucros: recém-formados garimpados no mercado de trabalho recebem bem menos que os mais experientes.
 
Obviamente, há um desvio de conduta e de finalidade nessa política de contratações. O IGH, teoricamente, é uma organização social sem fins lucrativos, mas no Espírito Santo, como em outros estados onde também já foi alvo de denúncias, atua como empresa. Ou seja, além de ser pago com  recursos públicos para prestar maus serviços no Heimaba, paralelamente, aumenta a  margem de lucros pagando baixos salários a profissionais que sequer sabem administrar adequadamente medicamentos, segundo o Sindsaúde-ES. O que evidencia quebra de contrato, pois uma das cláusulas do acordo com a Sesa estipula nitidamente que não poderão ser admitidos profissionais com menos de dois anos de experiência.
 
O cenário é preocupante, porque o governo, a pretexto de encolher custos, insiste na falácia da terceirização. Além do Heimaba, mais três hospitais foram enquadrados nesse processo: o  Jayme Santos Neves, na Serra; o Central, em Vitória; e o Estadual de Urgência e Emergência (Heue), também na Capital, conhecido como novo São Lucas. Outros que deverão ser alvo da terceirização são o Hospital de São José do Calçado (HSJC), na região do Caparaó; o Hospital Sílvio Avidos, em Colatina, na região noroeste; e o Hospital Estadual Roberto Arnizaut Silvares, em São Mateus, no norte do Estado. 
 
E a terceirização, como se sabe, resulta igualmente na precarização do trabalho, afetando diretamente o profissional da saúde. Não passa de estratégia imposta ao mercado para, entre outras coisas,  flexibilizar e reduzir custos da força de trabalho.  
 
No caso do governo Hartung, o que se pretendeu desde o início, com o corte de despesas e investimentos nos três primeiros anos de sua administração, que lhe deram a falsa imagem de competente fiscalista, não foi exatamente conquistar uma eficiência na gestão pública, mas tão somente acumular recursos  em caixa para no último ano de governo anunciar estrepitosamente um "plano de investimento de R$ 1 bilhão". Bilhão que se transformará em obras apressadas e em votos para seus aliados neste dramático ano eleitoral de 2018.
 
Mas quão alto é o preço que a sociedade paga hoje pela política hartunguista de enxugamento de despesas. Com certeza, todo o investimento do sagaz governador neste suntuoso projeto eleitoreiro que  montou para  perpetuar a si mesmo e os seus no poder não vale um bebê morto numa UTI neonatal por falta de assistência apropriada. Quanto mais dez (até agora).

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