Seculo

 

Augusto Frederico Schmidt: considerações finais


10/04/2018 às 14:05
Finalizando a nossa análise do poeta Augusto Frederico Schmidt, podemos reiterar a sua grandeza dentre os poetas brasileiros, conhecido sempre como o autor de “Canto da Noite”, um poeta lírico por excelência, em meio ao fervilhar do Modernismo, movimento este de caráter mais iconoclasta e renovador do que propriamente lírico, num primeiro momento.
Podemos dizer que Schmidt traçava uma linha paralela que só seria reencontrada, mais tarde, com poetas como Vinícius de Moraes e Cecília Meireles, já em chaves líricas mais avançadas do que uma herança direta do romantismo e do simbolismo, caráter poético este que ainda pulsava na escrita poética de Augusto Frederico Schmidt. Por fim, Schmidt é um dos poetas ideais, destes da chamada “Poesia imperecível”, a qual Novalis dizia ser o “autêntico real absoluto”.
 
Biograficamente, o homem de negócios que foi Schmidt não eclipsou em nada o seu caráter de artista, e nem a sua verve lírica de poeta herdeiro da tradição romântica e simbolista, ou ainda sua própria produção poética e literária como um todo.
 
A poesia de Schmidt, mesmo sendo levantado aqui no texto que tem forte influência de uma tradição romântica e simbolista, nunca deixou de também estudar formas e conteúdos modernos, e seu lirismo, por outro lado, também era reflexo forte de nossa velha poesia de Portugal, que sempre foi influência para muitos dos poetas no Brasil, e por muito tempo.
 
Por fim, um aspecto que liga muito a poesia de Schmidt a uma imagem consolidada de poesia tradicional, pode ser o fato de que ele era um poeta também adepto de um grande transbordamento verbal.
 
POEMAS
 
AURORA LÍVIDA (1958)
 
POEMA DE NATAL : O poema levanta a imagem do poeta Ungaretti, e nos lembra da tragédia pessoal deste poeta que perdera um filho que morreu criança, no que temos : “A IDEIA de escrever um/poema de Natal/Traz-me à lembrança o poeta Ungaretti,/Na sua casa em Roma,” (...) “Ungaretti é um pássaro revoando,/Volteando, girando e, de súbito,/molhando/As largas asas duras nas águas/Onde pousa e, às vezes, se move/A imagem do seu filho perdido.”. Logo Schmidt evoca liricamente o poeta italiano e de como esta dor tão central definiu grande parte da poesia de Ungaretti, no que segue :  “Ungaretti possui um tesouro,/E este dia de Natal reabre-lhe/Não só a ferida, mas também/a vontade de viver/Para que viva nele e com ele o seu fruto.” (...) “Possui a sua própria dor a queimar-lhe/o peito e a acompanhá-lo./E enquanto sua lembrança esvoaça/Em torno do filho pequeno que partiu,/Poupa-lhe Deus miséria igual à minha :/Contemplar nesta hora festiva/A face morta da criança que eu fui.”. E Schmidt mal compara, por fim, sua imagem infantil desaparecida como algo melancólico, sem a chama de uma tragédia como a de Ungaretti.
 
BABILÔNIA (1959)
 
OUVE A TARDE CHEGAR ... : O poema nos evoca Jerusalém, a imagem de Babilônia, e um deserto logo se abre, no que temos : “OUVE a tarde chegar em Babilônia./O rio leva suas águas mansas/Até onde se ergueu Jerusalém/E hoje é o deserto, a ruína, a solidão.” (...) “Pensa em Jerusalém e no destino/O Profeta. O fumo da tarde que se vai/Hesita, e na sombra por fim repousa triste./_ Ó meu Deus de Israel! – exclama o Doido –/Corta-me logo as ligações com o tempo/E aquieta no Teu seio o meu tormento!”. A prece é por um Deus, esta conhecida entidade de Israel, que nos corta as ligações com o tempo, para que seja aplacado o tormento deste mundo aflito, prece de um doido, de um profeta.
 
ÀS VEZES, QUANDO SÓ ... : O poema segue com uma meditação ou reflexão sobre o Mal, no que temos : “Às vezes, quando só no quarto estreito/Do hotel, em Babilônia, meditava/Sobre as desditas deste feio mundo/E no Mal triunfante em toda parte;/Quando a aurora da atroz desesperança/Rasgava o véu consolador da noite,/A Rainha do Céu o visitava,/Em doçura e tristeza toda envolta.” (...) “Ó milagre de amor, estranho e forte,/Do próprio desespero vitorioso,/Que as feridas do mundo em flores muda!”. A presença materna de uma Rainha do Céu então salva o poeta da visão desolada que ele tinha, a visita desta divindade feminina aquieta o coração de Schmidt, e então ele descansa.
 
