Seculo

 

'A água é capaz de fazer pensar'


15/05/2018 às 17:37

Fotos: Leonardo Sá

A exposição FONTE foi inaugurada em março na Casa Porto, espaço cultural gestionado pela prefeitura de Vitória no Centro da Cidade. Depois de dois meses em exposição, o grupo Pêndulo, organizador da instalação, prepara uma série de atividades para ampliar as vozes do debate proposto pelas obras. A questão da pesca e das comunidades tradicionais será abordada no local da exposição nos próximos dias 24 e 25 de maio, respectivamente, com a exibição dos filmes Vento Forte e O Jabuti e a Anta, seguido de conversas com pescadores e indígenas.

A pergunta que move o desenvolver da exposição, composta pelos artistas Joana Quiroga e Fredone Fone é: “Quando convivemos com algo por tanto tempo somos conscientes da sua presença ou nos acostumamos a ela?” E o que pode ser mais presente em nossas vidas do que a água? É sobre esses elementos que os artistas nos colocam a pensar.

“Tentando resumir, FONTE nasce desta convicção de que o modo com que nos relacionamos com a água tem muito a nos dizer, e pensamos em algumas das infinitas particularidades que isso tem aqui pra nós, no Espírito Santo, na ilha de Vitória, e na Casa Porto”, dizem os artistas em resposta coletiva. Daí a frase que dá título a esta matéria: a água é capaz de fazer pensar, eles acreditam. Como “testemunha onipresente e silenciosa” de tudo que vem acontecendo no planeta.

“Sem ela as reações químicas que permitem o surgimento da vida não aconteceriam, as moléculas não se juntariam, vida não aconteceria, quem dirá homem, história, taxa de juros, elevador”, brincam. A água carrega história e, ao compor toda forma de vida, faz com que essas histórias sejam “transportadas” de um ser para o outro, conectando nós e todos os outros seres. Em nosso próprio corpo, ela está em movimento, bebemos, comemos, suamos, urinamos, e a água faz seus ciclos, por rios, mares, vapores, nuvens, chuvas.

Mas indo além das questões químicas e históricas, os artistas enxergam que as águas refletem aspectos econômicos, políticos e relações de poder, algo que estará abordado de forma mais explícita na série de filmes e debates. “Quem tinha (e tem) acesso à água pode plantar, transportar, expandir territórios, e também dominar outros, caso tenha, justamente, o poder de restringir o acesso à água a alguém”, analisam os artistas.

E isto não se dá somente em caso extremos de guerra, por exemplo, mas no dia a dia: na qualidade da água e esgoto a que muitos têm acesso, a ordem de consumo de água, especialmente em ocasiões de racionamento, com regiões com maior poder econômico normalmente tendo preferência; os impactos enormes que algumas atividades acarretam a este bem comum que é a água, mas que não são devidamente oneradas, porque quem as realiza tem, novamente, um altíssimo poder econômico e político, e assim por diante.

Na cidade, acreditam há uma tendência de nos afastarmos e perdermos a visão global de muitas coisas, por isso, a importância de levantar este debate na Capital, usando a arte como ferramenta para provocá-lo.

“Na cidade, no geral, a comida está embalada no supermercado, o gari passa na rua, a energia vem da tomada, o esgoto vai pelo ralo, a água vem da torneira, e por aí vai. Pode parecer simplório demais, mas acreditamos que muitos de nós não compreendem mais a totalidade das coisas que participam para que cada uma dessas coisas esteja disponível para nós, e menos ainda talvez, do papel de cada um nisso. Se, por exemplo, eu não sei de onde vem a água que eu bebo, nem sou levado a me perguntar sobre isso, quais são as chances de eu me sentir parte desse processo?”, questionam.

Sobre a exposição
O primeiro despertar sobre o tema que deu origem à exposição FONTE foi outra instalação, Addizione, que Joana e Fredone fizeram em anos atrás na Itália, mais precisamente numa ilha no Rio Adda, onde inseriram colchões cheios de água do rio para provocar novas formas de experimentá-lo pela população local. Uma das instalações presentes na Casa Porto remonta esse trabalho, mas desta vez, dentro de uma sala, com colchões de água e projeções do rio nas paredes. A exposição traz outras cinco instalações, uma delas usa um aquário para lembrar a frase de Heráclito, tão filosófica como natural: “Não se entra no mesmo rio duas vezes”.

Na composição, os artistas costumam usar materiais comuns, que fazem parte do cotidiano, para expressar as ideias. “Nossa intenção é que quando alguém se deparar com nossos trabalhos realizados com estes tipos de materiais, tão comuns e presentes no nosso dia-a-dia, se esqueça inclusive de que está olhando para um trabalho de arte, intocável, endeusado”. Colchões, um aquário, copos com água, um freezer com saquinhos de chup chup, elementos que parecem banais e desconectados com a arte, podem ser disparadores de reflexões. “A gente acredita que através deles podemos dar início a uma série de conversas sobre diversos assuntos ligados à nossa vida e à vida em sociedade”.

Além de expor as obras e promover filmes e debates sobre o tema, a exposição FONTE também desenvolveu um material educativo a cargo de Tatiana Rosa, com o objetivo de contextualizar e dar sugestões a professores e educadores que visitem o local com seus alunos. Desde a escrita de uma carta a um ribeirinho à elaboração de uma campanha-manifesto, são ações com o objetivo de estimular novas ideias nos educadores e estudante. “Mais do que fórmulas, são sugestões de como fazer reverberar aquilo que cada um entende da exposição”.

Eles mesmo afirmam que ao iniciarem o projeto não imaginavam que fossem tomar conhecimento de muitas outros pontos, percebendo que a realidade é ainda mais grave e complexa.

AGENDA CULTURAL
Exposição FONTE
Quando: As visitas são gratuitas e acontecem até o dia 2 de junho. De terça a sexta-feira, de 13h às 19h. E nos sábados de 10h às 14h
Onde: Casa Porto das Artes Plásticas - Praça Manoel Silvino Monjardim, 66, Centro de Vitória

Programação de atividades:
24/5 - 19h - Exibição do documentário Vento Forte e roda de conversa com Rosa Maria (Grupo Afro Kisile) e Rosineia Vieira (Associação de Pescadores de Porto de Santana)
25/5 - 19h - Exibição do filme O Jabuti e a Anta e roda de conversa com Werá Djekupé (Marcelo Guarani), cacique da aldeia Kaagui Porã (Nova Esperança)
29/5 - 19h- Bate-papo com os artistas Joana Quiroga e Fredone Fone, do grupo Pêndulo

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