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Marcha leva servidores às ruas contra arrocho do governo Hartung e terceirizações


05/04/2018 às 17:30
Fotos: Leonardo Sá
Servidores públicos, além de integrantes de movimentos sociais e trabalhadores de áreas urbanas e rurais, tomaram as principais avenidas do Centro de Vitória, nesta quarta-feira (5), na Marcha da Saúde. Puxada pelo Sindicato dos Trabalhadores da Saúde no Estado (Sindsaúde-ES), a manifestação teve o caldo engrossado pelo funcionalismo estadual, extremamente insatisfeito com o reajuste de 5% anunciado nessa semana pelo governo Paulo Hartung, depois de quatro anos de arrocho salarial. 
Também houve denúncia contra a terceirização dos hospitais estaduais, que, depois de sucateados, estão tendo suas gestões repassadas a Organizações Sociais de Saúde (OSs) desde 2009. Não ficou de fora a indignação ao reajuste aprovado pela Assembleia Legislativa para cúpula do Executivo (governador, vice e secretariado), que terão seus salários reajustados em 18% a partir de 2019. 
A Marcha da Saúde teve concentração, a partir das 9 horas, na Praça Getúlio Vargas, Centro de Vitória; de onde cerca de mil pessoas seguiram em caminhada até o Palácio Anchieta. Além dos trabalhadores que atuam nas unidades de saúde e hospitais dos municípios da Grande Vitória, houve quem veio do interior para participar da manifestação. 
 
Terezinha Damaceno, de 53 anos, 28 deles dedicado ao serviço público na saúde, veio participar da Marcha pela indignação aos 5% de reajuste anunciados pelo governador Paulo Hartung depois de quatro anos sem aumento. “A gente chega num ponto que precisa escolher o que vai ter que abrir mão. O salário já está ficando insuficiente para o básico. Nesses quatro anos, tudo aumentou; energia, comida, medicamentos, gás, e 5% não repõem nada. Conheço servidores aposentados que estão indo morar com os filhos, pois não estão conseguindo mais pagar aluguel”. 

Antônio Rodrigues de Oliveira, do Movimento Quilombola de Sapê do Norte, em Conceição da Barra (norte do Estado), rodou 250 quilômetros para participar da Marcha. “Essa é uma luta coletiva; estamos aqui porque a saúde é o direito de todo cidadão, não só de quem está na manifestação. Estamos lutando por todos”. Do interior também José Luiz Rodrigues, 71 anos, morador de Ibiraçu, que veio para uma consulta no Hospital Central em Vitória e resolveu participar do protesto. “Não temos especialistas no interior”.
 
A auxiliar de enfermagem Sandra Gomes, 46 anos, com 27 anos de servidora pública da Saúde, reclamou que os hospitais e outras unidades que integram a estrutura da saúde pública estadual estão sucateadas. “Falta equipamentos e até o básico como medicamentos”.   

Entre os sindicatos, participaram os que representam categorias como enfermeiros (Sindienfermeiros), psicólogos (Sindpsi-ES), servidores do Judiciário (Sindijudiciário-ES), servidores da administração indireta (Sindipúblicos), policiais civis (Sindpol-ES). Os movimentos sociais, por sua vez, estavam representados pelo movimento estudantil, pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terras, pela Federação de Associação de Moradores do Estado (Famopes), Movimento Quilombola do Norte do Estado, entre outras. 
 
O governo do Estado, curiosamente, também resolveu participar da Marcha. Uma servidora da Casa Civil esteve infiltrada no movimento, acompanhada de um policial a paisana.    

Recursos públicos para empresas
O Sindsaúde-ES e outras entidades da sociedade civil vêm, há anos, denunciando os riscos das terceirizações de serviços públicos essenciais, como o caso da Saúde. Estudos acadêmicos também demonstram que os gastos com as empresas privadas que gerem os hospitais estaduais são maiores, sem garantia de ampliação e melhoria do serviço.  
Segundo estudo de Fabiana Turino, atualmente doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), entre 2009 a 2015, o repasse de recursos do governo para as OSs foi de R$ 518,7 milhões, com custo médio de R$ 232 para cada atendimento. Já os hospitais sob administração direta receberam R$ 252,5 milhões e apresentaram custo médio por atendimento de R$ 84.

Casos como o do Hospital Infantil de Vila Velha (Heimaba) alcançaram repercussão nacional neste ano, quando a OS IGH, que administra a unidade, improvisou leitos para bebês em cadeiras de plástico e permitiu que mães e crianças dormissem no chão do hospital por falta de leitos. 
Para a presidenta do Sindsaúde, Geiza Pinheiro, as OSs substituem servidores de carreira por trabalhadores inexperientes que recebem salários abaixo da média, com a clara intenção de redução de custos. Segundo ela, a bandeira do Sindicato é defender um modelo público de saúde, que, para funcionar, precisa de investimentos, atenção e responsabilidade dos governos.
“A terceirização tem pressionado os servidores e desviado recursos públicos para empresas privadas. Recursos que poderiam ser bem administrados pela própria Secretaria. Mas parece que eles atestam a própria incompetência entregando esse trabalho à iniciativa privada”.
Os representantes de outras categorias também fizeram discursos durante a Marcha, destacando a necessidade de investimentos em áreas, como Segurança Pública. Na Polícia Civil, por exemplo, foi denunciado o fechamento de delegacias. 

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