Seculo

 

Vítima e algozes


24/03/2018 às 11:27
A mesma avenida que está no alvo da polêmica com a implantação de corredor exclusivo para ônibus, vãs e táxis, a Dante Michelini, em Vitória, também é motivo de outro impasse, mas esse existente há anos. Neste caso, luta-se para alterar seu nome, que é associado a um crime que prescreveu sem solução e que, há 45 anos, choca o Espírito Santo, o da menina Araceli Cabreira Crespo.

Drogada, estuprada, assassinada e tendo o corpo incinerado e jogado num matagal no ano de 1973, a criança, de apenas oito anos, teria permanecido em cárcere privado num bar chamado Franciscano na própria avenida, em Camburi, onde também foi morta. O sobrenome de dois dos três algozes apontados na investigação? Justamente Michelini. 
 
O promotor do caso à época, Wolmar Bermudes, foi enfático e apresentou à Justiça capixaba três principais suspeitos: Dante de Barros Michelini (o Dantinho), Dante de Brito Michelini (pai de Dantinho) e Paulo Constanteen Helal – todos membros de tradicionais e influentes famílias do Estado. Dantinho e Paulo Helal teriam raptado a menina e levado para o bar de Dante Pai, em Camburi, onde ela foi abusada, drogada e assassinada. 
 
Diante de diversos artifícios jurídicos e uso de influência das famílias Helal e Michelini, os acusados, condenados em primeira instância, foram absolvidos pelo Tribunal de Justiça do Estado (TJES). Passado o tempo, o crime prescreveu. Mas as inúmeras contradições, até hoje, pertubam a memória dos capixabas.
 
No ano passado, depois de denominar o viaduto construído ao final da avenida de Araceli Cabreira Crespo, a prefeitura inaugurou, em evento político, um memorial em homenagem à criança. Ou seja, duas referências a ela na mesma avenida cujo nome homenageia a família dos acusados. Lado a lado, vítima e algozes. 
 
Mais recentemente, o vereador Roberto Martins (PTB) apresentou um projeto para realizar uma consulta pública aos moradores (plebiscito), que decidiriam sobre a mudança de nome da avenida. Mas o mesmo prefeito que explorou a causa antes, Luciano Rezende (PPS), vetou a iniciativa. Com a maioria na Câmara em suas mãos, o veto foi mantido, no último dia 20. Único vereador de oposição, a estratégia foi para negar a ele o protagonismo no debate.

Interessante é que a própria Câmara chegou a abrir uma consulta popular nas redes sociais, em 2017, com o mesmo objetivo. O resultado mostrou o que a população deseja: 93,7% votou pela mudança do nome para Araceli Cabreira Crespo. Mas parou por aí, sem explicações.

O apelo popular pela mudança de nome da avenida já havia sido manifestado em outras ocaisões. Em 2013, por exemplo, um grande clamor social reivindicou que a prefeitura mudasse o nome da Avenida Dante Michelini para Araceli, como uma forma de reparar minimamente tamanha atrocidade contra a criança. Os manifestantes colaram adesivos com o nome dela em cima das placas de identificação da via. De nada adiantou. 
 
O dia do desaparecimento de Araceli passou a marcar uma luta urgente e necessária. O 18 de maio foi instituído como o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, a partir de 2000. A mudança de nome deveria ser mais uma importante etapa desta causa. Mas, pelo contrário, trafegar pela avenida ainda é como perpetuar a marca da impunidade.
 

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