Seculo

 

Conto carnavalesco


07/02/2018 às 14:08
A festa de Momo me reserva surpresas, tenho uma amiga fissurada, vai em todos os blocos, eu como cronista e outsider, gosto de blocos, e sou torcedor do Império Serrano, acho as escolas tradicionais mais românticas, ganho muito com esta visão que vai do mais pobre ao mais rico num mesmo esbaldar que une todo mundo, nem que seja por uma semana.
 
Desde os mascarados de Veneza, quando tudo começou, até este desenvolvimento de mercado que vai do Rio de Janeiro, em sua versão de marchinhas e sambas-enredo, até a Bahia, Salvador, com seus trios gigantes, e isso também falando de Pernambuco, o Brasil tem o melhor carnaval do mundo, e como disse, tenho uma amiga fissurada em blocos, e disse ter conhecido o seu pirata há dois anos atrás, ele estava com sua cerveja, ela com um sacolé de vodka, eu como documentarista, me meti a besta numa dessas, e fui num bloco em que se misturava rock e samba.
 
A história eu conto: comecei meu périplo pela manhã, tinha um desfile de crianças fantasiadas, me lembrei que quando tinha seis anos me fantasiei de Popeye, tinha uma latinha de espinafre que era na verdade um punhado de cartas verdes picotadas, tinha o meu muque para dizer que eu era pequeno, mas era fortão, meu irmão pequeno tinha ido de gugu, minha irmã mais velha de Olívia, e meu pai de Brutus, minha mãe, por sua vez, foi com uma fantasia própria que era uma espécie sui generis de pedrita.
 
A família era meio louca, ainda é, e me lembro de que tenho cinco fotos deste dia no meu álbum da época em que estudava no Santo Agostinho, no Leblon, fui criado com liberdade, e registro uns curtas deste retorno dos blocos, também tirei novas fotos, e bebo socialmente depois de registrar foto e vídeo do que me interessa, um de meus curtas se intitulou “cachaça filosofal”, em que eu entrevistava os foliões que estivessem mais bêbados para registrar a relação do álcool com a loquacidade. (Já volto ao desfile das crianças e como terminou este dia).
 
Posso citar de cabeça, neste mini doc filosófico, o “cachaça filosofal”, tiradas existenciais etílicas de um humor rascante, como esse de 2015 de Plínio, um paulista que estava nos blocos nesta ocasião : Perguntei : “Qual é o sentido do carnaval para você? Fale tudo o que vier à cabeça, por favor.” No que Plínio, o folião e turista desandou a falar de diversão num tom político, no que me disse : “A beleza é que rege tudo, me vejo aqui bem louco, mas minha percepção não está perdida, como dizia Chico Science, eu bebo antes do almoço pra ficar pensando melhor, cato uma danadinha com toda a educação, não sou bruto, mas não gosto de pagar de foderão, meus amigos todos me respeitam, como dizia Jorge Ben, e sempre tô bem na foto, isso vai para o seu documentário? Ah, registra aí que sou dentista, que amo meu trabalho, e que existe profissão para tudo, e que tem gente que tem curiosidade por arcada dentária, como eu, que estudei pra cacete para poder viajar no carnaval com um bom emprego que me garante a minha tranquilidade, bebo um tanto pois hoje sou de Momo, o deus mais camarada da folia, o deus que joga ao lado de Baco, o carnaval é minha luz, e o Rio de Janeiro continua lindo”.
 
Minha amiga, foliã profissional, se rolou de rir com este primeiro depoimento que mostrei para ela, ela me disse que não sabia que tinha dentista que era poeta e filósofo, ah, o nome dela é Cláudia, mora na Lapa, vive trabalhando no circo e cuspindo fogo em eventos eletrônicos, gosta de beber vodka com limão, conheci a Cláudia quando era criança, e ela às vezes me indica uns points para gravar meus vídeos, ela é meio que minha olheira particular para me apresentar figuras exóticas também para meus causos espetaculares, o caso de Plínio, contudo, eu descobri sozinho, depois de ver que ele dançava diferente no meio da folia, e pensei “este cara vai dar uma boa sacada, certeza”, e não deu outra. A questão filosófica dele com Jorge Ben e Chico Science é o resultado do encontro da cultura brasileira com o folião de rua, que os intelectuais acham que são alienados, mas que são verdadeira matéria antropológica e documental que eu aproveito como um maníaco nas minhas produções fragmentárias e avant-garde.
 
