Seculo

 

Conversa com um telepata, dentro de um hospício


10/03/2018 às 17:55
Certo dia, isso já tem uns bons dez anos, resolvi passar uns três dias dentro de um hospício para fazer uma reportagem. Ela rendeu boas histórias, algumas delas até viraram contos pequenos, mas uma em particular me chamou atenção e me remeteu às viagens de William Burroughs atrás de seu Yage, erva que continha a chamada substância da telepatia, a telepatina. Dentro do hospício, descobri, no meu segundo dia lá dentro, que havia um homem de uns 40 anos no quarto 12 que, segundo outros internos, era um mago. Depois, consultando o seu psiquiatra, descobri que era um sugestionado místico, que o paciente se julgava em transe espiritual e que tinha a faculdade de telepatia.
 
Pedi autorização ao psiquiatra para conversar com seu paciente que, por recomendação médica, passava a maior parte do dia sedado, numa cama, dentro do quarto 12. Fui até lá de tarde, que é quando o paciente em questão era liberado para o almoço, e que, após a refeição, podia passar umas horas da tarde interagindo com os outros pacientes daquele hospício.
 
Fui até ele, vi que tinha um olhar do que, no espiritismo, que bem conheço, se tratava de um obsediado já em estágio avançado de fascinação. Fiquei uns bons dez minutos só olhando para ele, antes de abordá-lo, reparando na sua linguagem corporal e no seu diálogo com os outros internos: "Vejam só, eu tomei quinhentos ácidos em um ano, mas o porre mesmo foi o Yage, depois do peiote não deu nada, depois da ayahuasca não deu nada, mas a telepatina me deu o poder, posso ler todos os seus pensamentos, eu sou o dono desse lugar aqui, posso me comunicar com vocês através da telepatia, tomei telepatina e meu terceiro olho abriu, man!".
 
Ao que outro interno respondeu: "Você é o mago, é? Me mostra sua chama vermelha, me mostra sua chama vermelha!". Outro, ao lado, começou a rir e falou: "O mago tá louco, depois somos nós que somos doidos!". Ao passo que o mago respondeu: "Posso ver o teu pensamento, tem um monstro dentro da tua cabeça, meu caro discípulo, invoco mamón e moloque, tenho a espada da justiça em minhas mãos, meu poder astral é magnânimo, vou me concentrar a criar o teu fogo interior, só um minuto e teu monstro vai sumir daí!". O outro paciente retruca: "Você é o mago, mas não me comanda, daqui a pouco vão te pegar e dar um sossega, você é besta, muito besta, até um metido à besta!".
 
Olhava aquele diálogo surreal e incrível, e então, finalmente, me aproximei do mago para conversar com ele: "Fala mago! Como você está? Ouvi dizer que tu tem o dom da telepatia? Poderia me mostrar como isso se faz? Também posso me tornar um telepata?" "Ainda bem que você crê! Tenho esse poder da telepatia sim, você quer ver?" "Claro, sou médium e só me falta o dom da telepatia para que tudo funcione para mim."
 
"Então vai lá, se concentra, vê o que estou vendo? Embuti uma flor de lótus dentro da sua cabeça, posso ver os seus pensamentos, agora vou lhe enviar um tipo de pensamento, e você me diz se recebeu." "Opa, peraí, um minuto, mais um minuto ... ahá! Agora eu vi, você pensou numa serpente lutando com um porco, não foi?" "Eh ... sim! Sim! Você entendeu tudo! Tá vendo como sou um telepata! Eu sou um telepata! Eu sou um telepata!" "Sim, você é um telepata!" "Eu sou o dono deste lugar, ouço todos os pensamentos de todos que estão aqui dentro! Eu sou um telepata! Tá vendo aquele gordão babando ali no meio do pátio? Ele tem o dom da cura nas mãos, ele é meu servo, sou o mago e sei o que ele está pensando agora, ele só pensa em coisas com bacon, seu corpo clama por bacon toda hora, olho e vejo um porco no lugar de sua alma." "Cara, isso é demais, vamos lá falar com seu servo, que tal?" "Claro, eu sou um telepata! Vamos lá que vou ouvir o pensamento dele e falar o que vi dele para você."
 
Bom, àquela altura já sabia que a fascinação espiritual do autointitulado mago e telepata era um perigo para ele mesmo, sabia que seria muito difícil que ele saísse daquela trama psíquica, e que o máximo que podia fazer, como repórter que sou, e não como psiquiatra, era embarcar na onda pra ver até onde ela ia, e foi o que eu fiz, fingi ser um crédulo, "mais um discípulo". O mago também, a meu ver, tinha um problema sério de ego, sua crença em si mesmo parecia um tanque, ele era o dono de tudo, ao menos naquele lugar, mas, concretamente, não passava de um dos pacientes de um hospício, e pior, vivia a maior parte do tempo recluso, não se sabe e nunca se saberá o que passa exatamente por sua mente quando está sedado e recluso no quarto 12, nem o que sonha quando está dormindo, e nem o que tanta medicação provoca e o que tanta droga alucinógena provocou até ele chegar a este ponto que, agora, eu estava vendo.
 
Fomos até o seu discípulo, o gordo babão, para mais uma exibição dos dons do mago telepata. "Eu sou um telepata! Todos aqui são meus discípulos, eu sou o dono deste lugar, ouço todos os pensamentos daqui, vamos aqui, eu sou o mago e vou ler seus pensamentos." Se dirige ao gordo babão, "Eu sou um telepata! Agora vou me concentrar e olhar dentro de seu pensamento. Você está pensando em bacon, sempre pensa em bacon, não é verdade?" "Eeeeu tô pen pen san dôôôô ah ah ah ah! Bacoum bacoum magôôô eue tô pensano ou ou ou ou .... blah!" "Tá vendo, ele só pensa em bacon, toda hora ele só pensa em bacon, eu vi seu pensamento, ele tem a alma de um porco, um espírito está a seu lado, sua vida virou uma obsessão por bacon, ele nem fala direito mais, é meu servo, me serve taças de ouro maciço com vinho à meia-noite em um de meus banquetes reais. Faço magia negra dentro do meu palácio. Eu sou um telepata! Eu sou um telepata!".
 
Bom, depois daquela cena horrível de humilhação contra o gordo babão, pelo mago ególatra, deu quatro horas da tarde, e então dois enfermeiros recolheram o mago para tomar injeção, e o telepata em questão voltaria, pelo resto daquele dia, às trevas de sua reclusão no quarto 12. Da minha parte, produzi uma reportagem, algumas partes eu poupei para não chocar, e aqui está meu relato da principal história que vi dentro do hospício, foram três dias de uma experiência bem curiosa, como se fosse uma antropologia da loucura, muito mais do que o intuito da reportagem em si, ou de possíveis e forçadas psicologizações que não dão conta do fenômeno humano. E foi isso que eu vi lá, a natureza humana, talvez até mais amplificada por uma dor entre anestesias inexplicáveis.
 
Guilherme Thompson, cronista e outsider.
(pseudônimo periódico da coluna)
 
Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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