Seculo

 

Damballa: um coletivo de cinema negro no Espírito Santo


13/02/2018 às 22:50
Não é preciso ser especialista para perceber que o cinema é uma arte predominantemente produzida, dirigida e atuada por brancos no Brasil, com pouquíssimo espaço para a produção de cineastas negros. Os dados da Agência Nacional de Cinema (Ancine) explicitam essa realidade: em 2016, 75,4% dos longa metragens nacionais foram dirigidos por homens brancos, 19,7% por mulheres brancas, e apenas 2,1% por homens negros. Naquele ano, nenhum filme foi dirigido ou roteirizado por mulheres negras. 
 
É buscando visibilizar esse problema e apontar saídas para resolver essa disparidade, que foi criado o Damballa, primeiro coletivo de cinema negro no Espírito Santo. “O motivo de criar o coletivo, primeiro, está em consonância com a emergente produção audiovisual de realizadores negros e negras que ocorre ineditamente no país. Nela, o Espírito Santo tem dado sua contribuição timidamente. Nesse sentido, a proposta do coletivo é levantar a bandeira do Cinema Negro aqui”, diz Adriano Monteiro, mestre em Comunicação Social e pesquisador de cinema negro.

Mas não basta produzir, o grupo quer ir além, extrapolar os limites criativos estéticos e temáticos, que muitas às vezes tentam enquadrar os cineastas negros, trabalhando o cinema de gênero e outras vertentes como o realismo fantástico, afrofuturismo e terror.
 
O nome Damballa se refere à uma divindade do Vodu, religião de matriz africana, considerada a loa (orixá) da criação e das energias positivas da vida. “Como o Coletivo Damballa é um grupo de criação artística voltado para o realismo fantástico no cinema, acreditamos que esse nome atende tanto a uma celebração das tradições africanas quanto uma celebração das forças mágicas que movem a Terra”, explica Adriano.
 
O grupo também apresenta um caráter político, no sentido de lutar por mais espaços para os produtores negros, incluindo o debate sobre implementação de políticas de ações afirmativas nos editais de fomento à cultura do Estado. “Hoje é possível identificar realizadores negros, principalmente jovens e de início de carreira, porém, pouquíssimos conseguiram ter acesso aos editais de fomento do Estado. Sendo sincero, eu só conheço dois cineastas negros que tiveram suas obras incentivada pela Secult [Secretaria de Estado de Cultura]”, constata. “Isso impacta também na representação negra em nossos filmes. Para um estado que tem mais de 50% da sua população afrodescendente, precisamos alterar este cenário”. 
 
Por conta disso, a primeira ação pública do coletivo será a realização de um encontro sobre ações afirmativas no audiovisual capixaba, no dia 28 de fevereiro no Museu Capixaba do Negro (Mucane), Centro de Vitória. O evento terá exibição de filmes e roda de conversa.

PROGRAMAÇÃO
 
19h: Exibição dos Filmes:
 
“Hic” – Direção: Alexander Buck.
 
“Beatitude” – Direção: Dell Freire. 
 
“Braços Vazios” – Direção: Daiana Rocha.
 
“Sombras do Tempo” – Direção: Edson Ferreira.
 
20h: Roda de conversa “Ações Afirmativas no Audiovisual Capixaba”
 
SERVIÇO
 
Encontro 'Ações Afirmativas no Audiovisual Capixaba'
Dia 28/2 (Quarta-feira)
Local: Auditório do Museu Capixaba do Negro “Verônica da Pas” (MUCANE) — Av. República, 121, Centro de Vitória.

Leia Também

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem

.

SOCIOECONÔMICAS
Alternativas

Com a mudança no tabuleiro eleitoral do Estado, os olhares se voltam para o palanque de Casagrande e pacto com Rose. Governo, Senado...quem vai?

OPINIÃO
Editorial
Maquiagem oficial
Depois de episódios de repressão, governo Hartung tira a semana para valorizar uma das piores áreas de sua gestão: segurança pública
Geraldo Hasse
Manobras perigosas
Os empresários, que surfaram na onda de Lula, estão assustados com a pororoca de Temer
JR Mignone
Banalização
O carnaval fez com que se desse uma trégua nas informações sobre política no Brasil
Roberto Junquilho
O novo com defeito
O prefeito Luciano Rezende esconde velho modelo da política com frase de efeito
BLOGS
Flânerie

Manuela Neves

A arte de pilotar motocicletas – ou com Chico na garupa
Mensagem na Garrafa

Wanda Sily

Yes, nós também!
Gustavo Bastos
Blog destinado à divulgação de poesia, conteúdos literários, artigos e conhecimentos em geral.
MAIS LIDAS

Saída de Luiz Paulo deve provocar esvaziamento do PSDB no Estado

Manobras perigosas

Operação tartaruga na educação em Linhares tem 90% de adesão

Banalização

Hospital Bezerra de Farias suspende atendimento por falta de médicos