E em 2016 a Cláudia me apresentou um figura que ela conhecia e que este sim era filósofo e já tinha tomado birita a tarde toda, seu nome era Omar, ele descendia de um pai libanês, vivia na pindaíba, e vendia bolo que ele mesmo fazia por demanda, ele gostava de fazer bolo de coco e de laranja, já tinha dado aulas particulares de filosofia, mas não se adaptou muito, pois tinha a graduação na UERJ, mas nunca exerceu de fato nada ligado a magistério ou na área, somente estas aulas particulares para três alunos que duraram um único semestre.
 
Omar já tinha seus trinta anos, e pagava seu quitinete com bolo que fazia com prazer, era um tanto caótico o lugar em que ele morava e trabalhava, como me disse Cláudia, mas o cara era uma figura típica de um documentário do Sr. Thompson, como me disse Cláudia, e fui encontrar tal figura neste 2016 de fevereiro num bloco perto da Lapa, e me apresentei, no que ele me disse que a Cláudia já tinha falado do “cineasta” para ela.
 
Entrevistei Omar rapidamente, com a mesma pergunta que fiz para Plínio : ““Qual é o sentido do carnaval para você? Fale tudo o que vier à cabeça, por favor.” No que ele desandou seu linguajar solto e muitas vezes confuso, mas riquíssimo em imagens, no que ele me disse : “Cara, gosto de tudo, liberdade, saca? Minha vitória é ter tudo sem precisar de nada, pois eu não tenho nada, mas tenho tudo, que é liberdade. Essa história de ficar rico é pra engravatado, porra, uma pá de doido não tem onde cair morto, saca, bicho? Eles acham que é tudo vagabundo, mas é tudo livre, come bolo de laranja, velho, já provou meu bolo? É bom pra tudo, e ainda acham que sou doido, eles é que tão lutando por dinheiro, doido é eles, cara, tu é cineasta, né? A Cláudia me falou de você, e tu é calmo, cara, eu sou nervoso, mato barata todo dia no meu cafofo, já fiz caça a marimbondo, entoquei uma ratoeira na porta do meu cafofo, bicho, o carnaval que você perguntou, né? Ah, só é da liberdade, muito louco, sabe? Eu fiz filosofia achando que ia virar gênio, mas tô aqui fazendo bolo, agora eu sou o gênio do bolo, e sim, amo carnaval, sou Mangueira doente!”.
 
Voltando ao desfile das crianças, este foi pela manhã, logo ao meio-dia começou o esquenta em que tamborins soaram, e o diretor do bloco já providenciou o carro que ficaria ali, com as caixas de som, as marchinhas começaram, eu empunhei minha câmera de filmar, e fui buscar mais figuras para um novo mini doc, no estilo fragmentário que não me consagrou, mas que tem espaço nos cine clubes de camaradas que eu conheço e respeito, pois nada como cineclubistas para cineastas libertários como eu que não são diretores de cinema nem nada, apenas um curioso, cronista da vida urbana, e que agora registrava tudo com uma câmera à mão e várias ideias na cabeça.
 
Eu certamente encontraria mais figuras exóticas e outras normais, loucos, trabalhadores, bebedores, foliões, vendedores, carroceiros, mulheres de diabinha, homens de pirata, um cara com um chuveiro, uma moça de mulher-maravilha, um cara de hulk, outro cara fantasiado de bambu, uma mulher fantasiada de trepadeira, um cara fantasiado de super-homem, uma mulher fantasiada de fada, e eu registrando tudo, e novas histórias sendo contadas, sem pressa, no caos potente deste nosso carnaval brasileiro.
 
Guilherme Thompson, cronista e outsider.
(pseudônimo periódico da coluna)
 
(obs : Caros leitores, a coluna retornará dia 21/02, bom carnaval a todos, aproveitem!)
 
Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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