Seculo

 

Olho maior que a barriga


21/03/2018 às 17:06
O cenário literário brasileiro está ganhando tonalidades alarmantes, hoje qualquer projeto literário (a não ser que você pertença à alta sociedade ou a uma panelinha) está inviabilizado num primeiro momento, e talvez até num segundo momento. É uma profusão de concursos literários caça-níqueis, com exigências absurdas como não publicação impressa ou eletrônica - no caso das publicações eletrônicas, um sinal de ignorância preocupante, em plena era dos blogs e das redes sociais literárias.
 
De outro lado, editoras que veem o escritor como uma fonte de renda incalculável, não para a venda de livros, por óbvio, mas pelo preço que o infortunado tem que pagar para ter míseros cem exemplares rodando nas livrarias e feiras literárias.
 
O que vislumbro, com muito pesar, é um cenário literário de cisão, de um lado os burguesinhos com seus livros de poesia de oitenta páginas, e de outro lado um mundo de gente na internet com blogs e divulgações marginais pelas redes sociais literárias.
 
A cisão será a consequência desta visão anacrônica e, ao mesmo tempo, exploratória sobre os escritores deste país. Anacrônica por ignorar ou fingir que não há uma nova realidade: os blogs e grupos na web de literatura, onde o objetivo é divulgar os trabalhos escritos para, depois, tentar vender seu peixe com uma publicação que seja. O que acontece? Concursos literários exigindo exclusividade sobre direitos e divulgações, um monopólio absurdo da lavra alheia que resulta em fracasso coletivo para a maioria dos escritores deste país.
 
A visão de que o mercado é que manda é uma visão ultrapassada, quem manda é o escritor, quem manda é quem trabalha e não quem vende. O caminho para os que fazem blogs literários terá de ser o caminho da independência e da autopublicação, senão terão que se submeter aos ritos de um mercado que exige exclusividade sob uma coisa que não deveria lhes pertencer, o trabalho feito é do escritor, e se ele quiser divulgar seu trabalho em um blog ou outro veículo virtual e, posteriormente, vender seu livro, não vejo problema nenhum.
 
Entendo que o leitor que se interessar por um determinado blog ou rede social literária comprará o livro. Não vejo o blog e outros meios de postagem (que não é publicação como entende equivocadamente os famigerados concursos caça-níqueis) como um impeditivo para venda de publicações, embora possa haver leitores que ao ver o trabalho no blog não comprem o livro, o que é uma visão pessimista e utilitária, pois quem gosta de literatura terá vontade de comprar um livro publicado pelo escritor-blogueiro.
 
O cenário dos blogs literários e redes de compartilhamento como o Medium é uma realidade, e, como toda realidade, não pode ser ignorada e defenestrada por uma visão pragmática e econômica de que não há como divulgar um trabalho na web sem prejuízos às publicações futuras. Esta é uma visão anacrônica que não tem mais pé com a realidade, que não é a realidade de mercado, mas a realidade de um cenário novo que veio para ficar.
 
O caminho da cisão será inevitável, novos escritores independentes correrão por fora desta canalha de editoras e concursos literários que só veem a literatura como produto e não como trabalho, em que a visão de produto ignora a visão laborativa da escrita que deveria estar em primeiro plano.
 
Certos estarão os que vendem seu tempo para o mercado, e errados os que correrem por fora sem abrir mão de suas convicções e conscientes de que a realidade é outra, totalmente diferente, onde o download e a autopublicação, os blogs e redes sociais literárias serão uma voz dissonante dos chupadores de sangue da velha visão de mercado e de que tudo que é literário tem que se pagar um alto preço para ser divulgado.
 
Não vou aderir às exigências de um mercado literário que não respeita o trabalho escrito e restringe este crescimento com a propriedade de um produto, como se literatura fosse comida e não ideias. E cito os preços escorchantes cobrados por algumas editoras para um escritor inédito se aventurar numa publicação, algo proibitivo para quem não nasceu em berço de ouro.
 
Ignorando o cenário da literatura da web teremos esta cisão de que falo, em que só haverá uma patota bem nutrida em suplementos literários de jornais, enquanto uma massa crítica se forma por fora do mercado no mundo vasto da internet.
 
Se não há escapatória ao mercado, azar do mercado.
 
É a Literatura, estúpido!
 
Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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