Seculo

 

Capítulo Vitória


25/02/2018 às 22:40
A luta das comunidades do interior do Espírito Santo pelo direito à educação, consagrado pela Constituição Federal e diversas leis complementares, se desenrola como uma novela. Ora com capítulos dramáticos, ora com outros mais felizes, que consagram vitórias para os mocinhos da trama. Nesse último caso, podemos citar o caso de Santa Maria de Jetibá, cidade da região serrana do Estado. Depois de muita luta e protestos, a comunidade, formada por descendentes de pomeranos que se dedicam à agricultura, conseguiu que as matrículas fossem reabertas para o ensino médio noturno em quatro escolas.
 
A partir do próximo dia dois de março, por determinação da Justiça, vagas voltarão a ser ofertadas nas unidades “Graça Aranha”, São Luís, Frederico Boldt, Alto Rio Possmoser e Francisco Guilherme. O autor da denúncia à Promotoria do Ministério Publico Estadual em Santa Maria de Jetibá, que resultou em ação civil pública e na decisão da Justiça, foi o professor Swami Cordeiro Bérgamo. 
 
Mas o docente não é um protagonista e herói solitário. Ao seu redor, coadjuvantes de um núcleo que uniu sindicatos, empresas, cooperativas, conselhos, associações e igrejas. Todos articularam um movimento que fortaleceu o vínculo da comunidade em prol de educação pública e que respeite as particularidades de quem vive no campo. Sim, todos foram atores atuantes de uma vitória coletiva! 
 
O vilão da narrativa de fechamento de escolas no interior, nada fácil de ser enfrentado, é nada menos que o próprio Estado, nas figuras do governador Paulo Hartung e do secretário de Educação, Haroldo Rocha. Com o projeto vitrine-eleitoral Escola Viva atropelam a educação do campo, decidindo, arbitrariamente, fechar o ensino médio noturno em comunidades rurais. Outros municípios afetados por essa política arbitrária e autoritária são Afonso Claudio, Muniz Freire, Mimoso do  Sul e Alegre. Os números falam por si: 42 escolas estaduais foram fechadas entre 2015 e 2018, período do terceiro mandato de Hartung, que está em seu último ano.
 
Como naquele capítulo que faz o expectador não desgrudar os olhos da tela e alternar estados emotivos, assim foi a audiência pública “O fechamento de escolas e a ameaça ao futuro da juventude capixaba”. Realizada no Plenário da Assembleia Legislativa, no último dia 21, tornou-se um espaço repleto de indignação de alunos, suas famílias, líderes políticos e professores, que lotaram o principal espaço da Casa. Foi uma catarse do povo do interior, que se vê desamparado por seus representantes. Dos 29 parlamentares só o deputado Sergio Majeski (PSDB), educador e proponente da audiência, estava lá. Tribunal de Justiça (TJES), Ministério Público Estadual (MPES), Secretaria de Estado da Educação (Sedu), apesar de convidados, não enviaram sequer representantes.
 
Não é possível saber se o final da narrativa se aproxima, mas outros capítulos arrancam lágrimas da audiência. Numa carta enviada a Século Diário, Hilde Helene Christiansen ─ mãe de filhas especiais que ficaram sem escola em córrego Francisco Corrêa, comunidade de Mata Fria, Afonso Cláudio ─, expressou seu sentimento ao jornalista Ubervalter Coimbra, que tem narrado, recentemente, a lutado interior por educação pública. Em trechos da carta, Hilde, que foi professora e é lavradora, escreve:
 
“Minhas esperanças de que nossos jovens e adolescentes possam reconstruir seus sonhos foram fortalecidas. É difícil expressar em palavras o sentimento de alegria que invadiu meu coração. Amo muito as pessoas de minha comunidade e desejo que sejam felizes. Você não imagina a tristeza que sinto ao ver, principalmente os jovens, muitos deles menores de 18 anos, completamente dependentes do álcool e outras drogas; com o olhar vazio, sem esperança. Muitos deles até desistindo de viver... Pela minha perspectiva, penso que a principal causa é a falta de sonhos, de projetos de vida. Se não conseguimos mais sonhar é porque não há mais esperança e, sem esperança, a vida perde o sentido... Creio firmemente de que a educação pode construir sonhos e prover bases sólidas para que estes sonhos possam se realizar. Apesar de ter me falado que não deveria te agradecer, o sentimento de gratidão pelo que fez por nossa comunidade, ao divulgar os fatos, teve uma grande importância”, escreveu Hilde.
 
Que o desenrolar dos novos capítulos dessa narrativa contemporânea capixaba seja, de fato, como nos folhetins da ficção: com mais finais felizes.

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