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Mucane: 25 anos de resistência do povo negro capixaba


13/05/2018 às 10:31
Olhando a fachada bem pintada do edifício histórico na Avenida República, Centro de Vitória, não dá pra imaginar quantas histórias estão guardadas ali. O Museu Capixaba do Negro - Veronica da Pas (Mucane) completa 25 anos de criação neste dia 13 de maio.
 
A data remete ao ano de 1993, quando foi publicado o Decreto 3.527, em que o governo estadual, comandado por Albuíno Azeredo, um dos primeiros governadores negros do Brasil, institui o Museu Capixaba do Negro. A gênese desse processo, porém, vêm de antes, a partir do acúmulo e da luta do movimento negro no Brasil e no Espírito Santo.
 
Um marco para o início do processo foi a Comissão do Centenário da Lei Áurea, que organizou em junho de 1988, o I Seminário Internacional de Cultura Afro na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), com participação de importantes nomes do movimento negro capixaba, além de convidados de outros estados e países, fomentando e visibilizando mais debates e propostas do movimento negro para o Espírito Santo.
 
A partir de todas essas discussões, apareceram diversas reivindicações, entre elas, a de um espaço de memória. Um espaço que já surgiria dialogando com as visões modernas da museologia. Um ecomuseu, um museu vivo, em movimento, com atividades permanentes, em detrimento de um espaço fixo com objetos antigos, como certos museus que retratavam a história do negro exibindo, por exemplo, os instrumentos de tortura usados contra as pessoas escravizadas no passado.
 
De início, Ufes, governo estadual e prefeitura municipal se juntaram para tentar realizar a empreitada, chegando a tentar viabilizar espaços como o da Igreja do Rosário, sítio histórico da religiosidade dos negros no Centro de Vitória. Mas não houve sucesso, as parcerias foram se desfazendo e, por fim, apenas o governo estadual se responsabilizou.
 
Mas feito o decreto, embora já ocorressem algumas atividades, ainda faltava um local fixo. O prédio que serviria de sede só foi entregue exatamente um ano depois do decreto, em 1994, novamente no 13 de maio, Dia da Abolição da Escravatura. Trata-se de uma construção de 1912 feita pelo Coronel Francisco Schwab, que posteriormente serviu de sede para os correios, telégrafo, Departamento de Estatística, delegacia e cooperativa de servidores públicos.
 
O prédio foi transferido para o Departamento Estadual de Cultura, com o Mucane estabelecido no segundo andar, sendo que no térreo funcionava uma delegacia de polícia, o que segundo os primeiros ocupantes do museu, gerava uma série de constrangimentos. “Havia certa hostilidade que nos deixava com um pouco de medo. Por vezes haviam cutucões no teto de baixo, vários tipos de ameaças, que eram bastante constrangedoras. Mas ficamos e resistimos”, conta Ariane Meirelles, dançarina e educadora que participa do Mucane desde os primeiros momentos até hoje.
 
Com o local estabelecido, o movimento negro, liderado pela médica e ativista Veronica da Pas, que coordenou o projeto do museu, iniciou uma “ocupação estratégica”, para garantir que o espaço não fosse perdido. Assim, o museu passou a receber um cursinho pré-vestibular voltado para a população negra, grupo de dança afro, oficinas, exposições, coral afro.
 
A falta de apoio era evidente. São muitos os relatos e registros das condições precárias da estrutura do prédio. Os próprios usuários do espaço e grupos organizados contribuíam com material básico necessário, produtos de limpeza e o próprio cuidado do local. Até o cartaz na fachada que anunciava o nome do museu foi feito pelos próprios usuários do espaço. 
 
“Quando fazíamos aulas de dança, chegávamos 7 horas para limpar a sala. Tudo se fazia com muito trabalho solidário, foi uma forma de conhecer e reconhecer muita gente parceira dentro e fora do movimento negro. Foi um dos momentos mais enriquecedores na minha vida”, lembra Ariane.
 
