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Tartarugas marinhas protegidas já somam 35 milhões no Brasil


08/04/2018 às 20:15
Trinta e cinco milhões de tartarugas marinhas já foram protegidas e liberadas ao mar, ao longo de 38 anos de trabalhos do Projeto Tamar no Brasil. O feito foi comemorado neste final de semana (6 e 7), nas 25 bases de pesquisa e centros de visitantes do Tamar em nove estados litorâneos, no Nordeste, Sudeste e Sul do país, seis delas no Espírito Santo.

Muito mais do que a métrica do êxito de uma instituição, o número é sustentado por milhares de pessoas que trabalham direta ou indiretamente com a conservação das cinco espécies que ocorrem no país e beneficia não só os répteis mais empáticos do oceano, mas a vida marinha como um todo, bem como as populações costeiras de um modo geral, sejam humanas ou não.

“Os 35 milhões são uma comemoração simbólica, de um trabalho realizado em vários pontos do Brasil, com diferentes populações humanas e formas de envolvimento, de parcerias, entre diversas instituições”, explica o ocenanólogo Joca Thomé, coordenador nacional do Centro Tamar/ICMBio. 

As tartarugas marinhas são consideradas, pelas ciências da conservação, como espécies-bandeira, ou seja, por meio da sua proteção, consegue-se beneficiar um leque muito maior de espécies do mesmo bioma. No caso dos quelônios marinhos, ao se reduzir a poluição e regular a pesca industrial, por exemplo, toda a fauna e flora do oceano ganham um ambiente mais saudável e seguro para viver.

Os benefícios econômicos também são pujantes. Em algumas localidades, as atividades relacionadas à conservação das tartarugas marinhas são a principal geradora de trabalho e renda, mas até do que a pesca ou o serviço público. É o caso de Regência, na Foz do Rio Doce, município de Linhares, norte do Espírito Santo, e outras comunidades costeiras brasileiras.

Reconhecimento mundial

Esse envolvimento comunitário é uma das chaves do bom desempenho do Projeto, destaca Joca, aliado às parcerias entre governos e sociedade civil e empresas. Bom desempenho que tem sido reconhecido, ao longo da história, por meio de premiações internacionais.

O brasileiro Tamar é considerado o melhor programa de conservação de tartarugas marinhas do mundo, devido ao seu duradouro tempo de atuação e sua metodologia baseada no envolvimento comunitário.

“Somos citados como exemplo, no mundo, de um programa que deu certo”, reconhece, mencionando ainda o fato de o filhote número 35 milhões estar sendo celebrado no dia do aniversário do Parque Nacional Marinho de Abrolhos, no sul da Bahia – “uma das várias unidades de conservação que foram criadas em função das tartarugas marinhas”, conta.

Espírito Santo é estratégico

Das sete espécies de tartarugas marinhas que existem no mundo – todas ameaçadas de extinção – cinco ocorrem no Brasil e no Espírito Santo, sendo três delas mais recorrentes no litoral capixaba: a tartaruga-gigante ou de-couro (Dermochelys coriacea), a tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta) e a tartaruga-verde (Chelonia mydas).

O Estado possui o único ponto de concentração de desovas da gigante e o segundo maior da cabeçuda, além de abrigar um dos sítios reprodutivos da verde, a Ilha de Trindade, a 1200 km de Vitória.

A gigante capixaba é geneticamente distinta das outras populações do Oceano Atlântico, sendo o resultado do cruzamento de indivíduos africanos com caribenhos. “É um processo de evolução”, acentua o coordenador nacional do Tamar, o que nos incute “mais responsabilidade ainda em cuidar dessa população”, afirma.

A gigante e a de-pente (Eretmochelys imbricata) estão com o status mais ameaçado, classificadas mundial, nacional e estadualmente como Criticamente em Perigo. A cabeçuda e a oliva (Lepidochelys olivacea) estão um pouco abaixo, Em Perigo. E a verde é considerada Vulnerável, a categoria com menor grau de ameaça.

A situação da verde é menos desfavorável devido ao seu local de reprodução ser as ilhas oceânicas, onde praticamente inexiste predação das fêmeas, já há muitos anos. “Por isso vemos tantos filhotes de tartaruga-verde na costa, se alimentando”, conta Joca Thomé, informando que esses juvenis são oriundos também de ilhas oceânicas fora do país, como Asencion, próximo à Espanha, cujos filhotes, todos, vêm para o Brasil se alimentar. Lá, um trabalho semelhante ao do Projeto Tamar, passados 40 anos, conseguiu declarar o processo de recuperação da população da espécie.

Recuperação das populações

Fato semelhante está prestes a acontecer no Brasil, acredita o oceanólogo. Este ano, será feita uma nova avaliação das populações que ocorrem no Brasil e a percepção é de que deve haver recategorização de uma ou mais espécies. “A cada cinco anos essa avaliação é feita, com a participação de pesquisadores do Brasil inteiro”, conta.

O índice que se utiliza mundialmente para avaliar a evolução das populações é o número de desovas nas praias. “Temos uma média de crescimento, na última década, de 10% ao ano, no número de desovas”, informa, ressaltando que esse índice varia por espécie e por região. A cabeçuda, por exemplo, tem crescido 10% na Bahia, mas 5% no Espírito Santo.

As praias capixabas recebem em média, de 200 a 400 fêmeas de Caretta caretta e de 10 a 20 de Dermochelys coriacea por temporada reprodutiva, totalizando 2000 e 100 desovas, respectivamente, a cada ano, já que cada fêmea costuma fazer de quatro a cinco ninhos por temporada.

Cada ninho possui em média 120 ovos e, de cada mil filhotes que nascem, somente um ou dois chegarão à idade adulta, sobrevivendo aos mais diversos tipos de ameaça no oceano, tanto naturais – como os animais predadores e a escassez de alimentação – como antrópicas, ou seja, provocadas pelo ser humano, sendo as mais letais a captura incidental pela pesca, a fotopoluição (excesso de iluminação artificial nas praias), a poluição, o trânsito de veículos nas praias de desova e as mudanças climáticas.

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