Seculo

 

A Frente Ampla começou em Cachoeiro?


16/05/2018 às 15:45
Como se não bastasse Rubem Braga dizer que Cachoeiro é a capital secreta do mundo, o bairrismo cachoeirense se impõe, despudoramente, na política: “Em Cachoeiro não existe entressafra política!”,  revela o velho historiador.  Mas hoje essa assertiva seria passível de revisão. Digo isso porque ausentes da cena política – citarei uns poucos líderes mais recentes em sua história - Hélio Carlos Manhães, Gilson Carone, Roberto Valadão, Abel Santana, restando, ainda, aos 80 anos, o deputado Teodorico de Assis Ferraço (DEM). 
 
Ferraço, a bem da verdade, já não enfrenta, na sua terra, os embates tão fervorosos como antes. Se limita, hoje, com seu trabalho de articulador, a administrar os votos que alcançou com suas vultosas obras e seu carisma e abre caminhos para sua mulher Norma Ayub (DEM), deputada federal, e seu filho, o senador Ricardo Ferraço (PSDB). As lutas políticas eram (não são mais),  à época, sobretudo ideológicas. 
 
O prefeito que sucedeu Valadão, em seu segundo mandato, Carlos Casteglione – estou falando de nove anos atrás - embarcou muito mais na sigla do PT do que em  prestígio próprio, pois era, em verdade, quase um outsider quando venceu o primeiro pleito.  Teve ao seu lado o denominado núcleo mais progressista da igreja, como o monsenhor Rômulo Zagoto.  
 
Bem, mas a história política de Cachoeiro é uma história a ser contada. No segundo mandato do então prefeito Hélio Carlos Manhães, exatamente em 1978, criou-se uma comissão presidida pelo velho professor e advogado Deusdedith Baptista, a fim levantar os dados mais expressivos dessa história. Mas o projeto não medrou ou floresceu.  O professor era advogado de presos políticos, ele mesmo tido como subversivo pela ditadura militar. Era irmão do famoso líder  ferroviário em nível nacional, o Batistinha, vinculado essencialmente à famosa Leopoldina, que chegou a deputado federal.  
 
A efervescência política em Cachoeiro era tão candente que, a certa altura, premido pelos assédios de Teodorico Ferraço, Hélio Manhães, Roberto Valadão e Gilson Carone, o então governador Eurico Rezende desabafou: “A única solução para trazer paz aos políticos cachoeirenses é aterrar a cidade até o nível do Itabira”. O jornalista Rogério Medeiros é testemunha desse desafogo. Era uma luta ideológica que ultrapassou fronteiras. 
 
O Grupo João Santos, que aportou em Cachoeiro vindo de Pernambuco para comandar a Fábrica de Cimento Nassau, tinha um filho que pretendia ser popular: João Santo Filho. Elegeu Dercílio Gomes de Albuquerque, seu cunhado, deputado estadual. Era um político sem expressão que representava o grupo.  
 
Mas, em plena ditadura, tinha as costas quentes no seio dos militares: o Marechal Cordeiro Farias era diretor das empresas. Foi comandante da Escola Superior de Guerra e chefe do Estado Maior das Forças Armadas. Elegeu-se governador de Pernambuco. Porém, especulação ou não, passou a ser um dos articuladores ao movimento inaugurado por Carlos Lacerda: a Frente Ampla.  Tanto que, como consequência dessa efervescência política, o Grupo João Santos patrocinou a vinda de Carlos Lacerda a Cachoeiro.
 
 O manifesto da Frente Ampla, assinado por Carlos Lacerda, João Goulart e Juscelino Kubitschek, divulgado em 27 de outubro de 1966, foi um sintoma claro da rearticulação da oposição política ao regime militar e do isolamento crescente do governo. Juscelino, Lacerda e Jango haviam sido, respectivamente, os principais líderes do PSD, da UDN e do PTB, os três maiores partidos políticos existentes antes de 1964. 
 
Em Cachoeiro, Lacerda teve encontro reservado com Gilson Carone, o bancário Newton Meirelles e o advogado Galdino Theodoro da Silva e o médico João de Deus Madureira, este tinha sido seu colega de classe, no Rio. Lacerda, na Câmara Municipal, proclamou, com sua voz tonitruante: “Aqui começará a redemocratização do país”.  Porém, a Frente Ampla, afinal, se dissolveu com o AI 5. 
 
Mas Cachoeiro – por qualquer razão – houvera marcado seu encontro com a história, que mantém a falta de entressafra política. 

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