Seculo

 

Enfant Terrible


02/03/2018 às 14:55
A juventude sempre tem algo de subversivo. Desde os anos 1950, com "juventude transviada" e os beats, a evolução dos poetas malditos do século XIX na figura mítica de Arthur Rimbaud.
 
O jovem "enfant terrible" veste uma aura, lhe vestem também, e muitas vezes faz coisas sem pensar, e nem liga, com o populacho sobrevalorizando e num ataque ao delírio dos ideólogos o pintam até como Lúcifer. Seu nome romantizado, e sua deliberada ação de vestir tal aura (e sendo a própria aura), e os efeitos do sucesso de sua jornada, e sua sorte e seu azar de ser o que é, e se sobreviver, virar, talvez, um estoico com pulso firme, o duplo oculto no jovem irresponsável, talvez, decerto.
 
"Enfant Terrible", termo ligado à arte, e que também quer dizer marca, escritura biográfica, a vida curta dos que morrem de overdose, heróis da contracultura, os que passam como viçosos cometas, os desviados, os loucos, os que vão na vida rápida, os que encaram a autobiografia até os 27 anos como um "tour de force".
 
Sorte dos que estão vivos aos 30 anos. Quem passa dos 15 aos 20, e depois dos 21 aos 29 anos, e sobrevive, mesmo que ainda não haja nada garantido daqui para frente, mesmo a morte ou a vida, poderá, mesmo ainda, ter a sorte de testar sua nova persona (ou não-persona) estoica, ex-louco, ex-mártir, que olha um reflexo difuso do ímpeto porra-louca, olha com ternura seu duplo antigo, superado.
 
“Enfant terrible" que agora é um ser que se rarefaz num espelho já sem uso, miragem, nostalgia, você não viveu em 1967, conforme-se, e já não há saudade, é a libertação do fardo de ser marginal e herói, agora este duplo dança, mas bem longe, é uma casca, lago do passado remoto, mas uma memória cara, cheia de afeto, como uma carta náutica solta no mar, memória terna de tempos vividos, sumo biográfico e que o poeta diz: "confesso que sobrevivi! (até aqui)".
 
"Enfant Terrible" é contemporaneamente conhecido como o "vida loka", este jovem de todas as classes, ídolo e ícone, que sempre teve bom trânsito, sempre teve, também, gente enfadonha, verdadeiras malas no seu caminho, este transitar faz parte da festa, flâneur esportivo, sem nunca ter sido vaselina. "Enfant Terrible" é marca biográfica, o que escreve a mensagem do impossível, o oiticiano "seja marginal, seja herói".
 
É reflexo da vida já contada, em ritmo e poesia, contra as almas sebosas, filho do crime, mais honesto que o cartaz da hipocrisia, que não se humilha ou baixa a cabeça, que não mistura mais as coisas, não compra e vende a festa idiota dos que usam seu nome, súcia vestida de "cordeiro do amor", mas você sabe o que ele quer ... súcia bárbara, suicida, homicida, que mente e omite, que engana e que se auto-engana.
 
O estoicismo dos meus mais de 30 anos, o método do verdadeiro descer o malho quando necessário, é a cristalização positiva, fruto do próprio trabalho, nunca de outros, de regras antigas, aprendidas na senda torta da rua, malhado em ferro quente, os anos de infante terrível que passou, ainda bem que passou, mas o código não muda, mudam as ações, até a velocidade, mas a mente é a mesma, todo reto é imutável, o que muda é a dimensão da ação, a precisão das palavras e da crítica, aonde muitos chorariam e esperneariam, a moral da "vida loka" ganha pausa refinada, sabedoria.
 
Por mais absurdo que pareça, é o cimento do Homem e deve ser tratado como tal, estoicismo reto é poder, "Enfant Terrible" produz um código para toda a vida, fruto da intuição, na mutante estrada do inesperado. Eis que a inocência está morta, mas o sangue, já batido e fervido, corre quente em artéria e veia, dando facadas em qualquer sanha ou astúcia, com a visão clara, e com o mesmo dom visionário da anunciação daquele pequeno príncipe do mundo cão.
 
“Enfant terrible", meu duplo cãozinho raivoso, tá mudado, transmudado, com a sorte da sobrevida, ainda, e que do código de matar ou morrer, agora é pacato cidadão, estoico na fita da discrição, não gosto de gente espalhafatosa, me erra, agora a antena está ligada, mais do que nunca, os sentidos em dia, já fez check-up da cabeça, tá feita, agora tudo é como deve ser, e quem ainda não entendeu, vai sofrer, e não é problema meu.
 
Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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