Veronica da Pas, que hoje dá nome ao museu, foi peça fundamental nesse início. Médica psiquiatra e professora da Ufes, participou da Comissão do Centenário. Havia conseguido chegar a um lugar em que poucas mulheres negras haviam alcançado e servia de inspiração. Ajudou a fundar grupos de mulheres negras, iniciando debates que questionavam o machismo e o racismo. Liderou o projeto de implantação do Mucane e coordenou o museu nos seus primeiros dois anos, se afastando em 1996, poucos meses antes de sua morte.
 
Mas as atividades seguiram acontecendo, com autogestão do movimento negro, em que pessoas e grupos se organizavam para manter o espaço aberto a maior parte do tempo possível, com atividades que atendiam à população do entorno e também de outros municípios. O térreo do edifício foi posteriormente conquistado para ampliação do museu, servindo para exposições de arte.
 
Em 2008, o edifício foi cedido à Prefeitura Municipal de Vitória (PMV), que se tornou gestora do Mucane. Passou a funcionar provisoriamente na Rua Graciano Neves, até que fossem concluídas as reformas para ser reaberto em 2012, depois de muitos atrasos, em evento com presença do grupo afro Ilê Aiyê.
 
Iniciou-se, então, um novo período no Mucane, em que a política pública passa a ser mais presente. Hoje, o espaço possui editais de ocupação para selecionar atividades e também serve de utilização para reuniões, encontros, seminários e oficinas e outras atividades relacionadas com as temáticas do espaço. “O museu representa um espaço com muito poder para alterar completamente essa realidade social da população negra da cidade. Trazer uma proposta cultural vinculada a uma proposta política é muito importante”, acredita Ariane.
 
A participação social é garantida por meio de um Conselho Gestor paritário, composto pelo poder público e entidades da sociedade civil representativas do movimento negro, com poder deliberativo. “Nosso trabalho só é possível porque atua o tempo inteiro com sociedade civil”, diz a atual coordenadora do Museu, a jovem Thaís Souto Amorim, que tinha apenas seis anos quando o museu foi criado. “Nossa militância é manter o espaço ativo o tempo inteiro”.
 
Atualmente há oficinas permanentes de dança, música e contação de histórias com vistas de manter a transmissão da história pela oralidade. Ao mesmo tempo em que também há preocupação com a documentação por meio da manutenção da Biblioteca Joaquim Beato, com acervo específico sobre o povo negro no Espírito Santo, no Brasil e no Mundo. Há grupos artísticos que ensaiam de forma frequente no local, outros realizam eventos e atividades de forma provisória.
 
Apesar das melhorias, da insistência do movimento social e do esforço de gestores e servidores, Ariane ainda considera que o cenário poderia ser melhor se houvesse maior sensibilidade das grandes esferas de poder. “O Mucane possui um curso de qualificação em dança afro com dois anos de duração que é único no Brasil, mas as condições para trabalhar não são adequadas, a estrutura não é como a da Fafi, por exemplo, que não tem foco na questão racial”, reclama. Ela ressalta que as dificuldades são menores justamente pela contribuição voluntária de pessoas e do movimento negro em relação a certas precariedades.
 
Ariane também acredita que as pessoas precisam ocupar mais o local, principalmente os negros e negras. “O museu é aberto a todos e é bom que todos possam participar. Mas as pessoas negras não vão tanto como poderiam. É importante que nos questionemos onde estamos falhando, se está faltando um pouco mais de empenho não só do poder público, mas principalmente do trabalho que fazemos como sociedade civil em nossas comunidades”.
 
Dificuldades à parte, o Mucane é um equipamento cultural focado na cultura negra como poucos no Brasil e assume um caráter estratégico para o combate ao racismo e valorização de manifestações culturais por séculos minimizadas ou ocultadas pelas forças hegemônicas.
 
Olhando sua história em um quarto de século, uma grande lição é que só junto com o poder público ou apesar dele, a sociedade organizada pode impulsionar conquistas importantes, ainda mais pelas populações periféricas, que sofrem diretamente e historicamente com o racismo institucional.

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