Seculo

 

Folia da repressão


10/02/2018 às 13:29
Aquele antigo sintoma de que a Capital capixaba não investe e não faz nenhuma questão de desenvolver o turismo continua mais forte do que nunca. Neste ano, essa “desvocação” veio acompanhada, no período pré-carnavalesco, de um forte componente antidemocrático, para não dizer medieval. 
 
Nessa quinta-feira (8), o bloco “Nós, Eva e Adão” - manifestação cultural, artística e popular do Centro de Vitória - foi duramente reprimido por agentes públicos da Prefeitura de Vitória e pela Polícia Militar. O motivo: o bloco “não tinha autorização” e estava “incomodando com seu barulho” os moradores da região, que resolveram acionar o Disque-Silêncio. Isso antes mesmo das 21 horas.
 
Nesse caso específico, o Disque-Silêncio, vai saber a mando de quem - fica aí a interrogação (seriam apenas moradores incomodados?) -, parece ter agido de maneira preventiva, pois, por volta das 19 horas, já estava na praça Ubaldo Ramalhete para impedir a manifestação popular. Quando os músicos do bloco tocaram a primeira marchinha de Carnaval, os policiais começaram a desligar os equipamentos de som e apreender os instrumentos, em uma ação marcada pela truculência, como apontam os relatos.
 
Quem se sentiu violentado em sua liberdade, começou a vaiar os PMs, que radicalizaram utilizando sprays de pimenta para dispersar o público, causando pânico. Mulheres e crianças passaram mal, houve correria e turistas ficaram sem nada entender... Afinal, é assim que Prefeitura e o Estado tratam a folia na Capital? 
 
Esse não foi o primeiro caso recente de repressão a um bloco de Carnaval na Grande Vitória, muito menos o único nos últimos anos. No dia 14 de janeiro, a Polícia Militar foi protagonista de uma luta quase campal com integrantes do bloco Orla Folia 2018. Isso em plena avenida principal de Coqueiral de Itaparica, Vila Velha. Entre as versões, há a de que foliões jogaram garrafas contra os PMS, que passaram a usar balas de borracha, bombas de gás e até cavalaria pelas areias da praia.  
 
Outra, no entanto, revela que as garrafas teriam partido dos prédios, o que foi interpretado pela polícia como princípio de briga. Havia o agravante de que os foliões estavam insatisfeitos, pois uma das bandas esperadas não se apresentou no evento. As cenas gravadas por quem estava no local impressionam. Para a polícia, bastou para acabar com o bloco, liberar a via e dispersar a multidão. 
 
Salvo as devidas diferenças entre o caso do Centro, com público bem reduzido, e Vila Velha, onde havia muitas pessoas, há anos esse tipo de episódio revela uma falta de visão absurda dos gestores em tornar o Estado um local turístico e atraente. Ao invés de priorizar a cultura da não-violência, protegendo as pessoas e intermediando conflitos de interesses, atua tão e somente como mais um agente de repressão.
 
Os capixabas já vivenciaram, no ano passado, um Carnaval sem qualquer segurança e apoio logístico do poder público, que se aproveitou da greve da PM para lavar as mãos em relação aos blocos de rua, cuja perpetuação deveria ser prioridade do poder público. Afinal, são  manifestações culturais das cidades com importantes históricos de resistência e representam a ocupação dos espaços públicos de forma coletiva.
 
No Carnaval de 2017 não havia sequer banheiros químicos nas ruas do Centro de Vitória. O cenário de abandono gerou desgastes tanto para o governo como para a prefeitura da Capital, que, pelo visto, não aprenderam nada com o grave erro e omissão.
 
Como escreveu o jornalista e poeta Caê Guimarães sobre a “prévia do carnaval no Centro”: “Enquanto isso, na ilha de Derrota: o fascismo moreno usa a polícia (municipal e estadual) para empurrar pessoas, aspergir gás de pimenta em crianças e famílias e expulsá-las de uma praça pública alegando que (antes de 21h?!?!) a Lei do Silêncio foi quebrada por foliões que cometeram o crime hediondo e inafiançável da alegria”.
 
É o que devemos esperar também dos próximos dias de folia no Espírito Santo? Ou basta?

Leia Também

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem

.

OPINIÃO
Editorial
Maquiagem oficial
Depois de episódios de repressão, governo Hartung tira a semana para valorizar uma das piores áreas de sua gestão: segurança pública
JR Mignone
Rádio Carnaval
'Taí' um dos poucos eventos em que o rádio perde feio para a televisão
Geraldo Hasse
Retalho colorido
Incrível depoimento do capixaba Roberto Menescal a Rolandro Boldrin no programa Sr. Brasil
Roberto Junquilho
O dia seguinte
O governador Paulo Hartung terá que se voltar mais intensamente à sua sucessão, depois de desfeito o sonho de ser vice de Luciano Huck
BLOGS
Flânerie

Manuela Neves

A arte de pilotar motocicletas – ou com Chico na garupa
Mensagem na Garrafa

Wanda Sily

Estranho mundo velho
Gustavo Bastos
Blog destinado à divulgação de poesia, conteúdos literários, artigos e conhecimentos em geral.
MAIS LIDAS

Majeski busca sensibilizar presidente do TJES sobre fechamento de escolas

Desmonte da Assistência Técnica e Extensão Rural atinge agricultura familiar do Estado

Repasses da prefeitura à Lieges já foram alvos de investigações no MPES e Polícia Civil

Imetame será tema de audiência pública em Aracruz

Mergulho profissional sem condições de segurança condena empresas no Estado