Seculo

 

O boi carnavalesco


14/02/2018 às 13:04
Fotos: Rogério Medeiros
 
O Boi Pintadinho de Muqui, distante 171 quilômetros de Vitória,  está para o carnaval capixaba, principalmente para os carnavalescos do sul do Estado, como o frevo está para o carnaval de Recife, guardando, naturalmente, as devidas diferenças populacionais. 
Ele existe desde os anos 40 e a razão disso vem da época em que Muqui era um município onde moravam os tocadores de boi, isto é, os que conduziam as boiadas pelas estradas. Motivados pelo remorso da forma como conduziam estas boiadas, na base do chicote e do ferrão, resolveram tirar uma data para homenagear o boi. A princípio foi em junho e, depois, passou a ser no carnaval.
Os tocadores do boi, como ofício, já não existem mais em Muqui, que  também não é mais o centro da pecuária. A forma de transportar as boiadas mudou, assim como a geração dos condutores do boi carnavalesco. Já não têm mais este ofício, são agora os detentores de uma tradição, cujos festejos nunca têm menos de 10 mil pessoas nos quatro dias de carnaval, o que representa muito para um município cuja população gira em torno de 15 mil pessoas. 
Carnaval a carnaval, há sempre novidades nos desfiles do boi pela rua principal do sitio histórico de Muqui. O destaque deste ano foi o boi cujos componentes eram crianças. A musicalidade impressionava pela afinação e o garoto que atuava como vaqueiro tinha uma performance extraordinária para a sua pouca idade. 
Ficou mais claro do que nunca que a classe média local assumiu o Boi Pintadinho, bastava ver o bloco da Vaca Mocha, de cor rosa-choque, com mulheres e a grande maioria de classe média. Este grupo percorreu o Corredor da Boiada tocando a tradicional marchinha de carnaval e, de quando em vez, trocava por funk.  
Mulheres não tinham o ofício de tocador de boi e o bloco composto por mulheres foi um novidade introduzida há alguns anos. Ao ter uma boa aceitação do público, tornou-se também uma tradição.  Mulher vaqueira não está apenas no bloco específico, conduzindo a vaca. Chamou atenção também uma vaqueira conduzindo um bloco de boi. 
Os bois que puxam os cordões são ornamentados e todos recebem um nome ou imagem que vai pintado nas costas, como Hulk, Dinossauro e Vaca Mocha. Também os componentes encontram-se finamente ornamentados, formando um belo conjunto visual que se relaciona intimamente com o público, ora botando para correr com medo de uma evolução mais perigosa do boi, ora bailando em conjunto de forma serena e harmoniosa.  
Nesses movimentos, interessantes são as crianças que em determinados momentos correm apavoradas e em outros se aproximam, tentando instigar o boi, compondo bem o conjunto. Faço destaque no carnaval de Muqui à participação das famílias. São dos idosos às crianças. Todos brincando juntos. 
Um aspecto negativo do carnaval de Muqui e que precisa ser solucionado para os próximos, é a paralisação dos desfiles para a passagem de veículos (ônibus, ambulâncias, carro de polícia e até carro comum). Além de interromper a apresentação, é um perigo, dado o grande número de brincantes na rua. 
Famílias, blocos de criança e de mulheres e o grande público renovam as esperanças de que esta manifestação folclórica terá vida longa no Espírito Santo.

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