Seculo

 

O choque moral entre progressismo e conservadorismo


24/01/2018 às 11:23
A discussão política, apesar de vivermos num Estado laico, deixou de ser de cunho ideológico, embora ainda tenha nos extremos da constelação partidária brasileira tais posicionamentos, e vemos agora a marcação de discussões em torno de direitos civis como dos homossexuais ou do direito da mulher ao aborto que, por sua vez, colocam a política numa nova modalidade de choques entre uma moral tradicional e conservadora e a chamada esquerda libertária, afirmativa de direitos. Tal choque nos leva ao próprio processo civilizatório, em que os valores novos se tornam de imorais (na visão conservadora e tradicional) para morais, e valores antigos da instituição familiar nos moldes cristãos neopentecostais e/ou católicos, no juízo da interpretação bíblica, colocam estes valores novos como inversões do mundo real. 
 
Isto é, mais do que choque entre morais ou uma contenda axiológica, temos um choque de cosmovisões, o que coloca as coisas em termos bem mais graves, ou seja: temos na discussão política, que deixa de lado aspectos ideológicos de conflitos entre visão liberal ou socialista (área de pleitos de cosmovisão sistêmica e econômica, com viés politizado), a percepção de um novo embate valorativo, que trata agora de cosmovisões mais radicais do que a discussão sistêmica. 
 
Trata-se agora, neste choque entre tradição e libertação, de um novo modus operandi do pleito eleitoral nacional, a realidade valorativa ganha contornos de radicalização, mas não de direita e esquerda (discussão sistêmico-econômica), e sim de um choque entre conservadores e libertários, o que nos leva ao questionamento entre uma tradição diacrônica, que revela velhos lemas ou valorações standard, e os libertários, que são o grupo dos direitos civis, em defesa do processo evolutivo, e o que diferencia o moral do imoral se radicalizando nesta polarização: temos duas moralidades diametralmente opostas, uma da tradição que não se coloca no debate, mas numa discussão anódina de preservação, e o debate libertário, que se lança ao progressismo de suas bandeiras, provocando o adversário que, no seu jogo, usa do juízo estabelecido num embate de inversão, isto é, a moral libertária vai ao debate e a preservação do discurso conservador se usa do viés valorativo tradicional, colocando a falácia da inversão de valores como um anti-debate. 
 
O processo civilizatório levanta a bandeira libertária, dos direitos civis, enquanto a moral tradicional não vai ao debate, prefere os slogans standards, escolhendo uma luta simbólica e não argumentativa, daí ser colocado que a moral tradicional prefere a falácia ou sofisma do slogan do que o aprofundamento dos debates sociais e culturais. Ou seja,  a tradição e seus representantes se colocam fora do discurso racional, ficando confinados no apelo emocional, ou pior, no pseudo-argumento (slogan, defesa simbólica) pela autoridade sobrenatural da religião, conhecido em Filosofia como argumentum ad verecundiam, denunciando aí que não se trata, do lado conservador, de uma discussão política racional, de sopesamento valorativo de um consenso ou dissenso equilibrado.  
 
A ala tradicional e conservadora, na sua relação com os libertários, se dá apenas na tática política da inversão, isto é, falando do moral e do imoral, eles têm tudo definido, num ato a-histórico, cristalizado, que não estabelece o debate, colocando a nova moralidade ou valoração civil e libertária no canto de uma imoralidade a priori. Isto é, não se discute de forma equânime. A desconstrução (não inversão) fica ao cargo dos libertários nas suas lutas sociais e culturais, a favor do processo civilizatório real. A valoração ganha nova perspectiva no aprofundamento tanto das discussões políticas em si, como do debate valorativo, civilizatório, social, cultural, abrindo a linguagem moral para sua ampliação, o que passa necessariamente pela civilidade da discussão racional de liberdade, e não da emoção barata do slogan, cunho mais próprio aos valores standards da tradição de família, do que do debate importante dos direitos civis.
 
Portanto, quando e se a ala conservadora da política (religião?) se colocar no debate racionalmente, num embate verbal e não simbólico, teremos da parte libertária o arcabouço discursivo que já vem sendo construído até de forma assembleísta. Pois quem se reúne em torno da discussão pública de valores e de seus critérios de verdade ou mentira, deve ir ao debate munido do argumento tempestivo da razão, e não do apelo emocional de slogans e símbolos. A paixão deve deixar o campo discursivo deste embate valorativo, sendo necessário que a repetição de juízos a priori sejam superados, e que o dissenso ou consenso sejam feitos pela construção e desconstrução discursiva in loco, ou seja, com o jogo de linguagem próprio de um debate político honesto, e portanto, racional.
 
Portanto, se temos a busca do slogan para defender tanto um lado como o outro, não se dá nem o dissenso, mas a falta do debate propositivo, em que a pura inversão evita entrar no jogo, e os extremos da batalha se refugiam simbolicamente em suas verdades. Claro que não haverá consenso entre algo que se coloca necessariamente como entes em oposição. Mas, no espaço público, as instituições têm de fazer uma escolha, e o critério de verdade terá de passar por uma fundamentação discursiva sem apelos a priori de defesas simbólicas. Isto é, da parte da ala libertária tem que partir o discurso propositivo de novas valorações, mais do que a desconstrução do adversário conservador que, este sim, se coloca num refúgio da inversão a priori, fugindo de um debate dinâmico em que a luta de cada um é questionada e o saber reflexivo se faz, e as práticas sociais, políticas e culturais se aperfeiçoam, sendo então possível a construção do verdadeiro processo civilizatório, filho dileto da História e não da moral a priori.
 
Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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