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Em Regência, coletivo usa cerâmicas para denunciar crime da Samarco/Vale-BHP


28/02/2018 às 12:10

“Regenerar” tem sido uma palavra de ordem para alguns dos afetados pelo crime da Samarco/Vale/BHP no Rio Doce. A destruição física, ambiental, econômica, social e psicológica jamais poderá ser revertida por indenizações e programas criados pelos próprios criminosos. Mas é preciso seguir adiante.

Em Regência,  Linhares, na foz do rio, uma pequena iniciativa traz um grande simbolismo. O coletivo Ceramística busca ao mesmo tempo denunciar o crime, fortalecer laços comunitários, gerar renda e reconectar com a ancestralidade. A base é a produção de cerâmicas, utilizando os recursos locais. Por vezes, até a própria lama da tragédia é usada como material para pintura de denúncias em objetos com função decorativa.

“Dentro do processo de produção buscamos nos juntar, falar da lama e trazer nas cerâmicas frases ou desenhos que atentem sobre o cuidado da água e da natureza, trazer o discurso da regeneração, disseminar essa semente num processo educativo, lúdico, de comunicação”, conta Flávia Freitas Ramos, integrante do Ceramística.

Algumas peças são feitas individualmente e outros por meio de produção coletiva. São objetos decorativos, utensílios domésticos, acessórios e artesanatos, com inspiração no entorno natural e social da vila afetada pelo maior crime socioambiental do País.

O projeto começou com Hauley Valim, morador da vila e ativista da Aliança Rio Doce, que possui experiência de trabalho com cerâmica. A partir da mobilização de moradores foram feitos encontros, oficinas e trabalho coletivo em Regência e também uma conexão com o Coletivo Cerâmica Caparaó.

“Acreditamos que o ancestral vai ajudar a guiar o caminho para regenerar. Esse crime da lama tem tudo a ver com uma desconexão com nossas raízes mais ancestrais, do contato com a natureza. A cerâmica é ancestral porque traz a necessidade de utilizar terra, água, fogo e ar, que vão interagir para formar os objetos”, explica Flávia.

Nessa busca por ancestralidade, o Ceramística também tem feito diálogos e trocas com moradores da localidade próxima chamada Areal, que reivindica o reconhecimento como comunidade indígena. A ideia a médio e longo prazo é promover oficinas e vivências em que o coletivo possa apresentar um pouco das técnicas utilizadas e a comunidade inserir seus conhecimentos e elementos culturais na produção de suas próprias obras.

A cerâmica também se coloca como uma alternativa ecológica e econômica. Pode substituir outros materiais com impacto ambiental imensamente maior como plástico, vidro e metais, derivados de processos produtivos de grandes empresas como Samarco, Vale e BHP Billiton, que provocaram a tragédia em Regência e outras comunidades que convivem com o rio. Ao invés disso, uma solução natural, artesanal e local, que contribui com a economia da vila.

“Todos foram impactados pelos resíduos de mineração. Precisamos de uma descontaminação. Nesse caso, o trabalho com cerâmica pode ser um protótipo de uma projeto que serve não só como ferramenta política, mas também para ajudar a regenerar a renda que perdemos, utilizando a economia criativa como possibilidade de modificar nossa fragilidade econômica”, considera Hauley.

O Ceramística é um dos grupos que participa da construção da Feira da Vila, iniciativa surgida neste verão, que consiste na organização de uma feira semanal de produtos e serviços em Regência. Nela, além da venda, também se estimulam trocas não-monetárias, que não envolvem dinheiro mas fortalecem o mercado local. Nesse sentido, as cerâmicas já foram trocadas por roupas, utensílios e até cerveja artesanal.

Mesmo focado no local, o projeto já até cruzou o Atlântico, pois obras do Ceramística também fazem parte do Jogo do Rio Doce, uma ferramenta lúdica da Aliança Rio Doce para denunciar e informar sobre o rio, sua tragédia e alternativas. O jogo foi recentemente apresentado por Hauley em um encontro de ativismo em Londres, na Inglaterra.
 

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