Seculo

 

Minha luta com o sol - Pentagrama - Parte I


24/05/2018 às 07:39
(CONTO-POEMA) – INSPIRADO EM 2 SONHOS QUE TIVE
 
1° SONHO
 
Estava viajando de ônibus de madrugada e no meu MP4 tocava Pharao's Dance, de Miles Davis, do seu álbum de Jazz Fusion “Bitches Brew”. Já estava dormindo e, no meio da música, me vi nas areias de uma praia ou duna lutando com um ser invisível, eu lutava contra esse ente maligno rolando nas areias, enquanto o trompete de Miles dava seus gritos agudos entre os graves do baixo, parecia tão real, não me lembro qual foi o fim do sonho, lembro desse trecho, talvez pela música visceral de fundo, com certeza pela combinação de luta espiritual com fundo musical, certamente pelo trompete, certamente por Miles, e sem dúvida, pelo meu amor pelo Fusion como abertura espiritual, e não existe tal abertura sem luta espiritual, os nossos demônios estão sempre despertos, a luta pode ser de vida e morte, lutei na areia pela minha vida, e o trompete de Miles Davis estava lá, o terceiro olho do meu espírito se abriu com Pharao's Dance, linguagem cifrada, hieróglifo do ser eterno, eu lutei com o assassino, eu venci o suicídio, eu despertei depois da música e me senti vivo, era duna ou praia, não me lembro, mas era areia, era eu e o inimigo lutando ferozmente, era o trompete cercando todo o enredo de que não lembro o fim e nem sei o por quê.
 
2° SONHO
 
Mais uma vez estava viajando de ônibus de madrugada e no meu MP4 tocava, desta vez, Not To Touch The Earth, do The Doors. Parecia que eu via um sol naquele formato inca, não tenho certeza, o que marcou o sonho foi que estava na praia, conseguia ver o mar e, do nada, com o Doors entrando em meus tímpanos, e a introdução do baixo forrando a cena, vi o sol inca ficar vermelho, e dentro do círculo de fogo formar-se um pentagrama de cabeça para cima (não era o invertido do Satanismo) ... o baixo orgânico tocando, not to see the sun ... e, de súbito, o sol-pentagrama vermelho começa a descer em linha reta, uma vertical psicodélica no horizonte, este sol inca desce ao chão, o mar, sei lá,  a descida é em velocidade uniforme, como se fosse o movimento de um ser consciente, e depois tem um lapso e novamente acordo, e a memória viva me lembrando da imagem que tinha presenciado, o sonho “run, run, run, run with me ....”, que coisa doida, este foi o segundo sonho.
 
ESCLARECIMENTO
 
Por um tempo a minha memória me enganou e achei que estes dois sonhos eram um só, donde tirei a minha ideia de luta com um sol-pentagrama, mas pela música lembrei que eram duas estórias diferentes, as músicas eram diferentes, isso me fez lembrar que foram duas ocasiões diferentes, mas vou seguir aqui um relato ficcional inspirado nestes dois sonhos, usando a imagem de minha memória traída como se se tratasse de um único sonho, vou romantizá-lo, mas o sonho bruto já está acima relatado, agora vou juntar ao signo psicodélico uma estrutura narrativa em forma de um conto-poema. É só seguir o curso da pena, a seguir ...
 
CONTO-POEMA
 
Fui seguindo viagem rumo às dunas, saí de minha cidade no início da semana, queria ver o mar aberto e a abóbada celeste brilhosa das vilas do interior, as dunas eram o caminho mais poético para o mar. Levava a minha mochila com livros e uma mala com roupas, acordei cedo pela manhã e fui à rodoviária, cheguei bem cedo em busca do meu sonho que queria ver, em busca do segredo das areias quando se anda numa duna com o pé queimando, com os olhos buscando o horizonte depois de um certo trecho da caminhada, o momento mágico em que a montanha de areia e vento deixa entrever um risco de mar, é ali aqui o horizonte, é acolá logo lá o horizonte, o dia de verão perfeito, o mar azul cristalino, os olhos serenos ao beijarem o risco no fim da visão, o horizonte e sua fuga. Que vastidão! Era assim que esperava que fosse a chegada ao meu destino, um poeta mambembe em busca de um sonho de areia, e depois deste sonho de areia, um rasgo da visão que olha o sem fim, o horizonte que se vê e não se vê, o paradoxo do estar vendo algo que sempre aponta para um estar-além que nunca ninguém vê.
 
