Seculo

 

'Paranoia' reveladora


06/03/2018 às 18:01
A reação do comando da Polícia Militar à proximidade do "aniversário" da paralisação da tropa, ocorrida no ano passado, mostrou o despreparo do governo Paulo Hartung para lidar com as reivindicações da corporação.
 
Em janeiro deste ano, a Associação de Cabos e Soldados (ACS) realizou uma campanha pela internet e outdoors denunciando as condições de trabalho na PM, um direito que tem como entidade civil. Por coincidência, foi convocada uma assembleia para o dia 3 de fevereiro, justamente um ano depois do movimento de paralisação. O fato despertou “a paranoia” do governo. 
 
Para realização da assembleia de associados, tudo foi feito de forma transparente, com publicação de editais em jornais de grande circulação e na internet. Até convite foi enviado ao comandante da PM, Nylton Rodrigues, para que prestigiasse o evento. De fato, a associação não poupou críticas ao comando da Polícia Militar e ao governo, mas foi democrática em sua convocação.
 
Dentre essas críticas, uma parece ter incomodado profundamente: discordar do comandante no discurso de que o tráfico de drogas não mandaria em "nenhum bairro do Estado". A  associação rebateu: "o comando da PM insiste em viver em um mundo perfeito, agindo como fantoche do governo".
 
Foi o suficiente para despertar a paranoia no setor de inteligência da PM. Agindo de uma maneira nem tão inteligente assim, a reação foi solicitar ao comando que acionasse o Ministério Público para que este por sua vez, solicitasse providências à associação.
 
A "inteligência" queria que o Ministério Público exigisse que a Associação de Cabos e Soldados informasse de antemão o que seria debatido na assembleia e quem conduziria os trabalhos. Não satisfeita, também que a reunião fosse gravada e feita uma ata e lista de presença. Pasme!
 
O Ministério Público atendeu ao pedido do Estado, mas com um problema: depois de a assembleia já ter sido realizada. A Promotoria exigiu os documentos (ata e lista de presença), mas foi informada de que são públicos e estão registrados em cartório. Já quanto à gravação, seria um pedido impossível de ser atendido, uma vez que a assembleia não foi registrada em vídeo nem áudio. E, mesmo se tivesse, seria irrelevante, pois verificou-se que não se tratava de movimento grevista.
 
A impressão que se tem é que o governo Paulo Hartung até hoje vem buscando bodes expiatórios para a greve dos PMs que manchou a imagem de seu governo. Tentou, e tenta, criminalizar as associações de militares, persegue seus dirigentes com inquéritos absurdos e, até mesmo, sua jornalista, como ficou constatado em episódio recente.
 
Toda essa "paranoia" e a vontade de usar o Ministério Público como longa mão do governo, revela muita coisa: o governo Paulo Hartung foi o principal culpado pela paralisação da PM, por não dar condições de trabalho adequadas aos profissionais, e necessita evitar novos arranhões à sua imagem às vésperas da eleição.
 
Neste pleito, por sinal, não faltarão recordações das intimidações cometidas durante a paralisação da PM, como tropas federais ocupando as ruas, e depois dela, com aberturas de inquéritos a militares, sob argumento de indisciplina, e censura. O que contina atestando, mais de um ano depois, a incompetência do governo em solucionar a questão. 
 
Já está mais que demonstrado que a greve da PM não foi um movimento das associações, mas uma reação espontânea aos maus tratos que a tropa recebe. Na medida em que persiste com a mesma política culpada pela deflagração do movimento, caberia à inteligência da PM enxergar que o risco de nova paralisação decorre de atitudes arbitrárias do próprio comando e do autoritarismo do seu governador.
 
Seria inteligente, nesse caso, mudar de enfoque. 

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