Seculo

 

Vampirismo neoliberal


20/04/2018 às 14:03
De tempos em tempos o subgoverno tampão do vice-presidente Michel Temer libera alguns bilhões de reais à população trabalhadora – foi assim com o FGTS de contas inativas e com parcelas do PIS – mas o que ele dá com uma mão, tira com a outra em muito maior escala.
 
Agora, por exemplo, no afã de reativar a indústria de construção civil, a Caixa Econômica Federal foi autorizada a baixar as taxas de juros e aumentou para 70% o índice de financiamento de imóveis para as famílias que ganham até três salários mínimos.
 
Tal medida foi apresentada dias atrás como uma dádiva extraordinária, mas na realidade é um embuste que o governo apronta em cima das baixas taxas de inflação.
 
Se há dois anos, com a inflação a 7% ao ano, a CEF emprestava a 11%, agora que a inflação está abaixo de 3% ela poderia emprestar a 7% e manteria seus ganhos (e até os ampliaria porque emprestaria maiores volumes).
 
No entanto, o que faz a CEF, o “banco social” da república? Baixa a sua taxa para “apenas” 9,50%, anunciando-a como um benefício.
 
Ora, o que aconteceu é que a diferença entre a taxa de juros e a inflação, que era de 4 pontos, subiu para 6,50 pontos. Ou, seja, a Caixa vai ganhar mais do que já vem ganhando. No exercício de 2017, segundo o balanço publicado dias atrás, ela registrou um lucro de R$ 12 bilhões.  
 
Jogada semelhante foi praticada com o salário mínimo, reajustado no limite da inflação passada, sem repor as perdas cumulativas do poder aquisitivo dos trabalhadores que têm nesse valor uma referência de remuneração.
 
A pergunta que fica no ar é: como o governo quer que a economia cresça se a população perdeu poder aquisitivo? A massa salarial caiu, a capacidade de consumo minguou até nas classes médias.
 
Quanto a isso, é preciso compreender que a medida governamental mais perversa -- aprovada pelo Congresso, que se preocupou prioritariamente em atender aos anseios dos empresários, ignorando os interesses dos trabalhadores --, foi a reforma da legislação trabalhista, que retirou direitos e garantias dos empregados, minando profundamente os fundos de desemprego (FGTS) e da Previdência (INSS).
 
Enquanto isso, permanece intocado o fluxo de recursos para o pagamento de juros e amortização da dívida pública, que absorve 51% do Orçamento da república.     
 
Num balanço sumário, se poderia dizer que o governo trabalha para dar aos bancos o que vem tirando dos trabalhadores, aos quais oferece em troca um saque no FGTS ou um empréstimo habitacional – como o cafezinho ou o copo d'água que os laboratórios de análises clínicas ofertam após coletar o sangue dos pacientes que precisam se apresentar ali em jejum.
 
A nefasta sangria financeira praticada pelo governo acaba aparecendo nos índices de desemprego, que não caem abaixo de 13%; reflete-se no aumento do número dos caídos abaixo da linha da pobreza (1,4 milhões de pessoas em dois anos); e se reflete na estagnação da economia, que não reage aos “estímulos” da equipe econômica do governo.  
 
LEMBRETE DE OCASIÃO
 
Após essa “obra” antipopular e antinacional, o ministro da Fazenda Henrique Meirelles deixou o posto para concorrer a um mandato nas eleições de outubro. Tecnocrata sem carisma pessoal, embarcou no MDB, o maior trem eleitoral brasileiro, certo de que ganhará foro privilegiado ao lado da nata da política verde-amarela.

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