Seculo

 

A lírica barroca de Góngora


14/05/2018 às 15:23
Mestre de si mesmo, Góngora, escritor de estro próprio, o gongorismo, vai ao auge do lirismo barroco, com uma produção literária que irá se dividir em duas faces.
 
Uma face será a da lírica popular, que tem um caráter e origem autóctone, sendo uma produção composta por poemas pequenos, com metros curtos, como eram as letrillas e romances, nos quais o poeta se utiliza da ironia para tematizar a vida cotidiana.
 
E a outra face da poesia de Góngora sendo a de uma arte aristocrática, com influência da poesia italiana, e que tem um ar bem culto, muitas vezes hermético, com poemas longos em versos decassílabos, que irá tratar das profundezas do sentimento humano, numa busca ideal de uma beleza absoluta e inalcançável, portanto, ilusória, poesia de elite que vai aparecer então em obras de Góngora como a fábula de Polifemo e Galateia, Soledades e em Sonetos.
 
Objeto de debates e polêmicas, a poesia de Góngora terá uma riqueza vocabular que produzirá neologismos de origem greco-latina, e um conteúdo de referências do mito antigo, principalmente grego, e também de memórias bíblicas, com uma complexidade de sintaxe impregnada de anacolutos e inversões, que serão, portanto, recursos de uma poesia de leitura atenta e culta, que exige um olhar treinado e estudado para quem nela se debruça.
 
A poesia de Góngora também ganha em volume e complexidade por sua abundância metafórica, uma poesia hiperbólica que não prima pela economia gestual, muito pelo contrário, pois é uma poesia que ostenta e se enfeita com sutilezas que exige uma percepção estética bem definida, pois com o gongorismo temos uma herança renascentista, mas já com novos valores estéticos, numa poesia que em sua época será revolucionária.
 
Uma das inovações desta poesia gongórica será o uso da metáfora com um caráter original que irá provocar um estranhamento, pois o poeta irá realizar com sua metáfora associações ou parentescos entre diversos objetos com uma elasticidade engenhosa, ampliando as possibilidades da metáfora poética em sua época.
 
Góngora é um dos maiores representantes da lírica barroca, e que irá herdar as referências clássicas e renascentistas da mitologia greco-romana, mas já com um estro excessivo na metáfora, que irá pelo caminho da sutileza de estilo, produzindo uma nova poesia já distante do paradigma clássico de simplicidade formal.
 
Góngora é autor de uma poesia barroca que em seu caráter aristocrático já não tem uma concepção de beleza no sentido da clareza formal, harmônica, racional, mas sim rompendo com estes cânones estéticos renascentistas, se utilizando neste novo caminho estético barroco da sutileza rica em oximoros, uma poesia que buscará, na sua forma, a transcendência e o gosto pelo enigma.
 
POEMAS
 
XXIII : O poema continua sua fábula, este périplo de amor e de enamorados, no que temos : “A fugitiva ninfa, entanto, onde/Furta um louro seu tronco ao sol ardente,”. A fugitiva, Galateia, vai em meio ao cenário de natureza, e o poema acende o rouxinol, e o sono de Galateia não poderá queimar seus olhos ao sol, no que temos : “De seus membros, dá à fonte ali fluente./Doce se queixa, doce então responde/Um rouxinol a outro, e docemente/Ao sono dá seus olhos a harmonia,/Porque não queime com três sóis o dia.”. A fábula vai nesta dinâmica de perseguição e fuga, como uma boa trama da ilusão amorosa, em todas as suas faces.
 
XXIV : O cão do céu late, e está no calor do dia, como salamandra do sol, no que segue : “Salamandra do sol, vestido estrelas,/Latindo o cão do céu estava, quando”. E agora a trama amorosa se repete indefinida, Ácis se volta para ver Galateia, sua branca tez, que era o cristal mudo, no que temos : “Chegou Ácis;” (...) “A boca deu, e os olhos deu, em tudo,/Ao sonoro cristal, ao cristal mudo.”. O olhar aqui nos aparece como obsessão, pois o ato da contemplação amorosa nos parece um tipo especial de hipnose.
 
XXV : O poema retrata Ácis, este que fere os corações, venábulo de Cupido, no que temos : “Venábulo era Ácis de Cupido,/Por um fauno, meio homem, meio fera,/Em Simétis, formosa ninfa, havido;”. Ácis, filho de um fauno, pois, e da ninfa Simétis, no que segue : “O belo ímã, o ídolo dormido,/Que aço acompanha, idólatra venera,/Rico de quanto o horto oferta pobre,/Rendem as vacas e destila o robre.” E Galateia venera aqui o ídolo dormido.
 
