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Golfinho raro em águas capixabas encalha e morre em Jacaraípe


09/04/2018 às 15:48
Um golfinho-cabeça-de-melão (Pepomocephala electra) medindo 2,3 metros, fêmea e prenha, encalhou na manhã desse domingo (8) em Jacaraípe, na Serra, indo a óbito na tarde do mesmo dia. A espécie tem comportamento oceânico, sendo raramente encontrada na costa. No Espírito Santo, é o sétimo registro em mais de vinte anos.

É um golfinho cosmopolita, ocorre em todos os oceanos. Mas só se aproxima do litoral se estiver com algum problema sério”, conta Lupércio Araújo, diretor do Instituto Consciência Ambienta (Orca), uma das duas entidades responsáveis, segundo a Rede de Monitoramento e Informação de Encalhes de Mamíferos Aquáticos do Brasil (Remab), pela necropsia de cetáceos no Espírito Santo. Os animais encontrados no litoral sul são encaminhados para o Orca e, os encontrados ao norte do Rio Doce, para o Instituto Baleia Jubarte, no sul da Bahia.

O último golfinho-cabeça-de-melão que ocorreu no Espírito Santo também era fêmea e estava prenha, e sua necropsia detectou um objeto plástico no estômago, indicando ser esta a causa da morte. 

“Se houvesse no Estado uma estrutura adequada, ela poderia ter sido resgatada viva”, lamenta Lupércio, explicando que, se recebidos vivos num centro de reabilitação, os especialistas podem muitas vezes salvar o animal e, mesmo que ele venha a óbito, é possível obter muito mais informações sobre a causa da morte, identificando por exemplo doenças contagiosas, com risco, inclusive, de contaminação humana, pois os cetáceos e os humanos estão no mesmo nível da cadeia trófica. “Por isso é muito perigoso que banhistas fiquem próximos de animais encalhados nas praias. Pode haver contaminação”, alerta o pesquisador.

É o caso do Epóxi vírus e do morbilivírus, este último, causa de uma epidemia iniciada provavelmente em setembro no Espírito Santo, época do auge da mortandade que dizimou a população de boto-cinza (Sotalia guianensis), da baía de Sepetiba, no Rio de Janeiro, e atingiu também o litoral paulista.

Diante de todas as evidências da chegada do morbilivírus ao Estado, o Instituto Orca coletou e enviou material para análise nas instituições aptas para tal no país – apenas a Universidade de São Paulo (USP) e a Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz) possuem laboratórios apropriados para realizar o teste PCR (sigla em inglês para “reação em cadeia polimerase”).

Os resultados das análises dos botos-cinzas capixabas ainda não foram concluídos e a mortandade arrefeceu, tendo atingido, até o momento, cerca de 50 golfinhos e botos, desde julho de 2017, número muito acima da média.

“A epidemia parece estar controlada, tanto aqui, quanto no Rio e São Paulo. Mas tem que continuar investigando. No nosso caso, a investigação está sendo feita pela Fiocruz, mas tudo sem recursos”, informa Lupércio. “A pesquisa científica não tem a menor importância pro governo brasileiro e capixaba, principalmente pesquisa com animais”. reclama.

Recurso mal utilizado

Ele critica o fato de que recursos que poderiam já estar sendo aplicados em pesquisa estão sendo subutilizados ou mal utilizados, como é o caso da verba de compensação ambiental da Petrobras, empregada no Programa de Monitoramento de Praias (PMP).

No Espírito Santo, o PMC é executado pela empresa CTA e pelo Instituto de Pesquisa e Reabilitação de Animais Marinhos (Ipram), e realiza o levantamento dos animais marinhos encalhados, sejam tartarugas, aves ou cetáceos, mas apenas os dois primeiros grupos conseguem ser levados para centros de reabilitação.

“São instalações improvisadas, que só conseguem atender a animais de menor porte”, diz Lupércio, referindo-se ao espaço administrado pelo Ipram dentro do Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema) . “Se fosse em qualquer outro local, o próprio Iema [Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos] já teria interditado”, denuncia. “Nesses tanques pequenos, com pouca água, a água sofre muita variação de temperatura, fica difícil controlar bactérias e outros patógenos”, explica.

A verba do PMP, observa Lupércio, poderia ser utilizada em um monitoramento mais completo e “não só pró-form”.  “O PMP devia ser extinto, porque esse modelo é inadequado. A Petrobras deveria destinar o dinheiro para um fundo, que financiaria universidades e institutos sem fins lucrativos, para um monitoramento completo e pesquisas científicas”, sugere. “As universidades e os institutos de pesquisa do Estado hoje estão à míngua”, diz,

Mais de um ano de espera

Um projeto que prevê a injeção de recursos em diversas instituições de pesquisa e universidades do país – incluindo a Federal do Espírito Santo (Ufes), o Orca e o Baleia Jubarte – aguarda, há mais de um ano, a liberação da verba pela Fundação Renova. “Inexplicavelmente, não foi liberada. Foram cumpridos todos os ritos burocráticos do projeto”, conta. 

O projeto é focado na megafauna marinha e prevê avaliação de biota, do ambiente, do substrato, e análises de estudos diversos, envolvendo genética, microbiologia e patologias. “São estudos que hoje são feitos pelo Orca com recursos próprios e de seus parceiros, dependendo da disponibilidade e oportunidade”, diz Lupercio, citando a Ufes, a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) e a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).

A pesquisa vai estabelecer possíveis relações de causa e efeito, entre problemas de saúde em cetáceos e outros grupos e a poluição marinha, incluindo os rejeitos de mineração vazados da barragem de Fundão, da Samarco/Vale-BHP, em Mariana/MG, no dia cinco de novembro de 2015.

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