Seculo

 

Lula lá onde o Sol nasce quadrado


13/04/2018 às 15:42
O processo contra Lula e outros petistas vem mostrando o quanto é difícil para esquerdistas e progressistas defender-se do poder descomunal da Direita, que pode ser descrita como uma organização preparada para massacrar impiedosamente adversários e dissidentes.  
 
Faz parte da estratégia de luta da Direita combater como utópicos e irrealizáveis os projetos, ideias e demandas da Esquerda.
 
Mesmo que não tivesse cometido nenhum deslize, a Esquerda seria alvo de acusações. Nesse sentido, o êxito no exercício do governo foi o primeiro pecado. Pesaram também os chamados “malfeitos”, praticados na ilusão de que seriam relevados porque havia precedentes na história nacional.
 
Por fim, não se devem esquecer alguns detalhes inerentes à luta de classes.
 
Por exemplo, onde já se viu um presidente que come os “SS” no final dos substantivos? Um presidente ágrafo!.., como dizia um colunista da Veja. Um mandatário biriteiro!
 
Nem o elogio do presidente americano Obama, referindo-se a Lula como “o cara” (mais popular do mundo), serviu para bloquear a insidiosa campanha contra o PT e seus cúmplices (à esquerda) – os cúmplices à direita mudaram de lado no momento oportuno, ajudando a virar o barco pilotado pelo comandante Luis Ignacio.
 
A principal lição da passagem do PT pela Presidência da República é que seus líderes não podiam ter feito arreglos com traficantes partidários como Bob Jefferson, que botou a boca no trombone por causa de R$ 4 milhões, uma merreca perto do que rolava das engrenagens de empreiteiras ganhadoras de concorrências bilionárias na área de energia – prática histórica em obras públicas no Brasil, como bem sabem até os dirigentes de multinacionais.
 
Uma segunda lição é a profundidade da incisão feita pelos cirurgiões plásticos da Moralidade: para extirpar a Esquerda do poder, eles sacrificaram vários expoentes da Direita, que têm sido obrigados a devolver dinheiro de propina após delações escabrosas envolvendo acionistas e executivos de grandes empresas, além de políticos e “operadores partidários”.
 
Resta saber até que ponto irão os agentes do sistema judicial na caça aos praticantes de malfeitos. Ninguém ignora que os partidos de Direita e de Centro também costumam prevaricar, mas sempre o fizeram com absoluta discrição, conscientes de que ninguém deve cantar de galo no poleiro da impunidade, pois a empáfia pega mal.
 
Lembremo-nos do tesoureiro petista Delubio Soares: ele pode não ter embolsado nenhum centavo, mas nos primeiros anos do petismo no poder deu bandeira fumando charutos e dando gargalhadas em restaurantes paulistanos. O governador carioca Sergio Cabral fez pior que isso em Paris e está condenado a passar décadas na cadeia. Enquanto isso, até hoje ninguém sabe o nome do tesoureiro tucano nos oito anos de FHC no Planalto. O silêncio é de ouro, a discrição de prata; o bronze não interessa a ninguém.  
 
Fechando a terceira lição, nunca antes neste país a Direita tivera de engolir um presidente retirante, fugitivo da miséria nordestina, operário qualificado, líder sindical respeitado pelas comunidades eclesiais de base e a intelectualidade comprometida com mudanças substanciais nas formas de organização da sociedade.
 
O cara foi aceito ao fazer uma gestão elogiada nos aspectos econômico e social, mas passou a ser criticado quando começou a se achar o rei de copas, tornando-se vulnerável ao indicar como herdeiro(a) uma mulher do tipo gerentão a quem impôs como vice o opaco presidente da maior sigla partidária nacional.
 
Ninguém sabe qual o cálculo feito por Lula para manter seu projeto pessoal de poder, mas o fato é que as coisas saíram do seu controle.
 
Parte disso se deve a uma mistura de arrogância e presunção de impunidade: de alguma forma Lula seguiu o caminho trilhado por FHC na pós-presidência. Ao invés de refluir às origens sindicais, saiu pelo mundo a fazer palestras custeadas por empresas brasileiras. Como muitos ex-presidentes, estava fazendo “public relations” em favor do país, mas o outro lado pegou no seu pé e foi atrás do rastro deixado em suas relações familiares, pessoais e empresariais.  
 
Em seu impressionante discurso às vésperas da prisão, condenado a 12 anos, Lula admitiu que seus verdadeiros amigos eram os do sindicato de São Bernardo do Campo – não “os engravatadinhos” que foram sumindo à medida que a barra lhe ia pesando.
 
No dia do Fico de D. Pedro I, Lula voltou às origens. Tarde demais. Destituído de sua aura de poderoso inimputável, ele enfrenta território hostil em Curitiba, mas não se despreze sua capacidade de fazer amigos onde quer que vá parar.
 
O fato indiscutível é que a prisão de Lula simboliza a derrota definitiva da Esquerda, que nunca teve força para vencer a Direita.   
 
Pesando bem, a Esquerda tem tão somente a força do Trabalho, o know how dos operários, a capacidade de argumentação dos intelectuais, o ímpeto da juventude rebelde e, in extremis, o peso dos votos em eleições periódicas, nas quais se defronta com o poder do outro lado.
 