XXVIII : A ninfa aqui sente o agitar da água feita por Ácis, o regato no qual se move a água prateada, no que temos : “A ninfa, pois, a sonorosa prata/Bulir sentiu daquele arroio apenas,/Quando, com as margens vírides ingrata,/Machado fez-se de suas açucenas./Fugira; mas tão frio se desata/O medo ocioso em veias não serenas,/Que ao presto voo, à fuga pronta e leve,/Plumas de gelo foi, grilhões de neve.”. A ninfa Galateia pensa mais uma vez em fugir, mas o temor lhe congela o voo, estas plumas de gelo nos grilhões de neve.
 
XXX : Galateia, neste poema, não toma a oferenda como do ciclope, nem de sátiro e nem de silvano, e temos : “Por do ciclope a oferta não é tida;/Nem de sátiro ardente, nem, no ensejo,/De outro feio silvano, cuja brida/O sono aflija, que afrouxou o desejo./Mas o deus, cuja venda lhe é impingida,”. E Cupido vem com Vênus, nesta visão de Galateia cujo desdém por seus pretendentes faz desta fábula de fuga e amor uma boa trama : “Quer que na árvore seja da mãe deia/O desdém até ali de Galateia.”.
 
XXXI : Cupido mira o peito de Galateia, no que temos : “Entre ramagens do que mais se lava” (...) “Carcaz fez de cristal, se não aljava,/Seu peito branco, de um arpão dourado./O monstro de rigor, a fera brava,/Olha a oferenda já com mais cuidado;/Que seja de seu dono, ela até sente,/Confuso alcaide, o souto viridente.”. Fera de rigor, impiedosa, ela agora já olha a oferenda com mais cuidado e atenção, deste golpe de amor ela está diante deste autor que se oculta.
 
XXXII : Galateia já se perguntando da autoria da oferenda, terá seu coração tomado por este que então dorme, no que temos : “Chamara-o, muda embora, sem o entrave/De o nome não saber que mais queria.” (...) “Confia o intento; e tímida, em sombria/Cama de campo e campo de batalha,/Vê o que finge dormir, que ali lhe calha.”. A fábula então vai da fuga para o fascínio da curiosidade, a ninfa, pois, não é tão inatingível.
 
XXXIV : Galateia está agora com o efeito de Cupido que lhe cravou o peito, e o enigma ganha vulto na fábula, no que temos : “Não, como a ninfa bela, a emparelhar/Com o moço adormecido em cortesia,/Não para apenas, mas o doce atroar/Do lento arroio emudecer queria./Não obstante logo as ramas, ao notar/Colorido o bosquejo que já havia/Em sua imaginação Cupido feito/Só com o pincel que lhe cravou no peito.”. A imaginação aqui arde, e a fábula tem uma virada, Galateia deixa a fuga e agora tem o peito cativado.
 
XXXVI : O veneno do amor inunda o poema, no que temos :“Na grenha rústica se aquieta oculto/O áspide,” (...) “Pois no viril desata de seu vulto/O mais dúlcido, o Amor, de seu veneno:/Bebe-o a ninfa, e dá mais um passo raso/Para esgotar toda a peçonha ao vaso.”. E a ninfa Galateia bebe este veneno, a fábula ganha a desenvoltura da contemplação, nesta caso a ninfa se volta para ver Ácis melhor.
 
XXXVII : Galateia está entre o amor e o temor, suspensa, isto é, com dúvida, no que temos : “Ácis – e ainda mais do que dispensa/A mira de seu sono vigilante -,/Esteja a ninfa inquieta ou bem suspensa,/É sempre Argos atento ao seu semblante,/Lince penetrador do que ela pensa,” (...) “Porque nos seus paládios cego Amor,/Sem romper muros, introduz o ardor.”. Ácis tem olhos de lince, decifra o pensamento de Galateia, e tem esta percepção em meio a um sono fingido.
 
XXXVIII : O poema se abre num agito como a perturbar o sono, no que temos : “O sono de seus membros sacudido,/Galhardo o jovem sua pessoa ostenta,” (...) “Menos ofende o raio, prevenido,/Ao marinheiro, menos a tormenta/Prevista o perturbou, ou prenunciada:/Galateia que o diga, salteada.”. E o sono agora virando agitação em Ácis deixa a ninfa Galateia surpreendida. A fábula de amor e fuga também é de fascínio e surpresa.
 