O CAMINHO DO FRIO (1964)
 
O CAMINHO DO FRIO : O poema evoca o frio, no que temos :“Foi um fruto que caiu da árvore,/Foi alguém que passou na estrada,/Foi um pássaro,/Foi a história de uma viagem que pousou em mim,” (...) “E senti que ressurgiste com tuas mãos pequenas/Com teus olhos que não tinham cor certa;” (...) “E me indicavas o início do caminho do frio dizendo :/“_ É lá, onde se alinham aquelas árvores/Magras e feias, que começa o caminho do frio.””. A presença misteriosa do poema indica, por fim, ao poeta este caminho do frio que dá título ao poema.
 
POEMAS
 
AURORA LÍVIDA (1958)
 
POEMA DE NATAL
 
A IDEIA de escrever um
 
poema de Natal
 
Traz-me à lembrança o poeta Ungaretti,
 
Na sua casa em Roma,
 
Via Remuria, 3.
 
 
Vejo-o impassível, o rosto difícil
 
De florir um sorriso,
 
Com os seus olhos que parecem
 
cansados
 
De contemplar o fundo do mar.
 
 
Ungaretti é um pássaro revoando,
 
Volteando, girando e, de súbito,
 
molhando
 
As largas asas duras nas águas
 
Onde pousa e, às vezes, se move
 
A imagem do seu filho perdido.
 
 
Ungaretti tem – e é seu consolo –
 
A certeza de que o filho
 
Não tocou no mal,
 
Que não chegou a perceber
 
Que os seres são sempre órfãos
 
E caminham sozinhos.
 

Ungaretti possui um tesouro,
 
E este dia de Natal reabre-lhe
 
Não só a ferida, mas também
 
a vontade de viver
 
Para que viva nele e com ele o seu fruto.
 
 
Penso com inveja em Ungaretti.
 
Invejo a tristeza do poeta.
 
Quem tem uma tristeza assim,
 
Não está de todo abandonado,
 
Não perdeu os últimos sinais
 
Que reconduzem à cidade da infância.
 
 
Neste dia de Natal, na sua casa em Roma,
 
Via Remuria, 3,
 
O poeta Ungaretti está menos só do que eu.
 
 
Possui a sua própria dor a queimar-lhe
 
o peito e a acompanhá-lo.
 
E enquanto sua lembrança esvoaça
 
Em torno do filho pequeno que partiu,
 
Poupa-lhe Deus miséria igual à minha :
 
Contemplar nesta hora festiva
 
A face morta da criança que eu fui.
 
 
BABILÔNIA (1959)
 
OUVE A TARDE CHEGAR ...
 
OUVE a tarde chegar em Babilônia.
 
O rio leva suas águas mansas
 
Até onde se ergueu Jerusalém
 
E hoje é o deserto, a ruína, a solidão.
 
 
Um pássaro volteia no ar, às tontas,
 
Retardatário, branco e inquieto. As asas
 
Tocam nas sombras ainda muito leves
 
Que anteciparam da noite a plenitude.
 
 
Pensa em Jerusalém e no destino
 
O Profeta. O fumo da tarde que se vai
 
Hesita, e na sombra por fim repousa triste.
 
 
_ Ó meu Deus de Israel! – exclama o Doido –
 
Corta-me logo as ligações com o tempo
 
E aquieta no Teu seio o meu tormento!
 
 
ÀS VEZES, QUANDO SÓ ...
 
Às vezes, quando só no quarto estreito
 
Do hotel, em Babilônia, meditava
 
Sobre as desditas deste feio mundo
 
E no Mal triunfante em toda parte;
 
 
Quando a aurora da atroz desesperança
 
Rasgava o véu consolador da noite,
 
A Rainha do Céu o visitava,
 
Em doçura e tristeza toda envolta.
 
 
Nos seus braços maternos o tomava
 
Como se infante fosse, e o embalava
 
E o fazia dormir um sono ameno.
 
 
Ó milagre de amor, estranho e forte,
 
Do próprio desespero vitorioso,
 
Que as feridas do mundo em flores muda!
 
 
O CAMINHO DO FRIO (1964)
 
O CAMINHO DO FRIO
 
Foi um fruto que caiu da árvore,
 
Foi alguém que passou na estrada,
 
Foi um pássaro,
 
Foi a história de uma viagem que pousou em mim,
 
Foi uma hora de ausência em que voltei a mim mesmo.
 
 
E senti que ressurgiste com tuas mãos pequenas
 
Com teus olhos que não tinham cor certa;
 
Estávamos assentados no alto muro de pedra.
 
No sítio em que as águas se dividem.
 
E me indicavas o início do caminho do frio dizendo :
 
“_ É lá, onde se alinham aquelas árvores
 
Magras e feias, que começa o caminho do frio.”
 
Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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