Seculo

 

'Volta da Samarco não é a solução'


16/05/2018 às 18:00
Peixes e mariscos têm voltado ao litoral de Anchieta, sul do Estado, desde a suspensão das atividades da Samarco/Vale-BHP em decorrência do crime em Mariana/MG, em cinco de novembro de 2015, e que até hoje não resultou nem na prisão de qualquer um dos responsáveis, nem na devida assistência aos atingidos – somente em Anchieta há 406 processos de pescadores aguardando decisão judicial – tanto no Espírito Santo como em Minas Gerais, nem sequer no pagamento das multas aplicadas pelos órgãos ambientais.

O fato é que o maior crime ambiental do país e o maior da mineração mundial continua impune, sem nenhuma previsão de retorno da segurança ambiental das regiões atingidas. E, ainda assim, políticos e empresários brigam fervorosamente pelo retorno das operações. 

No fundo do mar, porém, uma transformação positiva acontece, com repercussão benéfica para a vida dos nativos da antiga Aldeia de Reritiba, tornada famosa pela atuação do Beato Anchieta, que lhe rendeu a atual nomenclatura.

Após dois anos e meio sem o despejo de efluentes industriais poluentes e de movimentação de navios no porto para transporte do minério de ferro, estão retornando ao lar os sururus, as ostras, os pepinos-do-mar, a lagostinha, o camarão, as aves, as tilápias, os carás...

“O camarão está vindo pertinho da praia. Ele não tem mais medo, sabe que agora tem comida pra ele”, explica a marisqueira e presidente da Colônia de Pesca Z-4, em Anchieta, Rita de Cássia Oliveira Francisco.

O retorno da vida no mar e da diversidade da fauna tem animado antigos pescadores a retomarem sua atividade econômica tradicional. E a renda obtida com a pesca artesanal já está ultrapassando os salários de empregados da mineradora.

Quem tem barcos de até 12 metros, consegue ficar 18 a 20 dias no mar na região de Anchieta e arredores, chegando a conseguir até R$ 3,5 mil por mês, diz Rita. “Quem tem barco maior vai até o sul da Bahia e consegue renda maior”, conta.

Existem hoje cerca de mil pescadores ativos no município, estima a presidente da Colônia, a partir do número de profissionais registrados, hoje em 316. O número, porém, poderia ser muito maior, não fosse os graves impactos ambientais provocados pela instalação da empresa, na década de 1970.

“Destruiu praticamente o litoral todo”, afirma a presidenta da Colônia Z-4. O breve silêncio operacional das usinas da Samarco tem livrado a fauna e a flora de vasta carga de poluição. Além das atividades permanentes, de movimentação de fundo do mar, há as “descargas noturnas” de pesados poluentes. “Quando dão descarga lá, os sururus morrem todos no outro dia, tudo aberto”, denuncia. “Teria que ter uns estudos técnicos pra explicar isso direito, mas é o que a gente percebe no dia a dia”, relata.

Rita observa com preocupação a grande campanha política em torno do retorno das atividades da mineradora criminosa. “Não é a solução”, afirma, categórica. O que a região precisa, sentencia, é de apoio para os pescadores artesanais, com a recuperação e conservação ambiental e investimentos em estruturas de pesca e turismo.

“Antes o pescador fazia tudo isso, levava o turista pra passear. Deveria usar o pescador para o turismo de novo. A Samarco praticamente não gera emprego para o morador de Anchieta”, destaca.

Novamente defendendo a realização de estudos específicos, mínimo investimento estatal, Rita que o potencial turístico a ser explorado é grande, com a atração de navios trazendo turistas para visitar as áreas de pesca oceânica, as produções de mariscos, as ruínas do Rio Benevente, o memorial do Beato Anchieta, a área montanhosa do município. “O turismo de Anchieta é mar, terra e montanha. Tem como todo mundo ganhar. Isso é a coisa mais linda que tem”, descreve. 

O sonho de Rita já é realidade em várias partes do Brasil e do mundo, como em Boston, nos Estados Unidos, no antigo Porto Maravilha do Rio de Janeiro, e no antigo porto de Belém, no Pará, hoje transformado em atracadouro de pequenas embarcações, e no mundialmente famoso Mercado do Ver O Peso.

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