Seculo

 

A vida é dura, porém doce


17/05/2018 às 07:42
A vida não é para principiantes, definitivamente. E quem acha que pode passar incólume, se enganou feio. Os perigos estão aí, e que sejam bem-vindos, pois eles nos fazem fortes, nos jogam no circuito vivo de que nem tudo se controla. Planejamos coisas, mas nem sempre elas dão certo, ou ainda não deram certo.
 
O erro é o instrumento da sabedoria da vida para nos ensinar a sermos mais tolerantes, mais moderados, mas isso, meu caro, vem com a experiência. Vejo muita gente madura de pouca idade e muita gente infantil de muita idade. O tempo de vida biológico não credencia ninguém à adaptação ao mundo, não que tenhamos que nos adaptar para agradar aos outros ou que seja o caso de adaptar-se.
 
A questão é mais profunda, que queiramos crescer e tomar as rédeas da própria vida, o que não é tarefa fácil, adaptar-se ou não é questão de escolha, e aceitar o mundo e enfrentar os “perrengues”, aprender com as porradas que, vira e mexe, a vida nos dá, é um bom exercício de fortalecimento do tônus vivencial. O conhecimento, a vivência e a experiência, é esta tríade que diferencia os fortes e corajosos das crianças que sonham sem sair do lugar, “deitadas eternamente em berço esplêndido”.
 
Se alguém lhe nega algo porque não pode lhe dar este algo, até por que este alguém não tem o que você quer, a criança sonhadora, que vive na lua, demora a acordar, mas o despertar é necessário. Não estamos no mundo para passear no jardim das delícias, não estamos, nesta vida, num jardim de lazer. É preciso estar atento e forte, não temos tempo para este culto da mediocridade, da vida superficial, da zona de conforto que nos torna uns bundões e que, à primeira desdita, culpa o céu e a terra e, pior, os outros.
 
Pois esta pessoa não reconhece o próprio fracasso, os próprios erros, e acha que o outro, que não lhe deu a felicidade plena, quanta audácia, é culpada de todo infortúnio de que ela é vítima. Não temos tempo para príncipes encantados ou princesas encantadas, não temos tempo para dar a troco de nada, não somos a tábua de salvação de gente que não quer crescer.
 
Muitas vezes a criança sonhadora demora a entender, culpa os outros, acha que está certa em seu desatino, mas um dia, depois de muita porrada, a criança passa a entender que é ela e não os outros é que tem que tomar conta de si. Não é fácil, mas temos que tentar, e saber que a vida não é vivida na zona de conforto, de que querer no outro o seu sentido, do querer viver a vida do outro, numa obsessão que não tem fim, não é o caminho do que chamam de sábio.
 
Então é hora de mudar, mudar a conduta, mudar o pensamento, e mudar, sobretudo, as atitudes. Ninguém quer uma pessoa que não quer nada com a hora do Brasil por perto, a virtude da vida é ter com o que compartilhar, e não sugar a energia dos outros de forma desleal. É, então, a hora da grande mudança, da grande revolução, de sorrir sim, mas de ter postura séria quando o assunto é a própria vida, a construção de seu próprio destino.  Aí é a hora do primeiro passo rumo à maturidade, bem-vindo à vida adulta.
 
A sabedoria é um exercício diário, o entender o espaço do outro, o respeito pela vida do outro, o não confundir um gesto educado e gentil com disponibilidade a qualquer hora. A vida é um caminho árduo, a vida é dura sim, muito dura, mas também é doce, e sua doçura maior vem quando sabemos que estamos tentando, de que estamos no caminho certo, caminho de crescimento, caminho de luz, libertação das velhas ilusões e um bem viver que não é do bon vivant, mas do que luta.
 
E é na luta pela própria vida, de seu lugar no mundo para ser no mundo, no incremento de seu ser, no leque cada vez maior das percepções, em ser agradável às pessoas sem querer agradá-las, mas em ser agradável por estar crescendo, se incrementando, buscando o entendimento da vida, é então que a conquista da sabedoria de saber que a senda universal do ser humano é dura, nos leva a crer e ter certeza de que a vida pode ser maravilhosa, como diz o poeta.
 
Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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