Seculo

 

Marketing x democracia


04/02/2018 às 18:27
Exatos sete meses separam a festança promovida pela Prefeitura de Vitória, dia 4 de junho de 2017, no dia da inauguração do mural de grafiteiros em memória ao brutal assassinato da menina  Araceli Cabrera Crespo, do ato em que o prefeito Luciano Rezende (PPS) proibiu, em 1º de fevereiro de 2018,  projeto de autoria do vereador Roberto Martins (PTB) relacionado ao mesmo assunto. 
 
No primeiro caso, a festa foi devidamente registrada de forma positiva na mídia, ganhando o tom de um ato humanitário e um alerta, necessário, visando reduzir abusos sexuais e a violência contra a criança. No entanto, o cenário, os discursos e os personagens envolvidos na ação não conseguem retirar do evento a marca indelével do marketing eleitoral. 
 
Se não for assim, como justificar o veto do prefeito ao projeto que pede abertura de plebiscito, aprovado por unanimidade na Câmara de Vereadores, para mudar o nome da avenida onde está o viaduto? Não existe alternativa: o veto está relacionado ao autor da iniciativa, por ser de outro partido político e exercer, de fato, o papel para o qual foi eleito: fiscalizar o poder executivo.
 
Em pleno distanciamento da atuação de seus colegas, o vereador Roberto Martins contesta, chama para o debate, enquanto a maioria, candidamente, se submete à vontade do prefeito. 
 
O projeto vetado por Luciano Rezende autorizava a abertura de plebiscito para que população desse seu parecer, de forma democrática, sobre a mudança de nome da avenida Dante Michelini para Araceli Cabrera Crespo, a menina estuprada, drogada e morta por um dos membros da família homenageada.  
 
Na ação marqueteira, em junho de 2017, o supersecretário Fabrício Gandini (PPS0 defendeu a realização do plebiscito, segundo registros da imprensa. Ele era um dos presentes, juntamente com o prefeito e a secretária de Desenvolvimento da Cidade, Lenise Loureiro, pré-candidata à Câmara Federal. Era uma festa do PPS, prato cheio em ano eleitoral. 
 
Mas ficou somente nisso. O vereador foi adiante.     
 
Vale lembrar que a ideia do plebiscito nasceu de discussões no Fórum Municipal Araceli, organismo criado em 2002 no âmbito da Defensoria Pública do Estado, com o objetivo de criar mecanismos visando construir barreiras contra a violência infantil. O veto do prefeito, portanto, é descabido e demonstra o uso político de uma causa que deveria estar acima das estratégias de marketing. 
 
A tragédia da menina Araceli Cabrera Crespo, que há 44 anos horrorizou não só o Espírito Santo, mas grande parte do País, merece tratamento bem acima dos horizontes rasteiros da política meramente partidária. Agir desse modo é estimular o engodo e pisotear a democracia e qualquer sentido humanitário. 

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