Seculo

 

Góngora, a paixão da metáfora


23/04/2018 às 14:42
Luís de Góngora y Argote, nascido em Córdoba, sul da Espanha, em 1561, e falecido na mesma cidade, em 1627, foi um poeta espanhol do chamado Siglo de Oro das letras espanholas. Góngora será o poeta mais importante da que seria a chamada poesia aguda, e líder da corrente literária autodenominada de cultismo.
 
Góngora então segue tal estilo rebuscado, de uso acentuado da hipérbole, de metáforas complexas, complicadas e obscuras, também uma poesia que praticava a dubiedade, tal estro poético logo ganhou o nome de gongorismo. A denominação desta poesia de aguda, por sua vez, vinha da paixão da poesia gongórica pela metáfora, e isto se dando ao paroxismo e como uma obsessão por uma linguagem rebuscada e de alta abstração.
 
O que se denomina o Siglo de Oro era o contexto extraordinário em que se deu a produção artística do século XVII espanhol, pois foi o meio em que nasceu um fenômeno literário único nas letras espanholas, com obras de autores importantes como Quevedo, Lope de Vega, Cervantes e do próprio Góngora.
 
Góngora tinha então a escrita produzida no castelhano imperial, língua que tinha, por sua vez, ocorrências de helenismo, latinismo, uma língua bem retórica e que também trazia alusões mitológicas. E em 1581, já na corte de Filipe III, Luís de Góngora cria algumas inimizades literárias, sobretudo com Francisco de Quevedo y Villegas, um escritor que pertencia ao conceptismo, que cultuava a sutileza dos conceitos, ao contrário do gongorismo que se voltava para a complexidade da forma poética. Já famoso como poeta em 1585, Góngora é citado por Miguel de Cervantes em La Galatea.
 
Poesia de profunda abstração intelectual, tal estilo cultista de Góngora passa a ser considerada uma poesia fria e de mau gosto a partir do século XVIII. Como exercício ocioso de uma vida cortesã, passa a ser vista como uma poesia frívola, tendo a poesia aguda sido somente readmitida ao plano crítico somente no século XX, já no contexto do Modernismo. A poesia de Góngora, de um rebuscamento extremo, repelia a presença de leitores vulgares, destinada somente àqueles que tivessem a erudição exigida para a decifração de tais labirintos metafóricos que produziram obras como a Fábula de Polifemo e Galateia e as Soledades.
 
Por sua vez, na Fábula de Polifemo e Galateia, de 1612, temos a narração de um episódio mitológico descrito no livro XIII das Metamorfoses de Ovídio : os amores do ciclope Polifemo pela ninfa Galateia. A versão gongórica de tal mito nos vem, por sua vez, com uma complexidade de recursos estilísticos, com latinismos, figuras de linguagem de alta elaboração, e uma grande ocorrência de referências da mitologia grega e clássica.
 
POEMAS 
 
FÁBULA DE POLIFEMO E GALATEIA
 
I : Este poema abre já no culto de Talia, musa da poesia ligeira, no que temos : “Estas que me ditou rimas sonoras,/culta embora bucólica Talia,”. O ditado é de rimas sonoras, o poema é fluido, como Talia, no que se vê, então :  “Em que a alva é rosas, rosicler o dia,” (...) “Ouve-as, que minha avena principia,/Se já os muros não te veem de Huelva/Pentear o vento, fatigar a relva.”. A visão bucólica reina neste começo de fábula.
 
II : O pássaro emerge, e o poema se abre tal qual :“Pronto alise do amestrador na mão/O generoso pássaro sua pluma,” (...) “Tascando o freio de ouro alveje-o então/Do cavalo andaluz a ociosa espuma;/Gema o lebrel em seu cordão de seda/E à trompa enfim a cítara suceda.”. Neste poema, que dá seguimento à fábula, mais uma vez temos uma descrição rápida e curta, em que o falcão está pronto para caçar, embora se queira que a cítara (poesia) possa suceder a trompa (caça), o que o poema esperançoso nos aponta, ao fim.
 
III : O poema segue contando a fábula, e logo nos apresentará o personagem central, no que temos : “Dá trégua ao exercício teu robusto,/Ócio atento, silêncio doce, enquanto/Debaixo escutas de dossel augusto/Do músico alto e forte o fero canto.” (...) “Teu nome escutarão os fins do mundo.”. Portanto, Polifemo aqui já nos aparece, este que é o músico alto e forte, cuja fama ecoa não inferior ao som do clarim da poesia.
 
