Seculo

 

Prefeitura e PM reprimem bloco no Centro de Vitória


09/02/2018 às 13:16
Foliões do “Nós, Eva e Adão”, que se divertem há quatro anos no Carnaval do Centro de Vitória, foram duramente reprimidos, na noite dessa quinta-feira (8), na Praça Ubaldo Ramalhete. Agentes do Disque-Silêncio acompanhados de homens da Polícia Militar obrigaram os integrantes do bloco a encerrar, de maneira truculenta, a apresentação, usando inclusive spray de pimenta, que atingiu mulheres e crianças. Isso tudo antes das 21 horas. O poder público alegou que o bloco não tinha autorização e que moradores da região estavam reclamando do barulho. 
 
Um folião, que estava desde o início, antes mesmo do bloco começar, acompanhou todo o desenrolar dos fatos. Nil Noslin, narrou que, por volta das 19 horas, agentes do Disque-Silêncio, acompanhados de homens da Polícia Militar, abordaram os foliões do “Nós, Eva e Adão”, dizendo que tinham sido acionados por moradores por causa do barulho.

“Nesse momento, conversamos e dissemos que o som não estaria alto e que a programação seria encerrada cedo, antes das 23h. Houve o batuque do grupo Sol Nascente e, quando fomos tocar a primeira marchinha, a PM veio pra desligar tudo, desplugando, tirando caixa de som, querendo apreender o equipamento. Daí houve reação, e a galera começou a vaiar. Os policiais perderam o controle, começaram a lançar spray de pimenta e imprensar pessoas conta a parede. Foi uma cena horrível, mães com crianças passando mal por causa do spray, gente correndo; não gosto nem de lembrar”, disse Nil. 
 
Reunião na Praça
 
O “Nós, Eva e Adão” não é um bloco que desfila pelas ruas do Centro, apenas concentra pessoas na praça Ubaldo Ramalhete para tocar marchinhas de Carnaval. Segundo Nil, por esse motivo e também porque não existiu tempo hábil, não foi pedida autorização à Prefeitura, apenas feito um comunicado a respeito da apresentação, que foi, inclusive, divulgada pelos meios de comunicação.  'Nós, Eva e Adão' é um bloco crítico e contestador, mas não existiu nenhum motivo pra tanta truculência. Me parece até repressão aos movimentos sociais e culturais”, desabafou Nil, que completa: “Um amigo veio do interior pra curtir a folia na Capital e ficou horrorizado; outros que moram aqui pensam em sair, como ficar na cidade para curtir o Carnaval desse jeito?”.
 
Outro folião, Darcy Anderson, também relata que houve excesso de força da Polícia Militar. “Os PM’s chegaram e começaram a agir a menos de cinco metros de um pula-pula com crianças e de senhores jogando carta na praça. Agiram sem nenhum preparo. Fiquei sabendo do bloco pelos veículos de comunicação, que divulgaram como programação de Carnaval de Vitória. É assim que a cidade trata seus foliões e turistas?”, questiona Darcy.  

Representantes de Associações de Moradores do Centro reclamam que a Prefeitura reduziu o prazo para inscrição dos blocos.

Autorização

Para o advogado André Moreira, presidente estadual do Psol e que acompanha as pautas sociais, não existia motivo pra tal ação da prefeitura e da Polícia Militar, uma vez que a Constituição Federal garante o direito à reunião, que deve ser apenas comunicada para evitar que coincida com outra marcada anteriormente.

“Estamos no Carnaval e, nessa época, obviamente, a tolerância com os movimentos culturais, artísticos e populares, como os blocos de Carnaval, acaba sendo maior. Não existe essa coisa de a prefeitura autorizar ou desautorizar, a Constituição permite reuniões em locais públicos. O bloco não iria desfilar, era uma concentração numa praça que foi comunicada, nada ilegal. No mais, um policial não pode ser vaiado, que perde completamente o controle?”. Há relatos, inclusive, de que uma moça foi ameaça com arma não letal por um PM.
 
Segundo André Moreira, outros blocos que vão desfilar no Centro estão pensando até em adotar medidas judiciais para evitar novas repressões. “Como desenvolver o turismo nessa cidade, com esse tipo de pensamento? Não existe o mínimo de lógica. Não se pode ter música, não se pode brincar em pleno Carnaval?".
 
A Secretaria de Turismo de Vitória foi extinta e agora pertence à Companhia de Desenvolvimento de Vitória, a CDV. Leonardo Caetano Krohling, responsável pela pasta, não foi localizado até o fechamento dessa matéria. Em entrevista à imprensa na manhã desta sexta-feira, o secretário de segurança da Capital, Fronzio Calheira Mota, afirmou que apenas 18 blocos estão autorizados pela prefeitura para desfilar na cidade.  

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