Seculo

 

Ferida aberta


28/02/2018 às 17:22
O Brasil parece não ter superado um problema que ainda se revela como uma ferida aberta em sua história: a escravidão. 
Vamos aos fatos, são duros, porém necessários. 
Nossa nação foi a última do continente americano a abolir, oficialmente, a escravidão; depois de mais de três séculos e meio de utilização forçada da mão de obra africana. Após tal “liberdade”, em 1888, não houve qualquer reparação aos ex-escravos e seus descendentes, que ou continuaram trabalhando de graça para seus senhores ou tiveram que “se virar” em função da própria subsistência. 
Na prática, mazelas da escravidão são perpetuadas tanto por falta de políticas de reparação como também em atitudes cotidianas que revelam o racismo abertamente, velado ou institucional. Dois casos vieram à tona recentemente. 
No Carnaval de Vitória deste ano, uma postagem em rede social "viralizou" na internet. Nela, o estudante Lucas Almeida publicou uma selfie em que está em primeiro plano, com jovens negros ao fundo, com a seguinte frase: 'vou roubei seu celular'. Um deles, Iarley Duarte, de 23 anos, denunciou o caso, que está sendo investigado pela Delegacia de Crimes Virtuais da Polícia Civil.
No dia 4 de julho de 2017, o atual diretor-adjunto da Penitenciaria Semiaberta de Cariacica (PSC), servidor público da Secretaria de Estado da Justiça, Leonardo Loyola Perini, comparou um subordinado, inspetor penitenciário negro, à figura de um macaco que ilustrava o cartaz do filme Planeta dos macacos - A Guerra. O comentário foi feito num grupo de WhatsApp de funcionários do presídio, do qual a vítima não fazia parte. 
O último caso se torna emblemático quando o perfil da massa carcerária capixaba é analisado. Os dados indicam que os detentos são, em sua maioria negros, um percentual que chega a 78%. Diante disso, como o diretor de unidade prisional que administra um complexo com tais características continua no sistema, mesmo depois de ser denunciado por racismo? É uma pergunta que fica sem resposta...
E os casos de racismo não atingem somente os pobres mortais. Há também famosos que sofrem na pele o estigma da descendência africana. Entre eles, a judoca brasileira Rafaela Silva. Recentemente, em seu perfil no Twitter, Rafaela relatou que, ao voltar de táxi do Aeroporto Internacional Tom Jobim para sua casa, foi abordada na Avenida Brasil. Durante o procedimento, o taxista alertou que Rafaela tratava-se de uma atleta. O agente de segurança, por sua vez, respondeu que tinha achado que o taxista a tinha pegado na favela.
E não se trata de “vitimismo”, como dizem alguns. De acordo com dados do Mapa da Violência 2016, o número de negros assassinados no Brasil cresceu 18% em 10 anos, enquanto, no mesmo período, o índice entre pessoas não negras apresentou queda de 12%. A taxa de homicídios por 100.000 habitantes de negros é quase três vezes maior que a de brancos. Tanto que, neste mês, militantes divulgaram um vídeo manual de sobrevivência para negros ao longo da intervenção militar no Rio de Janeiro. 
Mais um agravante: as legislações específicas para coibir os crimes de racismo e injúria racial não são levadas a sério. Quase nunca se ouve falar de enquadrados, presos ou penalizados com multa pelas ofensas raciais. 
Desde 12 de maio de 1888, quase 130 anos depois, pouca coisa mudou em relação à igualdade racial - e respeito.
Até quando?

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