VI : Na gruta está Polifemo, este que conduz seu rebanho, nos ásperos cumes dos montes, Polifemo é o pastor desta sua grei de cabras, no que segue : “Daquele formidável pois da terra/Bocejo, o melancólico vazio/A Polifemo, horror daquela serra,/Bárbara choça é, pouso sombrio” (...) “Grei de cabras esconde : cópia bela,/Que um silvo junta e que um penhasco sela.”. A fábula nos dá agora o mundo em que está inserido o músico e pastor Polifemo.
 
VII : Aqui temos o ciclope, Polifemo, e que era obedecido até pelo mais valente pinheiro, no que temos : “Um monte era de membros eminente” (...) “Ciclope, a quem pinheiro o mais valente,/Bastão lhe obedecia tão ligeiro,/E ao grave peso junco tão delgado,/Que um dia era bastão e outro cajado.”. Por fim, o ser filho feroz de Netuno, de um olho, tem seu poder de gigante.
 
VIII : Aqui temos a descrição física do gigante, do ciclope, de Polifemo, no que segue : “Negro o cabelo, imitador undoso/Das tão obscuras águas do Leteu,” (...) “Voa sem ordem, pende sem asseio;/Caudal é a sua barba impetuoso,/Que (adusto filho deste Pireneu)/Seu peito inunda, ou tarde, ou mal, ou em vão/Sulcada só dos dedos de sua mão.”. Temos aqui imagens como o do Lete, rio dos mortos, ciclope que aqui é impetuoso, a descrição é então grandiosa.
 
XII : Aqui temos então a descrição da música poderosa de Polifemo, que altera o mar e rompe o caracol de Tritão, no que segue : “Cera e cânhamo uniu (que não devera)/Cem canas, cujo bárbaro ruído,/De mais ecos que uniu cânhamo e cera” (...) “A selva se confunde, o mar se altera,/Rompe Tritão seu caracol torcido,/Surdo foge o baixel a vela e remo :/Assim é a música de Polifemo!”. Eis, mais uma vez, a descrição desproporcional deste gigante de um olho, do ciclope que altera o mar com a sua música.
 
XIII : Agora a fábula nos apresenta Galateia, esta que reúne em si as três Graças, filha de Dóris, ninfa, também pavão de Vênus e cisne de Juno, no que segue : “Ninfa, de Dóris filha, e entre as mais bela,/Adora, que já viu o reino da espuma./Galateia é seu nome, e doces nela/Vênus as Graças três junta em só uma.” (...) “Pavão de Vênus é, cisne de Juno.”. A descrição é sublime, e coloca a ninfa no cume da graciosidade.
 
XVI : Palemo é o jovem do mar, mas Galateia não lhe concede o seu favor, embora nos desdéns o atinja menos do que a Polifemo, no que segue : “Jovem do mar, fontes cerúleas tens,/E as cinges de coral tenro, ó Palemo,” (...) “se nos desdéns/Perdoado algo mais que Polifemo,/Pela que, mal te ouviu, calçada plumas,/Tantas flores pisou como tu espumas.”. A fábula segue seu tom de encantamento, na descrição precisa deste mito.
 
XVII : Aqui temos a descrição da fuga da ninfa, na sua carreira longe do enamorado, e segue ligeira, no que temos : “Foge a bela; e bem quer ser o marino/Amante nadador, deixando a esteira,” (...) “Mas que dente mortal, que metal fino/Poderá a fuga suspender ligeira/Que o desdém solicita? Ó, quanto erra/Delfim que segue n`água corça em terra!”. A fábula aqui se mantém como uma descrição do mito em detalhes, e que Góngora nos proporciona com sua mestria metafórica.
 
POEMAS :
 
FÁBULA DE POLIFEMO E GALATEIA
 
I
 
Estas que me ditou rimas sonoras,
 
culta embora bucólica Talia,
 
Ó excelso Conde, nas purpúreas horas
 
Em que a alva é rosas, rosicler o dia,
 
E quando com áurea luz Niebla decoras,
 
Ouve-as, que minha avena principia,
 
Se já os muros não te veem de Huelva
 
Pentear o vento, fatigar a relva.
 
 
 
II
 
Pronto alise do amestrador na mão
 
O generoso pássaro sua pluma,
 
Ou tão mudo na alcandora, que em vão
 
Até o guiso desmentir presuma;
 
Tascando o freio de ouro alveje-o então
 
Do cavalo andaluz a ociosa espuma;
 
Gema o lebrel em seu cordão de seda
 
E à trompa enfim a cítara suceda.
 
 
 
III
 
Dá trégua ao exercício teu robusto,
 
Ócio atento, silêncio doce, enquanto
 
Debaixo escutas de dossel augusto
 
Do músico alto e forte o fero canto.
 
Com as Musas hoje alterna o gosto justo,
 
Que caso a minha possa ofertar tanto
 
Clarim – e à própria fama não segundo –
 
Teu nome escutarão os fins do mundo.
 
