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Hortas urbanas irradiam sustentabilidade em morros de Vitória


08/04/2018 às 01:34
Fotos: Facebook/Agricultores Urbanos Vix

"Eles desceram sem armas”, conta o técnico eletroeletrônico Jean dos Santos, também estudante de Administração e comerciante no bairro do Morro do Cabral, ao lembrar dos grupos rivais que trocavam tiros, no Cabral e na Chapada, em Vitória, mas que decidiram se desarmar para discutir como viabilizar um festival de música com artistas de ambos os lados da “guerra” local.

Isso foi em 2015. E inaugurou um tempo, ainda vigente, de convivência mais pacífica entre as duas comunidades e um dia a dia de mais tranquilidade para os moradores.

A ideia do “Tour no Morro” veio em seguida. A chegada de pessoas de outros pontos da cidade pra admirar a vista privilegiada do alto do Cabral, encorajou os parentes dos moradores locais, que há muito tinham medo de visitar os familiares, a “pegar carona” no turismo e quebrar o longo silêncio da saudade.

Receber as visitas exigia cuidado com o lugar, harmonizando os pontos viciados de lixo, suprimindo pontos de esgoto a céu aberto, convidando músicos da comunidade para encerrar o passeio em alto astral em algum comércio local com venda de lanches e iguarias. Jovens recebiam contribuições singelas para serem os guias na excursão morro acima.


Economia que gira, cultura que se valoriza, ambiente que se organiza. Mais saúde, beleza, alegria, segurança, mais dinheiro circulando.

“Aí veio o Almir, com a ideia inovadora de plantio de horta”. Muita gente aqui já plantava, mas o Almir impulsionou”, avalia.

E o Almir, por sua vez, Almir Junior, representante comercial em agricultura, morador de Santa Teresa, bairro que fica no pé do Morro do Cabral, passou a bola pro Gleyson Marcelino, ajudante de pedreiro, dono de uma pequena e auspiciosa horta em frente à sua casa. “Ele me incentivou a minha fazer horta, no lugar onde eu colocava entulho das obras dos parentes”, conta.

E, nessa pioneira horta do Almir, mais do que alimentos diversos, brotou uma vontade incontrolável de espalhar o espírito das hortas caseiras, urbanas, pra toda a comunidade ao seu redor, morro abaixo e morro acima.

E lá foi ele. Conversando com um, com outro, trocando aquela ideia positiva, fazendo amigos, trocando sementes, mudas, frutas, sonhos. Naturalmente, as hortas cresceram, se multiplicaram (umas vinte ou trinta surgiram ou foram ampliadas a partir desse "rolê" do bem pelas ruas dos bairros).

E até uma horta comunitária está surgindo, num terreno de dez mil metros quadrados, cedido pelo vizinho Parque Estadual da Fonte Grande.

A intenção da gerência do Parque foi evitar uma invasão. A dos jovens, que já bem mais do que três a essa altura, era verdejar a cidade, produzir alimento saudável e tornar as comunidades lugares cada vez melhores de se viver.

Vieram os mutirões para retiradas de lixo dos pontos viciados – sete toneladas num mês, quatro toneladas três meses depois ...

Vieram as consultorias para implantação ou crescimento de hortas urbanas nas duas comunidades e em outros pontos da metrópole.

Vieram as cestas vivas, com mudas diversas vendidas a hortelãos urbanos em potencial, em casas, apartamentos, condomínios.

Vieram as cestas de alimentos agroecológicos, com produtos abundantes nas comunidades e levador pelo Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) na feira semanal em frente à Catedral de Vitória.

Vieram os alunos da Universidade Federal do Espirito Santo (Ufes) e a recuperação de nascentes no alto do morro.

E virão, confiam os jovens empreendedores sociais, geração de renda para eles próprios – que hoje dedicam-se voluntariamente ao projeto, no tempo que sobra de seus empregos – e para as suas comunidades. Geração de renda por meio da sustentabilidade, da qualidade de vida.

“Bom demais isso acontecer”, festeja Jean, impressionado com toda mudança dos últimos oito meses, quando o projeto surgiu, “oficialmente”.

Hoje, o Projeto Agricultores Urbanos tem seis frente de trabalho, cada uma coordenada por uma pessoa. Tem o apoio da Comunidade Kolping do Bairro Santa Teresa, que fornece ajuda nas questões burocráticas e jurídicas, e cedeu um terreno para ampliação do viveiro de mudas, que ainda funciona nos 50m² do quintal do Almir.

E tem parcerias com outros coletivos, como o Casa Verde, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), e o Cine Caracol, de Vale Encantado, em Vila Velha, que fará a primeira exibição no próximo dia 20 de abril. Além de outros empreendedores e suas redes de amigos e clientes, que fazem a ideia girar, o dinheiro circular, e o verde verdejar cada vez mais a saúde das pessoas e da cidade.

E o que mais está por vir? “A gente não quer depender de órgão público nem patrocínio de empresa, quer se autossustentar financeiramente”, afirma Almir.

“Quebrar estigma que no morro só existe violência”, diz Jean, reafirmando uma concepção em franco processo de expansão nas mentes mais livres e antenadas.

Estigma que é sustentado pelo próprio Estado, por meio de sua distribuição desigual e injusta de investimentos públicos. O grande contraste entre os vizinhos Cabral e Santa Teresa é uma síntese da desigualdade dos abismos que existem no Estado e no país, o mais socialmente desigual do mundo. Na baixada, casas de até R$ um milhão e um tratamento razoável por parte do poder público. Alguns metros acima, barracos com telhado de amianto e a negligência do Estado no tocante aos serviços mais essenciais. “O descuido com as regiões mais periféricas é muito evidente”, lamenta Almir. 

A despeito da injustiça estatal, Jean se gaba da alegria dos moradores e da fartura da natureza. “O nosso bairro tem muitas frutas: jaca, manga ... é muito recreativo. As pessoas vêm conhecer e se divertem. Conversam com os mais velhos, como a senhora Jandira, que tem mais de 100 anos e cuida de um poço de água pura perto da casa dela”, conta, orgulhoso, com fotos dos visitantes argentinos, alemães, italianos e de outras fronteiras, que já fizeram o Tour no Morro, muitos indicados por hostels onde se hospedam durante os períodos de intercâmbio e estudos na região.

O que mais estar por vir, invoca Almir, é a criação de uma geração que não terá mais o crime e o tráfico como opção considerável para sobreviver à pobreza de espírito dos governantes, que enfraquecem os potenciais êxitos que poderiam lograr, caso investissem de forma mais equânime os recursos públicos em saúde, educação, lazer, cultura, infraestrutura e segurança.

A opção das armas, observa Almir, “é muito preocupante”. “É preciso quebrar esse ciclo vicioso”.

Jean conclama a prosperidade das hortas, da música, dos tours, das frutas, das nascentes, das senhoras Jandiras. Muitos jovens já desceram as armas. Que elas continuem no chão, mas sem o alcance dos mais novos. Que a bela visão do mirante do Cabral continue inspirando elevados ideais e ações comunitárias.

Mais informações nas redes sociais do projeto no facebook e no instagram

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