Seculo

 

Quem não deve não teme


08/03/2018 às 18:32
A gestão do Hospital Infantil de Vila Velha (Heimaba) se tornou, praticamente, uma caixa-preta. Desde que o Instituto de Gestão e Humanização (IGH), Organização Social baiana que assumiu a administração da unidade em outubro do ano passado, obter informações, por exemplo, sobre o número de óbitos registrados na unidade, tornou-se missão impossível.  Mesmo que tais dados, de interesse público, devessem estar disponibilizados até em portais de transparência do Estado.   
 
Logo apos a transição de gestão pública para privada, denúncias de pais, acompanhantes, profissionais de saúde e até mesmo de fornecedores do Heimaba começaram a pipocar. Os relatos dão conta de que as mortes, com a entrada do IGH, aumentaram cerca de três vezes, comparadas ao tempo em que o hospital era gerido pelo Estado. Incluindo aí óbitos de prematuros internados na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (Utin). Na virada do ano e nas primeiras semanas de janeiro de 2018, informações circularam de que nove recém-nascidos haviam morrido. 
 
Entre os motivos para isso somam-se vários fatores, que o Sindicato dos Trabalhadores da Saúde no Estado (Sindsaúde-ES) elenca. O IGH, que atua na lógica do lucro, apesar de se dizer uma organização sem fins lucrativos, contrata trabalhadores com salários abaixo da média de mercado.  Técnicos em enfermagem, por exemplo, recebem pelo regime de escala 12 x 36 horas, o salário de R$ 1.155,00. Por esse valor, habilitam-se recém-formados, leia-se, sem experiência. Na Utin, apesar de haver proibição para tal, profissionais sem qualquer prática foram escalados pela OS para lidar com um atendimento superespecializado. 
 
No Heimaba, outros problemas. Consequência da lógica de baixos salários, a rotatividade dos profissionais é alta. Além disso, os servidores de carreira, concursados e com vasta bagagem em saúde pública, estão deixando o hospital. Relatos dão conta que não se sujeitam ao assédio moral imposto pela IGH, além de não concordarem com a queda da qualidade do serviço. O resultado: pedem transferência e até mesmo demissão. Assim tem ocorrido até com médicos. 
 
Diante das denúncias do aumento de mortes, órgãos fiscalizadores, como o Conselho Gestor do Heimaba, Sindsaúde-ES e até a Comissão de Direitos Humanos do Conselho Estadual de saúde fizeram o óbvio: solicitaram à Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) acesso a tais dados a fim de tomar as providências cabíveis, incluindo a interdição na gestão do hospital, caso necessária. Mas, apesar de vários pedidos terem sido formalizados à Sesa, a resposta tem sido o silêncio absoluto. E não foram poucas tentativas, que estão sendo feitas desde janeiro deste ano. 
 
A solução encontrada pelo Sindsaúde-ES mostra-se mais contundente. A entidade pretende acionar a Justiça por meio da Lei de Acesso à Informação, para obter os números de óbitos que foram registrados no Heimaba, de outubro de 2018 até o momento. 
 
Quem sabe, assim, a Secretaria de Estado da Saúde não atenda o pedido?
 
Com tantos problemas e denúncias de irregularidades associadas à gestão das OSs nos hospitais do Estado (a mais recente é de calote da IGH em fornecedores, além de atrasos de salários), é necessário ressaltar a fala do diretor do Sindsaúde, Valdecir Nascimento: “A gente se pergunta por que o governo do Estado não faz a gestão de seus próprios hospitais. A gente se pergunta por que é necessário colocar empresas privada para fazer isso? A gente se pergunta será que é porque eles querem algo de volta? Será que existem interesses eleitorais? São perguntas que ficam sem resposta...”. 
 
Se esse é, como o governo tanto afirma, o melhor modelo para a saúde pública capixaba, vale a máxima: quem não deve não teme! 

Leia Também

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem

.

'Tem boi na linha'

Metendo-se no meio da disputa caseira entre Hartung e Casagrande, Rose de Freitas tem realmente alguma chance?

OPINIÃO
Editorial
As novas roupagens da censura
Os resquícios da ditadura militar ainda assombram a liberdade de expressão no País, estendendo seus tentáculos para o trabalho da imprensa
Eliza Bartolozzi Ferreira
Cada qual no seu lugar
As escolas fazem ciência; as igrejas doutrinação. Projeto Escola Sem Partido é, no mínimo, uma contradição de base do vereador de Vitória, Davi Esmael (PSB)
Erfen Santos
Sugestão Netflix – um filme necessário
Indicado ao Oscar, Strong Island supera a maioria dos documentários, por mesclar a experiência familiar com a crítica social
JR Mignone
A batalha
Não sei se posso dizer, mas ainda hoje me sinto um pouco frustrado com a nossa profissão. Sério!
Roberto Junquilho
Renovar o quê?
Os ''novos'' na política mantêm velhos conceitos e se agarram em grandes corporações empresariais
Bruno Toledo
Estado sem PIEDADE!
As tragédias que se sucedem no Morro da Piedade sintetizam as contradições mais evidentes e brutais do modelo de sociedade e de Estado que estamos mergulhados
BLOGS
Mensagem na Garrafa

Wanda Sily

Entre a salada e o vinho
MAIS LIDAS

Produtor rural teme uma tragédia na região da Barragem do Rio Jucu

Sicoob em Cariacica é processado por falta de acessibilidade

As novas roupagens da censura

Ufes sedia seminário do Dia Internacional contra a Tortura