 
 
VI
 
Daquele formidável pois da terra
 
Bocejo, o melancólico vazio
 
A Polifemo, horror daquela serra,
 
Bárbara choça é, pouso sombrio
 
E espaçoso redil no qual encerra
 
Quanta dos montes o áspero feitio
 
Grei de cabras esconde : cópia bela,
 
Que um silvo junta e que um penhasco sela.
 
 
 
VII
 
Um monte era de membros eminente
 
Este (que, de Netuno fero herdeiro
 
Com um olho ilustra a testa, esse orbe ingente,
 
Êmulo quase do maior luzeiro)
 
Ciclope, a quem pinheiro o mais valente,
 
Bastão lhe obedecia tão ligeiro,
 
E ao grave peso junco tão delgado,
 
Que um dia era bastão e outro cajado.
 
 
 
VIII
 
Negro o cabelo, imitador undoso
 
Das tão obscuras águas do Leteu,
 
Ao vento que o penteia proceloso,
 
Voa sem ordem, pende sem asseio;
 
Caudal é a sua barba impetuoso,
 
Que (adusto filho deste Pireneu)
 
Seu peito inunda, ou tarde, ou mal, ou em vão
 
Sulcada só dos dedos de sua mão.
 
 
 
XII
 
Cera e cânhamo uniu (que não devera)
 
Cem canas, cujo bárbaro ruído,
 
De mais ecos que uniu cânhamo e cera
 
Alboques, duramente é repetido.
 
A selva se confunde, o mar se altera,
 
Rompe Tritão seu caracol torcido,
 
Surdo foge o baixel a vela e remo :
 
Assim é a música de Polifemo!
 
 
 
XIII
 
Ninfa, de Dóris filha, e entre as mais bela,
 
Adora, que já viu o reino da espuma.
 
Galateia é seu nome, e doces nela
 
Vênus as Graças três junta em só uma.
 
São uma e outra luminosa estrela
 
Luzentes olhos de sua branca pluma :
 
Se rocha de cristal não é de Netuno,
 
Pavão de Vênus é, cisne de Juno.
 
 
 
XVI
 
Jovem do mar, fontes cerúleas tens,
 
E as cinges de coral tenro, ó Palemo,
 
Rico de quantos a água engendra bens
 
Do Faro odioso ao promontório extremo;
 
Porém na graça igual, se nos desdéns
 
Perdoado algo mais que Polifemo,
 
Pela que, mal te ouviu, calçada plumas,
 
Tantas flores pisou como tu espumas.
 
 
 
XVII
 
Foge a bela; e bem quer ser o marino
 
Amante nadador, deixando a esteira,
 
Já que não áspide ao seu pé divino,
 
Dourado pomo a sua veloz carreira;
 
Mas que dente mortal, que metal fino
 
Poderá a fuga suspender ligeira
 
Que o desdém solicita? Ó, quanto erra
 
Delfim que segue n`água corça em terra!
 
 
Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
 

Leia Também

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem

.

SOCIOECONÔMICAS
Cara e crachá

Uns publicaram vídeos e notas nas redes sociais, outros só notas, outros nada. Mas a CPI da Lava Jato continua na conta dos deputados arrependidos

OPINIÃO
Editorial
A Ponte da Discórdia
Terceira Ponte entra novamente no centro dos debates políticos em ano eleitoral. Enquanto isso, a Rodosol continua rindo à toa...
Piero Ruschi
O Governo do ES e seu amor antigo ao desamparo ambiental
Mais um ''Dia Mundial do Meio Ambiente'' se passou. Foi um dia de ''comemoração'' (política)
Gustavo Bastos
Conto surrealista
''virei pasta para entrar mais fácil na pintura de Dalí''
Bruno Toledo
Estado sem PIEDADE!
As tragédias que se sucedem no Morro da Piedade sintetizam as contradições mais evidentes e brutais do modelo de sociedade e de Estado que estamos mergulhados
Geraldo Hasse
Mundo velho sem catraca
Cinquenta anos depois, é possível fazer um curso técnico por correspondência via internet
Roberto Junquilho
Hartung, o suspense
O governador Paulo Hartung mantém o suspense e pode até não disputar a reeleição em 2018
BLOGS
Mensagem na Garrafa

Wanda Sily

Entre a salada e o vinho
MAIS LIDAS

‘Lutava contra um sistema podre e falido com os braços amarrados. Agora estou livre’

Visita de interlocutores de Hartung a Rodrigo Maia sinaliza mudança de cenário

Juiz Leopoldo mais próximo de ir a Júri Popular por assassinato de Alexandre Martins

Hartung, o suspense

Contrato do governo do Estado com a Cetesb sobre poluição do ar continua sigiloso