Seculo

 

Alimentação frugal para pessoas e um planeta mais saudável


07/01/2018 às 19:45
“Coma frutas e vegetais como se a sua saúde e do planeta dependessem disso. Porque dependem”. É assim que o nutricionista Eduardo Corassa sintetiza sua ideia de que uma alimentação vegana, crudívora e essencialmente frugal, é a mais indicada para a espécie humana e a principal estratégia para resolver os principais problemas ambientais do planeta.

Além de nutricionista, Eduardo é escritor, ativista vegano, youtuber, palestrante e chef crudívoro. Nesses mais diversos meios de comunicação, ele utiliza a Antropologia e a Biologia para iniciar a defesa da dieta crudívora e frugal: todos os demais primatas antropoides, como nós humanos, a adotam e nós somos os únicos a nos desvirtuar, mesmo compartilhando até 99,3% do código genético, como é o caso dos macacos bonobos.

A partir desse pressuposto, a Medicina e a Nutrição entram em cena, com inúmeros estudos científicos, tanto recentes quanto do início do século 20, comprovando os benefícios da alimentação frugal: excelente disponibilidade de nutrientes, incluindo as proteínas e ferro, e quase ausência de processos bioquímicos que levam a doenças crônico-degenerativas, como diabetes e hipertensão, além de aumento da disposição física, da performance mental e do equilíbrio emocional.

Numa palestra no TEDx, sob o título “A dieta do Éden”, Eduardo diz ainda que, mesmo não sendo uma pessoa espiritualista, sente que essa dieta – que adotou há onze anos e o retirou de uma condição de obesidade, diabetes, baixa imunidade e disposição física e mental com apenas 22 anos de idade – tem inspirado também uma percepção espiritual mais aguçada.

“A paz é bioquímica. Não queime seu alimento. Ao ser saudável, sua bioquímica muda e interfere no seu comportamento. Isso vai interferir no todo, como você se relaciona com você mesmo, com seus entes queridos, e o planeta, os animais, literalmente voltando ao paraíso. Ao voltarmos a consumir frutas e vegetais, os alimentos da raça humana, nós voltamos ao paraíso interno e externamos esse paraíso e voltamos à Era Dourada”, conclui, após 19 minutos de incrível enxurrada de dados científicos colhidos em diversas épocas da história da Ciência Ocidental contemporânea.

Natural do Rio de Janeiro, onde mora, Eduardo circula por todo o país e no exterior ministrando suas palestras e cursos sobre crudivorismo e alimentação frugal. Em dezembro passado ele esteve na capital capixaba para uma palestra gratuita e um curso de dois dias, teórico e prático, com aulas gourmet e palestras didáticas, voltado a auxiliar as pessoas a serem bem sucedidas numa dieta crua.

No mesmo mês, em São Paulo, os deputados aprovaram um projeto de lei que institui a campanha mundial Segunda Sem Carne, proibindo a oferta de carne nos restaurantes e cozinhas dos órgãos públicos, com exceção de hospital e unidade de saúde.

A proposta é do deputado Feliciano Filho (PSC), notório defensor dos direitos dos animais, que justifica o projeto em função dos impactos negativos do consumo da carne sobre o meio ambiente e de sua capacidade de provocar doenças como cardiopatias, câncer e diabetes.

Leoas com juba e baleias hermafroditas

Na entrevista que concedeu ao Século Diário, a partir de Ribeirão Preto/SP, Eduardo, a nosso pedido, enfocou nos benefícios para a conservação ambiental, da alimentação vegana, especialmente a baseada em frutas e outros vegetais crus, e natural, sem processados industrializados.

Pra começar, explicou que qualquer comida industrializada possui xenobióticos, similares à famigerada dioxina, que são disruptorres endócrinos, ou seja, quebram os hormônios. E isso acontece com seres humanos e outros animais que tenham contato com essas substâncias.

“Estão aparecendo baleias hermafroditas no Ártico e leoas com juba na África! Isso acontece a torto e a direito, até em humanos”, alerta. Enquanto no Ocidente as meninas menstruam e desenvolvem corpos quase adultos cada vez mais cedo, na China rural a menarca ainda se dá por volta dos 19 anos, contrapõe.

Sobre a conservação das florestas, do solo, das águas e do clima saudável, concordamos que não era preciso nos demorar, pois os dados científicos estão cada vez mais disponíveis em livros, vídeos, sites e redes sociais especializadas.

Basta-nos citar três fontes já mencionados em reportagens anteriores: a Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB); o biólogo Sergio Greif, especialista em Gerenciamento Ambiental, mestre em Alimentos e Nutrição e um dos membros fundadores da Sociedade Vegana; e Tasso Azevedo, coordenador geral do Sistema de Estimativas de Emissão de Gases de Efeito Estufa (SEEG) – uma iniciativa da rede de ONGs Observatório do Clima, voltada a gerar estimativas anuais a partir de dados do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e outras fontes, seguindo diretrizes do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), e disponibilizá-las na internet, de forma simples e clara, agilizando e democratizando o acesso.