Como detentora do Capital, a Direita controla os bancos privados e os meios de produção (indústrias, minas, terras), os meios de transporte, comércio e logística, além dos veículos de comunicação, hoje chamados de Mídia.  
 
Além disso, domina os instrumentos de Governo, especialmente o Judiciário, que geralmente manipula as leis a favor dos poderosos, ricos e famosos, deixando pouco acesso e espaço de manobra para os defensores dos pobres; no Executivo, detentor de vários instrumentos de ação, incluindo as Forças Armadas, a Direita tem sua maior base operacional – o Orçamento da República; por fim, ela domina o Legislativo, no qual são implacavelmente fortes as bancadas conservadoras do Agro, da Bala, da Bola e da Fé.   
 
Também é preciso compreender que no jogo do poder não há somente dois lados. Entre D x E se alinham forças ambíguas que vão mudando de lado ao sabor de acordos, alianças, parcerias e empreendimentos. A mais notória força supostamente neutra ou imparcial é a Mídia, geralmente alinhada com o Governo e a Direita, fontes dos recursos que a sustentam. As Igrejas têm inclinação semelhante, embora cortejem os seus rebanhos de fieis com sermões ricos em promessas e ameaças.   
 
Diante dessa profunda e histórica desigualdade de forças, como explicar que a Esquerda tenha crescido a ponto de ganhar as eleições de 2002, assumindo o comando do país por bem 13 anos?
 
Primeiro, tivemos o fator Lula, que emergiu do sindicalismo e contou com o apoio dos trabalhadores, da igreja católica, dos intelectuais e dos jovens. Em certo momento, depois de três derrotas eleitorais à Presidência, o fundador do PT foi ungido pela classe média, tornando-se um grande vitorioso. Foi um fenômeno.  
 
Mesmo tendo feito parcerias com a Direita para poder exercer o poder e alcançar as maiorias carentes com medidas de grande alcance social, o petismo perdeu o capital inicial que o projetou em 2002, 2006, 2010 e 2014.
 
Em parte por causa das alianças com os partidos conservadores.
 
Em parte por fazer um pacto nefasto com bancos e empresários.
 
Em parte por jogadas de toma lá-dá cá tradicionais na política brasileira.
 
Não demorou, a Esquerda se deixou minar por dentro por práticas usuais da política nunca antes desvendadas ou punidas.
 
Contaminou-se pela promiscuidade com grandes empresas prestadoras de serviços de obras públicas.
 
O PT não soube, não quis ou não teve coragem de demitir correligionários pegos em práticas desonrosas.   
 
Fatores externos como a crise global de 2008 ajudaram na erosão do poder petista, que também não levou em conta fatores internos com o déficit fiscal, que acabou se tornando o principal cavalo-de-batalha do governo-substituto da presidente reeleita.
 
O PT deixou o governo amargando três grandes baixas: a prisão de José Dirceu, o maior articulador político do partido; o impedimento da presidente reeleita Dilma Rousseff; e a prisão de Lula, fundador do partido e presidente por oito anos.
 
Olhando de fora, pode-se pensar que tamanho colapso tenha liquidado o PT. Nada disso. O partido está vivo. Depois das últimas migrações partidárias de deputados, o PT restou como o maior partido na Câmara com 59 deputados federais, o que representa 14% do total da Câmara.
 
No entanto, a seis meses da eleição, o PT não tem um nome nacional capaz de uni-lo para uma disputa presidencial de verdade.
 
Seja qual for o candidato presidencial do PT, ele será largamente combatido pelos adversários, que terão para isso o provável apoio da Mídia.
 
À medida que nos distanciarmos dos anos 2003-2014, ficará mais clara a dimensão dos feitos do petismo no governo, mas é duvidoso que eles sejam apresentados como maiores do que os famigerados “malfeitos”.  
 
Teoricamente, a Direita poderia superar os recordes conquistados pelos governos petistas nas áreas de agricultura, educação, habitação e saúde, mas duvida-se que o faça porque não pensa em atender as maiorias e, sim, em favorecer as minorias identificadas como os chamados “mercados”.
 
O Brasil provavelmente agradeceria se a Direita tivesse a grandeza de se aproximar do Centro, atuando em favor das maiorias, mas isso parece ser uma possibilidade nula. A Direita não tem solidariedade nem misericórdia. Se adotasse as ideias de Lula, deixaria de ser a Direita.
 
Às vésperas do completar 40 anos, o PT está vivo mas precisa urgentemente consolidar lideranças que levem adiante o legado de Lula e seus companheiros de origem. Bem ou mal o partido tem símbolos como Eduardo Suplicy e Olivio Dutra, reservas morais como Raul Pont e Tarso Genro, esperanças como Paulo Pimenta e Flavio Dino, governador do Maranhão.
 
A curto prazo, tudo indica que não dá para voltar à Presidência, mas é possível continuar vivo e lutando contra a desigualdade, a injustiça e outras mazelas construídas pelo conservadorismo.
 
LEMBRETE DE OCASIÃO
 
“Não adianta tentar acabar com as minhas ideias, elas já estão pairando no ar e não tem como prendê-las (...) Não adianta eles acharem que vão fazer com que eu pare, eu não pararei porque eu não sou um ser humano, sou uma ideia, uma ideia misturada com a ideia de vocês”.
 
Lula no último discurso em São Bernardo do Campo em 7/4/2018

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