POEMAS 
 
XXIII
 
A fugitiva ninfa, entanto, onde
 
Furta um louro seu tronco ao sol ardente,
 
Tantos jasmins, quanta erva a neve esconde
 
De seus membros, dá à fonte ali fluente.
 
Doce se queixa, doce então responde
 
Um rouxinol a outro, e docemente
 
Ao sono dá seus olhos a harmonia,
 
Porque não queime com três sóis o dia.
 
 
 
XXIV
 
Salamandra do sol, vestido estrelas,
 
Latindo o cão do céu estava, quando
 
(Pó o cabelo, úmidas chispas aquelas,
 
Se não ardentes pérolas suando)
 
Chegou Ácis; das duas luzes belas
 
Doce Ocidente vendo o sono brando,
 
A boca deu, e os olhos deu, em tudo,
 
Ao sonoro cristal, ao cristal mudo.
 
 
 
XXV
 
Venábulo era Ácis de Cupido,
 
Por um fauno, meio homem, meio fera,
 
Em Simétis, formosa ninfa, havido;
 
Glória do mar e honra das praias era.
 
O belo ímã, o ídolo dormido,
 
Que aço acompanha, idólatra venera,
 
Rico de quanto o horto oferta pobre,
 
Rendem as vacas e destila o robre.
 
 
 
XXVIII
 
A ninfa, pois, a sonorosa prata
 
Bulir sentiu daquele arroio apenas,
 
Quando, com as margens vírides ingrata,
 
Machado fez-se de suas açucenas.
 
Fugira; mas tão frio se desata
 
O medo ocioso em veias não serenas,
 
Que ao presto voo, à fuga pronta e leve,
 
Plumas de gelo foi, grilhões de neve.
 
 
 
XXX
 
Por do ciclope a oferta não é tida;
 
Nem de sátiro ardente, nem, no ensejo,
 
De outro feio silvano, cuja brida
 
O sono aflija, que afrouxou o desejo.
 
Mas o deus, cuja venda lhe é impingida,
 
Gloriosa ostentação, troféu sobejo
 
Quer que na árvore seja da mãe deia
 
O desdém até ali de Galateia.
 
 
 
XXXI
 
Entre ramagens do que mais se lava
 
Naquele arroio, mirto levantado,
 
Carcaz fez de cristal, se não aljava,
 
Seu peito branco, de um arpão dourado.
 
O monstro de rigor, a fera brava,
 
Olha a oferenda já com mais cuidado;
 
Que seja de seu dono, ela até sente,
 
Confuso alcaide, o souto viridente.
 
 
 
XXXII
 
Chamara-o, muda embora, sem o entrave
 
De o nome não saber que mais queria.
 
Nem o enxergou, porém um pincel suave
 
Já o bosquejou em sua fantasia.
 
Ao pé – não tanto, já, do temor grave –
 
Confia o intento; e tímida, em sombria
 
Cama de campo e campo de batalha,
 
Vê o que finge dormir, que ali lhe calha.
 
 
 
XXXIV
 
Não, como a ninfa bela, a emparelhar
 
Com o moço adormecido em cortesia,
 
Não para apenas, mas o doce atroar
 
Do lento arroio emudecer queria.
 
Não obstante logo as ramas, ao notar
 
Colorido o bosquejo que já havia
 
Em sua imaginação Cupido feito
 
Só com o pincel que lhe cravou no peito.
 
 
 
XXXVI
 
Na grenha rústica se aquieta oculto
 
O áspide, do intonso prado ameno,
 
Antes que do penteado jardim culto
 
No seio regalado e de ordem pleno:
 
Pois no viril desata de seu vulto
 
O mais dúlcido, o Amor, de seu veneno:
 
Bebe-o a ninfa, e dá mais um passo raso
 
Para esgotar toda a peçonha ao vaso.
 
 
 
XXXVII
 
Ácis – e ainda mais do que dispensa
 
A mira de seu sono vigilante -,
 
Esteja a ninfa inquieta ou bem suspensa,
 
É sempre Argos atento ao seu semblante,
 
Lince penetrador do que ela pensa,
 
Ou bronze o cinja ou mure-o então diamante:
 
Porque nos seus paládios cego Amor,
 
Sem romper muros, introduz o ardor.
 
 
 
XXXVIII
 
O sono de seus membros sacudido,
 
Galhardo o jovem sua pessoa ostenta,
 
E ao marfim logo de seus pés rendido,
 
O coturno beijar dourado intenta.
 
Menos ofende o raio, prevenido,
 
Ao marinheiro, menos a tormenta
 
Prevista o perturbou, ou prenunciada:
 
Galateia que o diga, salteada.
 
 
Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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