Seculo

 

Mais que a intolerância


20/03/2018 às 10:44
Poucas horas depois do assassinato da vereadora Marielle Franco, do Psol Rio de Janeiro, na última quarta-feira (14), a internet passou a ser inundada por notícias falsas que tinham como único intuito denegrir a imagem da ativista de Direitos Humanos. Nesse caso, um alvo já morto, cravejado por quatro balas, não se mostrava suficiente. Não bastava a execução de uma expoente liderança das favelas, eleita com mais de 46 mil votos, era preciso difamá-la como forma de colocar seu legado a prova e, assim, fazer com que seus ideais também fossem enterrados. Ledo engano... 
 
Diversas postagens invadiram as redes sociais país afora, sendo repercutidas localmente. Algumas, inclusive, assinadas por autoridades como a desembargadora do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, Marília Castro Neves, que afirmou, na última sexta-feira (16), que a vereadora Marielle Franco “estava engajada com bandidos e, que eleita pelo Comando Vermelho, descumpriu compromissos assumidos com seus apoiadores”, sendo, por esse motivo, assassinada.
 
Postagens e comentários começaram a sugerir o inimaginável. Atribuir à vítima a responsabilidade pela própria execução, como se Marielle “merecesse” tal destino. Entre as razões – todas falsas – está o envolvimento com o tráfico, mencionado pela desembargadora, que depois admitiu que sequer conhecia a vereadora e havia replicado  informações falsas que recebera via WhatsApp. Também não faltaram críticas por Marielle “supostamente defender bandidos” e ser contra a intervenção militar. Além, é claro, daqueles questionaram a opção sexual da vítima, bissexual, bem como sua posição política de esquerda. 
 
Algumas postagens beiraram a roteiro de filme com teoria conspiratória, afirmando, por exemplo, “que a esquerda brasileira estaria apropriando-se da morte da vereadora para pregar a desigualdade entre mulheres, negros e favelados e fazer política”. Outras chegaram ao ponto de questionar o papel da Rede Globo em sua cobertura ao episódio, como se fosse uma inusitada - e põe inusitada nisso! - união entre "a esquerda" e a "responsável pelo golpe". 
 
Rapidamente, o Psol, grupos de advogados e a própria mídia se uniram para combater as notícias falsas e denunciar as autoridades que as divulgaram. Mas o estardalhaço causado já havia demonstrado um divisor de águas entre a sociedade brasileira: aqueles que desejam julgar a vítima e os outros que desejam a punição dos assassinos. O episódio, de fato, desnudou um lado cruel de parte da sociedade brasileira, que rotula os pontos de vistas da vereadora como o "inimigo" a ser combatido. Daí não surpreender a pressa e a preocupação em julgar e difamar a vítima, antes mesmo dos acontecimentos serem esclarecidos.
 
Os malfeitores que difamaram Marielle, não satisfeitos com sua trágica morte, desejaram matar suas ideias, acreditando que o ataque moral à sua honra eliminaria a veracidade de suas afirmações a respeito das condições de vida das minorias. E essa difamação da vítima não deixa de ser uma manifestação de apoio, ou apologia, aos criminosos que ceifaram sua vida.
 
Alguns pontos precisam ficar bem claros. Marielle não foi vítima da violência urbana. Ela foi executada. Foi exterminada, de forma violenta e cruel, por sua atuação política, de militância contra o genocídio do povo negro.  Sua morte é, sim, um atentado à democracia; tentativa de calar a voz e minimizar a luta de um segmento discriminado historicamente.  Marielle não defendia bandidos; lutava contra os abusos do Estado (na figura de alguns de seus agentes de segurança) contra os mais pobres e vulneráveis socialmente.  
 
Também lutava pelo respeito a direitos que estão sendo violados na intervenção militar no Rio. Denunciar os abusos de PM e outros militares não significa que as mortes desses agentes não importem. O que Marielle defendia é repensar o modelo de segurança atual, que faz inúmeros mortos de ambos os lados, numa guerra que não leva em conta fatores sociais e econômicos. 
 
Muitas pessoas morrem sem que seus crimes tenham a repercussão necessária, mas é no mínimo maldade, tentar minimizar a morte de uma militante calada brutalmente por seus ideais.

Como consolo, no meio desse caos social e desesperança, estão as reações por todo o País - inclusive de entidades capixabas - em defesa do legado de Marielle. Este, sim, a prova de balas! 

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