Seculo

 

Lição política de Augusto Ruschi


24/01/2018 às 10:55
Neste ano teremos eleições de extrema importância, a primeira da cúpula política do país, exatamente de onde vieram as revelações sobre uma das maiores turbulências de corrupção política do mundo, que para nossa desgraça, efetuou-se em nossa pátria amada.
 
As consequências econômicas desse revés político já rendem ao Brasil diversos rebaixamentos em índices de confiança para investimentos internacionais. Se por um lado os apontadores Fitch e S&P começam a perceber nossa fragilidade, por outro, a população já está pós-graduada em sobreviver a este cenário econômico inflacionado e desamparado pela assistência pública.
 
Tanto a minoria rica quanto a maioria pobre se veem forçadas a depositar sua esperança em uma mudança urgente, abrupta, como um “milagre”, com data e hora marcados: 7 e 28 de outubro de 2018 – respectivamente o primeiro e o segundo turno das eleições para presidente, governadores e deputados.
 
Todo ano de eleição me recordo de um episódio peculiar do meu pai – quando se candidatou ao cargo de vereador em sua cidade natal, Santa Teresa, e teve apenas um único voto! Esse episódio fora repetido diversas vezes por pesquisadores que tentam contar a história de meu pai no extinto “Museu de Biologia Professor Cândido Firmino de Mello Leitão”.  Me lembro de ouví-la quase todo ano, no aniversário do Museu. Era como assistir um filme repetido na sessão da tarde.
 
Sempre que ouvia essa história sendo contada no Museu, ela era transmitida de modo raso e tendencioso. Algumas vezes ela me foi contada junto a casos que demonstravam ódio pelo meu pai por ele defender a natureza. Como pessoas que pregavam beija-flores nos portões do Museu para intimidá-lo a não mais impedir as derrubadas de mata. De qualquer modo, essa história sempre foi contada em uma entonação negativa, como se ele não tivesse amigos em sua cidade. 
 
Hoje enxergo que grandes amigos de meu pai não lhe concederam o voto por amizade verdadeira, para proteger sua luta, no sentido de que torciam para que seus esforços em defesa do meio ambiente prosseguissem, avante, não sendo condicionados a fatores que por vezes ultrapassam o poder de decisão do político ou seu partido. 
 
Eu não duvido em nada da capacidade de meu pai. Talvez ele tivesse conseguido deixar sua marca quebrando um paradigma político de conservação ambiental se tivesse seguido carreira política, afinal, ele foi um profissional bem sucedido em múltiplos campos. Mas talvez não. Talvez seus amigos que não lhe deram voto estivessem certos e suas aptidões com o mundo natural não surtissem efeitos em redes politicas, onde o resultado de uma metodologia depende de uma grande rede de interesses. 
 
O fato é que, manter-se distante da política foi uma vertente contínua na vida de Augusto Ruschi, talvez decisiva para a grandiosidade de suas conquistas em prol do meio ambiente, da sociedade e da ciência. O cientista recorreu ao Governo Federal para combater crimes ambientais praticados pelo seu Estado e também recorreu ao Governo Estadual para combater crimes ambientais praticados pelo Governo Federal. O mais importante, porém, é que ele jamais deixou de lutar, mesmo quando politicamente desamparado. 
 
A maior lição política da vida de Augusto Ruschi é que condicionamentos políticos sazonais não representam obstáculos ao poder de luta individual do cidadão em defender seus recursos naturais.   

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