Seculo

 

Assédio sexual e o Fahrenheit 451


31/01/2018 às 13:51
As virtudes da moral
 
Nos casos recentes de assédio sexual que se tornaram públicos, se acendeu uma chama interessante de debates e punições, e tais revelações de abusos vão muito além do que se costuma chamar de politicamente correto ou o que o manifesto francês encabeçado por figuras proeminentes como Catherine Deneuve tentou simplificar como puritanismo e combate feminista da liberdade sexual (leia-se: a prerrogativa de predador natural que muitos homens até hoje gostam de divulgar como uma grande glória).
 
Muitos destes casos (escândalos) como o divulgado do produtor Harvey Weinstein, que participou, dentre outros filmes, de Pulp Fiction, não foram casos pontuais de deslizes, abordagens inadequadas e fora de hora ou do tom, mas revelam casos repetidos e sistemáticos de uso da hierarquia e do poder para subjugar mulheres, pois julgo que um exercício de poder é mais grave do que um erro pontual que pode ser corrigido e o sujeito reeducado sem mais grandes consequências.
 
O que é tratado aqui vai muito além disso, é o assédio sexual agressivo como poder e hierarquia, o uso de uma posição privilegiada para atuar nos bastidores que só agora veio à tona como num efeito dominó que trouxe um debate com pontos e contrapontos, mas, voilá, isto está sendo discutido, o assédio, corrigindo casos mais sutis e punindo casos graves, e assim a sociedade vai esclarecendo este ponto que sempre foi obscuro e tirando os monstros até então ocultos da sombra e rediscutindo o que é de fato o exercício da masculinidade e quais são seus limites.
 
Hollywood, e uma grande aliança do quarto poder, a mídia ou imprensa, deram um gás fenomenal a tudo isso, e agora estamos em meio de um turbilhão que ganha muito da aparência de caça às bruxas, mas que tem sim uma resposta do feminino frente ao descaso e mentira que sempre cercou o assédio, e isto por décadas, como no caso específico das denúncias em torno de Harvey Weinstein, recapitulações como no caso de Kevin Spacey, exageros como no caso de Woody Allen (ainda em andamento), e o maior escândalo de todos, que envolveu o esporte, do médico Larry Nassar, que se trata de pedofilia e que soma denúncias de cerca de 90 ginastas americanas. E o resultado midiático mais visível é o uso da hashtag #MeToo para as mulheres que sofreram assédio ou abuso sexual compartilhar suas histórias.
 
Os vícios da moral
 
Agora vamos para os pontos nebulosos destas investidas morais que começam como virtudes, mas que, no extremo, acabam prestando uma homenagem involuntária e quase cômica ao vício, e que é o pior de todos, o que se acredita e se vende como virtude. A ópera Carmen do compositor francês Bizet teve seu desfecho alterado na sua apresentação num teatro de Florença, na Itália. Aqui temos uma obra original de 1875 sendo alterada, reescrita, isto mesmo, pasmem.
 
Pois a Carmen de Bizet é morta a punhaladas pelo amante frustrado Don José, e para denunciar o feminicídio histórico na sociedade, alguma ou algumas almas muito boas, iluminadas e virtuosas decidiram retalhar o final de uma obra de ópera de mais de um século. Agora o final é glorioso, e ao invés de Carmen ser assassinada, ele é a assassina, como se a face da moeda fosse censurável e seu reverso também violento trouxesse algum alento, pois agora se mata Don José e não mais Carmen, troca-se um crime pelo outro, e a isto se dá o nome de virtude e de revisão ou justiça histórica.
 
Tal revisão histórica, se levada a sério, pode ter um choque ao ler autores violentos, tais como o Marquês de Sade, e talvez reescrever 120 Dias de Sodoma, rever o final da Divina Marquesa em que a infortunada morre a machadadas, e queimar o nome do Marquês em praça pública assim como fizeram os seus contemporâneos de séculos atrás, podendo até mesmo mudar seu nome ou apagá-lo da História, num impulso de Torquemada que prega para convertidos que não sabem a diferença entre contextualização justa de uma obra e seu retalhamento literal.  
 
Polêmicas históricas que vêm à baila, como a entrada da obra de Adolf Hitler para domínio público, trazem este debate para um plano ambíguo, em que se confunde uma justa edição crítica e com diversas ressalvas, da simples proibição, o que passaria por um Fahrenheit 451 (filme de François Truffaut baseado na obra de Ray Bradbury de mesmo nome em que se vive numa sociedade em que se queima todos os livros que existem) às avessas, agora não mais com fogueiras nazistas, mas com a higienização contra ameaças que, se forem bem explicadas, são matéria de estudo histórico, e não mais de lavagem cerebral a favor de ideologias putrefatas como o nazismo.
 
E temos casos ainda em que se mistura a infâmia com a genialidade, como é o caso mais conhecido do autor Ferdinand Céline, que apoiou a ocupação nazista na França, um paradoxo ambulante valorizado intelectualmente por figuras como o cineasta Jean-Luc Godard, mas execrado por suas ideias racistas, acusado de traição pelo Estado francês ao fim da Segunda Guerra Mundial, e se refugiando na Dinamarca até sua anistia em 1951.
 
E a relação nem sempre fácil entre arte e moral envolve outros casos polêmicos como a incidência da palavra “nigger” na obra de Mark Twain, expoente histórico da literatura norte-americana, com algumas reedições em que a palavra é trocada por “slave”, sendo a palavra original extremamente agressiva para o inglês norte-americano como um todo.
 
No Brasil temos a polêmica em torno do nosso autor infantil Monteiro Lobato, como as referências racistas presentes na obra Caçadas de Pedrinho. Contudo, como dito, casos históricos devem ser no máximo contextualizados, pois a realidade de uma época não se altera por decretos morais. A escrita da História deve ser fiel ao que aconteceu, e não ao que muitos gostariam que fosse, pois senão teríamos que também, no caso do Brasil, de revisar por completo as teses antropológicas racistas de um Nina Rodrigues, por exemplo, e não encará-lo como ele é hoje, um documento histórico, de uma época.
 
Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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