Sergio afirma que “a criação de gado é uma das mais importantes fontes de poluição do meio ambiente. A aplicação da legislação ambiental sobre ela simplesmente inviabilizaria a atividade”.

Tasso, em entrevista concedida em 2015 a esta repórter, foi enfático: “Cerca de 60% das emissões de gases de efeito estufa no Brasil são geradas pela cadeia de produção da pecuária. E 80% de tudo o que é desmatado na Amazônia vira pasto, antes de qualquer outra coisa”.

E a SVB, em nota à imprensa sobre a Operação Carne Fraca, que desvendou os crimes cometidos pela maior indústria frigorífera do país, em abril do ano passado, comunicou: “A produção de carne no Brasil é responsável pelo uso de amplas extensões de terra, desmatamento, poluição da água e solo, e mais emissões de gases de efeito estufa do que qualquer outro setor. E se não fosse pelos incentivos fiscais e dinheiro público que as grandes empresas de carne recebem do governo, a conta não fecharia”.

A Medicina precisa atualizar seus biomarcadores

Na contramão da animalização e industrialização cada vez maior da alimentação no Ocidente, e que agora também se contamina o Oriente, a alimentação vegana e natural, e, mais ainda a crudívora e frugal, restabelecem a saúde integral das pessoas e do planeta.

“As frutas são a solução para o meio ambiente. Uma árvore cresce em 3D, ao contrário dos campos de cereais, que crescem em 2D. Uma jaqueira cresce dez metros de altura, oferece uma quantidade incrível de alimento. Uma macieira produz cinco toneladas de maçãs em um ano. É mais comida em menos espaço”, diz Eduardo.

Produzidas de forma agroecológica, acrescenta o nutricionista, elas ainda dispensam a necessidade de agrotóxicos. Esse venenos agrícolas, destaca o palestrante e escritor frugívoro, começaram a ser utilizados por causa da agropecuária, à medida que foi preciso fazer monoculturas de soja e milho pra engordar o gado.

E, mesmo no caso das frutas produzidas com agrotóxicos, em grandes plantios industriais, Eduardo defende a dieta frugal, pois, segundo ele, 93% da contaminação de POPs – poluentes orgânicos persistentes, que inclue também as dioxinas contidas em plásticos e produtos de limpeza e cosméticos e outros – vem dos produtos animais, pois esses contaminantes são hidrofóbicos e lipofílicos, ou seja, se grudam mais nas células de gordura dos animais do que nas células cheias de água das frutas.

Com relação ao Ferro Heme (do grego “haima”, que significa “sangue”), que se obtém exclusivamente de fontes animais, Eduardo esclarece que esse mineral já foi considerado necessário, mas hoje a literatura médica afirma que ele é, na verdade, prejudicial à saúde, pois é pró-oxidativo, o que o correlaciona a doenças crônico degenerativas, “causando aumento na incidência de diabetes, cânceres, doenças cardiovasculares, infartos e etc. em inúmeras pesquisas”, explica.  

Isso leva os profissionais da saúde a concluírem, continua, “que talvez os parâmetros de biomarcadores que temos na medicina em voga para ferro, são na verdade anormais e não saudáveis, mas são vistos como normais pois todos onívoros acabam tendo maiores níveis de ferro, nos seus diferentes tipos de biomarcadores”, desmistifica.

Por fim, sobre alimentação crua e, consequentemente, não ingestão também de cereais e leguminosas (feijões, grão-de-bico, ervilhas, lentilhas), Eduardo defende que, na natureza, “cereal é comida de pássaro” e que leguminosas, se frescas e colhidas ainda relativamente verdes, são “macias e consumíveis, mas o gosto é limitado para os primatas”.

O cozimento de alimentos, surgido junto com a agricultura, há 13 mil anos, é um evento recente na história humana de aproximadamente 190 mil anos, e é muito maléfico para a saúde, como definido pela chamada Reação de Maillard, criada há mais de cem anos e largamente ensinada nas faculdades de Nutrição. “Cozinhar uma batata produz 420 substâncias tóxicas, relacionadas a todo tipo de doença crônico degenerativa, além de serem cancerígenas, mutagênicas, genotóxicas, citotóxicas, teratogênicas, pró-inflamatórias”, informa.

Eduardo lembra ainda a expressiva redução de lixo, pois frutas e vegetais crus já vêm “bioembalados”, não precisam de embalagens plásticas e, ao não serem cozidos, não geram a poluição ambiental necessária ao ato, como a extração de lenha e gás derivado de petróleo, os gases tóxicos produzidos durante a fritura e a intensa poluição das águas, quando os óleos usados são dispensados nas redes dos corpos hídricos.

Vivendo há onze anos se alimentando essencialmente de frutas e verduras cruas, com pequenas porções de oleaginosas, Eduardo conta que se sente cada vez mais forte e disposto – “levantando 70 kg no supino”, destaca – e sem qualquer deficiência nutricional detectada em seus exames. Além da consciência leve, de estar, efetivamente, contribuindo para deixar o planeta mais saudável e sustentável.

Mais informações sobre o crudivorismo e a dieta frugal, no site www.saudefrugal.com.br e também no Instagram e Facebook

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