Notas ao sol, a fuga do horizonte
 
Está muito além da visão,
 
Noite que escurece o olho,
 
Dia que vive pela areia,
 
Dia vivo que costumo lembrar,
 
Eu vi o sol e a música
 
Como signo de um segredo,
 
A carta do navegante não sabe apontar,
 
A bússola se perde ao navegar,
 
Quando se perde a visão e seus olhos
 
Lacrimejam de tanto sal.
 
 
Tocava Jazz ou Blues nos meus tímpanos,
 
Eu veria o infinito como som,
 
E imaginaria no meu ouvir como visão,
 
A estrela vai e volta com brilho de fogo,
 
A estrada até a praia é cheia de segredos,
 
Quantas ondas eu peguei e outras que deixei passar ...
 
Quantas horas em caminhar e se perder?
 
Por se achar quantas horas mais?
 
 
Eu disse ao enigma:
 
Seu signo eu torno palavra,
 
Não me leve a mal,
 
Caiu em cima de mim
 
Esta porra como um alarme.
 
Vejo e não sei ao certo,
 
Uma onda pegou a sua esmeralda.
 
Um baixo bem robusto forrou o seu topázio.
 
 
Como andei a anunciar, me escondi e fui buscar ...
 
Como voltei já qual borboleta no ar ...
 
Fui ao meu autoconhecimento, na tábua da lei
 
Estava grafado com pontas de fogo:
 
“Conhece-te a ti mesmo, penumbra não vê,
 
sombra não sente, a luz vê e sente, mexa com
 
seus cadáveres e deixe eles dançarem,
 
depois leia sem parar, leia até a sua face cair no
 
livro, não descanse, não seja fraco,
 
olhe em volta e esqueça tudo,
 
olhe mais para dentro, cada vez mais,
 
não se perca, dance com os outros cadáveres,
 
lhes diga que são cadáveres, dá a lembrar
 
sempre da morte, a deusa que ninguém gosta,
 
faça profecias publicadas em jornais,
 
faça orgias em praias pela madrugada,
 
alimente a sua mente, veja as serpentes vãs,
 
mate quem quer te matar,
 
ouça o grito da multidão pelo seu socorro,
 
mate todos em um gesto da cruz,
 
mate a moral com seu cadáver fundamentalista,
 
contradiga tudo, por você ser a contradição radical,
 
confunda o jogo, eles gostam de confusão,
 
não permita que te confundam, este é o primeiro
 
mandamento do guerreiro,
 
olhe em volta e esqueça, olhe cada vez mais para dentro.
 
Enlouqueça algumas vezes por pura diversão,
 
Volte à razão depois mais forte que um leão,
 
Não olhe mais em volta, eles perderam a razão.
 
 
Veja seu próprio horizonte, veja o sol ficar vermelho,
 
Faça dos ossos e carnes um espírito total,
 
Veja o todo em tudo como se fosse vazio,
 
Faça uns diários de meditações,
 
Duvide de sua crença,
 
Não há razão sem dúvida,
 
Não caia em ceticismos,
 
Não ande pela verdade absoluta,
 
Só você sabe o que você sabe ...
 
Conhece-te a ti mesmo!”
 
Peguei o meu ônibus de viagem, sempre tenho prazer em viajar, e estou acostumado ao clima de rodoviária, eu me sinto bem nesses caminhos de ida e volta, e me parece que minha terceira visão (que, de vez em quando, é favorecida pela música, sobretudo nessas viagens) se abre no estado de transe do sono, o inconsciente individual adormece, o sonho entra, na verdade a imagem que vem no sonho já não mais pertence ao meu inconsciente individual, tais imagens têm outra origem, é do inconsciente coletivo junguiano, o qual foi colhido da filosofia oriental e sobretudo do Budismo, a condição de transe do satori seria este estado fundamental do ser em si mesmo, um paradoxo, pois o encontrar-se no vazio parece com o perder-se, mas neste paradoxo se abre a terceira visão, já como ente ontológico mesmo, não mais eu ou ego, as individualizações não fazem mais parte deste estado, a visualização que parte deste estado búdico de vazio (aí entram os arquétipos do que é símbolo que unem culturas das mais diversas, o que pode ser percebido com mais força na mitologia, todas aparentadas em seus simbolismos), aqui entra o meu sonho, eu vejo ele entrar com suas imagens que sei que não me pertencem, eu não as produzi, o sonho é o estado que nos diz com todas as letras que nós não estamos no comando coisa alguma, só temos esta autonomia ilusória e individualista na vida do ego e do cotidiano, o sonho nos desnuda em símbolo, e como não há mais alguém ali, restam as imagens, e elas falam outra língua, da qual não temos autonomia, Freud contradisse a razão neste transtorno da loucura, e a loucura só é entendida em seus arcanos naqueles que a vivenciaram, e o sonho é um estado de loucura comum a todos, não somente aos psicóticos. O sonho diz: eu navego em você, este que lhe mostra isso é o próprio isso, não tem mais seu lugar, você não está aqui, só a imagem e não há decifração, eu te proponho um jogo, de alguns você lembrará, parecerá que você esteve lá, mas se esteve, não foi o seu pequeno ego, mas algo maior e mais fundamental, um estado fundante animal-símbolo, sua ontologia do sonho é mais que psíquico, é sobretudo espiritual, antes do vazio absoluto do satori, passam-se tais quimeras, leia O Livro Tibetano dos Mortos que verá com os seus próprios olhos.
 
A viagem foi longa, duas noites sonhei e veria em um único lance esses dois sonhos se juntarem como uma coisa só, os dois sonhos destas duas noites foram “explicados” acima, agora tudo tornaria-se real, eu não esperava que os sonhos que tive nesta viagem aconteceriam realmente, pensei em se tratar de pura inspiração musical, não notei que era profetismo, as notas que derramarei agora não me pertencem, toda esta viagem de que não há eu no transe é muito real, “é oráculo o que eu digo, e não sabendo explicar-me sem palavras pagãs, queria calar-me” (Arthur Rimbaud, Uma Temporada no Inferno, do poema “Sangue Ruim”), pois fui neste não mais eu em termo de símbolo em estado puro, quantas noites seriam como aquelas? Onde mais senão no susto eu as veria? As visões, eu disse, tenho o vinho e a minha pena, e o sol na minha vista, tenho medo de ficar cego, mas o sol no sonho fica vermelho, mas você o vê sem se cegar, ainda lembro, talvez, quando a poesia maturou o suficiente, eu lembro, a memória é certa, e meus passos são certos também, eu vejo, e calo alguma coisa, no entanto, tenho desta miséria demais, o de ter estado louco, acúmulo de visões, sabatina de visões, o espírito como corrosão da percepção, eu estava lá ... na loucura “Eu é um Outro” (Arthur Rimbaud, Carta Dita do Vidente), cisão, corrosão, todos os venenos, todas as magias, magos brancos e magos negros, a festa como possessão, eu não fui anjo, eu não fui demônio, eles moram em mim, este é o mistério, a estória de um louco vive no mistério radicalmente, mas aí vem o sonho, eu veria estes tais dois sonhos de verdade no fim da estrada, nas dunas eu os poderia ver dançando em minhas visões, não vou enumerá-las todas, vou relatar apenas esta: “A minha luta com o sol-pentagrama.”
 
Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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